Dois estudos publicados nesta terça-feira (24/3) nas revistas científicas Nature Medicine e Nature Health indicam que a febre do Oropouche já infectou ao menos 5,5 milhões de pessoas no Brasil desde 1960, revelando uma dimensão muito maior da doença do que a apontada pelos então registros oficiais.
De acordo com os pesquisadores, a subnotificação é expressiva: para cada caso confirmado, podem existir até 200 infecções reais. No total, a doença já atingiu cerca de 9,4 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe ao longo das últimas décadas.
Os dados foram obtidos a partir da análise de amostras de sangue coletadas em três períodos — novembro de 2023, junho e novembro de 2024 — com o objetivo de identificar a presença de antígenos que indicam contato prévio com o vírus. Os resultados mostram que o surto mais recente, entre 2023 e 2024, teve alcance semelhante ao registrado entre 1980 e 1981. Em Manaus, cerca de 12,5% da população foi atingida, percentual que se aproxima de 15% em todo o estado do Amazonas.
A capital amazonense é considerada um dos principais centros de dispersão da doença. Com cerca de 2 milhões de habitantes e forte conexão com outras regiões do país, a cidade tem papel estratégico na propagação do vírus para estados como Espírito Santo e Rio de Janeiro, que registraram forte impacto em 2024.
Apesar da ampla circulação do vírus, os registros oficiais seguem baixos. Nesta década, pouco mais de 30 mil casos foram notificados, número considerado muito inferior à realidade. Segundo os estudos, isso se deve tanto ao acesso limitado aos serviços de saúde na região amazônica quanto à alta proporção de casos leves ou assintomáticos, que podem representar a maioria das infecções.
A febre do Oropouche apresenta sintomas semelhantes aos de outras arboviroses, como a dengue, o que dificulta o diagnóstico. Em situações mais graves, a doença pode evoluir para complicações neurológicas, problemas materno-fetais e até morte.
A emergência do vírus em 2023 também evidenciou sua expansão pelo país. O Espírito Santo registrou a maior taxa acumulada, com 318 casos por 100 mil habitantes, enquanto a região Sudeste concentrou 57,9% das notificações, consolidando-se como o novo epicentro da doença.
Diferentemente de outras arboviroses mais conhecidas, o vírus Oropouche é transmitido pelo maruim (Culicoides paraensis), um inseto típico de áreas rurais e ambientes úmidos. Por isso, a incidência da doença pode ser até 11 vezes maior no campo do que nas cidades.
Os pesquisadores destacam que o comportamento do vetor exige estratégias específicas de combate, diferentes das adotadas contra o mosquito Aedes aegypti. Medidas urbanas tradicionais, como o uso de fumacê, tendem a ser pouco eficazes, já que o maruim se reproduz em solos úmidos ricos em matéria orgânica, comuns em áreas florestais e periurbanas.
Outro ponto de atenção é o surgimento de uma nova linhagem do vírus, resultado de recombinação genética, que aumentou sua capacidade de disseminação e dificultou a resposta imunológica de pessoas previamente infectadas.
Diante do avanço da doença, especialistas defendem mudanças na vigilância epidemiológica, com ampliação de estudos sorológicos, uso de bancos de sangue como alerta precoce e integração de ferramentas digitais e genômicas. A descentralização dos testes e a criação de sistemas de monitoramento contínuo também são apontadas como essenciais para conter a expansão da febre do Oropouche no país.
*Com informações das agências Fapesp e Brasil
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