VELHICE MAIS SAUDÁVEL

Cozinhar protege o cérebro, de acordo com pesquisadores

Preparar comida em casa pode reduzir em 30% o risco de demência em idosos, indica pesquisa

Apesar de ser cada vez mais comum pedir refeições ou ir até restaurantes, preparar comida em casa tem seus benefícios, entre eles, reduzir em 30% o risco de demência em idosos, conforme sugerido por uma pesquisa publicada ontem na revista Journal of Epidemiology & Community Health. Segundo os autores, as chances de desenvolver a condição são até 70% menores para pessoas mais velhas com pouca experiência culinária, mas que cozinham pelo menos uma vez na semana.

Para o trabalho, os pesquisadores utilizaram dados de 10.978 participantes, todos a partir dos 65 anos, cuja saúde cognitiva foi acompanhada por seis anos, até 2022. Um quinto dos voluntários tinha mais de 80 anos e metade eram mulheres. Um terço tinha menos de nove anos de escolaridade e mais da metade era aposentada. 

Os participantes responderam a questionários sobre a frequência com que faziam refeições caseiras do zero, variando de nunca a mais de cinco vezes por semana. A competência para cozinhar foi avaliada conforme a capacidade ou incapacidade de descascar frutas e legumes e de preparar ensopados. 

Aproximadamente metade dos participantes cozinhava pelo menos cinco vezes por semana, enquanto mais de um quarto não. As mulheres e voluntários com experiência na culinária eram mais inclinados a preparar mais refeições em casa do que os homens e quem não tinha conhecimento gastronômico. Durante o período de acompanhamento, 1.195 pessoas desenvolveram demência, uma incidência de 11%; 870 morreram e 157 mudaram-se antes de desenvolverem o quadro.

A análise mostrou que preparar refeições do zero pelo menos uma vez por semana foi associado a um risco 23% menor de demência em homens e 27% menor em mulheres. Para aqueles com pouca habilidade culinária, fazer comida, também uma vez em sete dias, revelou uma redução de 67% no risco da condição.  

Vários domínios

Segundo a psiquiatra Renata Verna do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, atividades como cozinhar são particularmente interessantes porque combinam múltiplos domínios cognitivos em um contexto funcional e significativo. "A chamada reserva cognitiva refere-se à capacidade do cérebro de tolerar alterações neuropatológicas sem manifestar sintomas clínicos relevantes. Cozinhar contribui para isso porque faz uma estimulação que engloba memória, atenção, linguagem e funções executivas; aprendizado contínuo; engajamento sensorial e motor e reforço emocional e motivacional. Além disso, preparar refeições frequentemente se liga à rotina estruturada, nutrição adequada e maior autonomia, fatores que, por si só, protegem contra o declínio cognitivo."

Para a especialista, uma questão subestimada é que cozinhar não é apenas uma atividade cognitiva, é algo identitário e emocional. "Preparar refeições ativa o sentido de utilidade e autonomia, trabalha a regulação emocional, fortalece conexões sociais — ao cozinhar para os outros — e reforça memória autobiográfica por meio de receitas familiares. Na prática psiquiátrica, isso dialoga diretamente com a prevenção de depressão no idoso, reduz a apatia e mantém a funcionalidade global. Ou seja, o benefício possivelmente não é apenas "neurocognitivo", mas neuropsiquiátrico integrado."

Conforme os autores, os benefícios se mantiveram mesmo após considerar fatores potencialmente influentes, como estilo de vida, renda familiar e anos de escolaridade, e foram independentes de outras atividades positivamente associadas à reserva cognitiva, como artesanato, trabalho voluntário e jardinagem. "Criar um ambiente onde as pessoas possam cozinhar suas próprias refeições quando forem idosas pode ser importante para a prevenção da demência", destacaram.

No entanto, os pesquisadores frisam que se trata de um estudo observacional e, portanto, não permite tirar conclusões definitivas sobre causa e efeito. Além disso, os pesquisadores destacam que casos de demência leve não teriam sido incluídos nos dados do registro e que a classificação das habilidades culinárias pode não ter diferenciado entre aqueles que preparavam refeições simples por não gostarem de cozinhar e aqueles que eram incapazes de cozinhar. 

 

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