A história da amizade entre cães e seres humanos é bem mais antiga do que se imaginava, segundo escavações paleontológicas na Turquia e no Reino Unido. Análises genéticas dos restos mortais de dois cachorros primitivos indicam que há pelo menos 15,8 mil anos esses animais já conviviam com grupos nômades. Dois estudos descrevendo a descoberta foram publicados na revista Nature, recuando em mais de 5 mil anos as evidências confirmadas sobre a domesticação canina.
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"Há muito tempo acreditamos que os cães evoluíram dos lobos cinzentos durante a última Era Glacial, mas as evidências físicas de sua associação com os humanos têm sido difíceis de confirmar", disse Oliver Craig, do Departamento de Arqueologia da Universidade de York e um dos pesquisadores do estudo. "Durante os estágios iniciais da domesticação, cães e lobos eram quase idênticos, e diferenças comportamentais não aparecem no registro arqueológico", explicou o especialista, em uma coletiva de imprensa on-line sobre a descoberta.
Segundo os cientistas, estudos anteriores baseavam-se em pequenos fragmentos de DNA e medidas esqueléticas. Agora, porém, eles conseguiram reconstruir genomas completos a partir de 216 restos mortais com mais de 10 mil anos, incluindo 181 amostras anteriores ao Neolítico, quando a agricultura ainda não havia se estabelecido. As amostras vieram de sítios arqueológicos da Europa e foram analisadas com uma técnica chamada captura por hibridização, que aumenta a quantidade de DNA extraível. O resultado foi comparado ao de mais de 1 mil cachorros modernos e antigos.
Separação
Os cientistas separaram as amostras em duas categorias — cães e lobos —, determinando o grau de semelhança de cada uma com um canídeo atual. Foi possível fazer essa separação em 141 dos esqueletos, o que resultou em algumas surpresas, como a identificação de um lobo de 13,7 mil anos, da Bélgica, considerado anteriormente um cachorro devido ao pequeno porte.
Pesquisas anteriores do Instituto Francis Crick, no Reino Unido, sugeriram que os cães descendem de duas fontes distintas de lobos, uma do leste da Eurásia e outra do oeste. Usando um modelo estatístico, os cientistas mostraram que todos os cachorros europeus primitivos do estudo atual estão associados ao lobo oriental, com uma ancestralidade ocidental bem menor.
"Sem usar essas ferramentas genéticas avançadas, não seríamos capazes de distinguir com segurança cães de lobos com base apenas em evidências esqueléticas", explicou Anders Bergström, professor da Universidade de East Anglia, ex-pesquisador de pós-doutorado no Crick. "Também não teríamos conseguido reunir uma visão tão abrangente da sua evolução." Segundo o pesquisador, como o cão de Kesslerloch, com 14,2 mil anos, já era mais semelhante aos posteriores da Europa do que aos da Ásia, os animais foram domesticados muito antes desse período, dando tempo para que as diferenças genéticas surgissem.
O biólogo André Luís Soares Smarra, mestre em biofísica molecular, de São Paulo, enumera algumas hipóteses para explicar a baixa transferência permanente de genes entre cães e lobos. "Provavelmente, foi pela existência de barreiras comportamentais (diferenças de socialização, reprodução controlada pelos humanos), ecológicas (ocupação de nichos distintos) ou até mesmo genéticas (incompatibilidades reprodutivas emergentes)", diz. "Acrescenta-se a isso um possível controle reprodutivo exercidos pelos humanos, o que garantiu a manutenção de uma linhagem canina distinta dos lobos."
Convivência
Além do estudo genético, os pesquisadores avaliaram como teria sido a convivência entre humanos e cães primitivos. Embora o papel exato seja incerto, os autores dos dois estudos acreditam que esses animais estavam "intimamente integrados às comunidades humanas". Uma hipótese é que os cachorros já tinham um valor significativo — social ou simbólico — suficiente para serem trocados entre diferentes comunidades, funcionando como uma espécie de ponte entre os grupos humanos. Para fazer essa associação, os pesquisadores citam o fato de culturas distintas do Paleolítico, como os magdalenianos e os epigravetianos, possuírem cães geneticamente semelhantes.
Contribui para reforçar essa ideia o fato de evidências arqueológicas indicarem que os cachorros eram tratados de maneira semelhante aos humanos. Em sítios como Gough's Cave, no Reino Unido, por exemplo, restos mortais de canídeos apresentam marcas de manipulação pós-morte semelhantes às observadas em ossos humanos, indicando práticas culturais compartilhadas. Além disso, o enterro intencional de cachorros apontam para um significado emocional ou cultural, destacaram os pesquisadores.
"O estudo revela o início de um vínculo entre humanos e cães que perdura até hoje", sintetizou, em nota, Sophy Charlton, pesquisadora do Departamento de Arqueologia da Universidade de York. "É uma narrativa que começou no fim da Era do Gelo, mas que foi fundamental para muitas das raças modernas que vemos atualmente."
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