
Um dos objetivos da Artemis II, além de testar a tecnologia para uma futura colonização da Lua, é entender mais sobre a saúde humana no espaço profundo. Há muito tempo os cientistas tentam descobrir todos os efeitos que uma viagem como essa causa no corpo. Até agora se sabe que, em geral, os astronautas perdem densidade óssea e apresentam atrofiação dos músculos, além de que a falta de gravidade mexe no DNA, e nos sistemas imunológico e cardiovascular.
Além disso, pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, também descobriram que o ambiente espacial acelera o envelhecimento das células-tronco hematopoiéticas humanas, essenciais para a produção de sangue e o funcionamento do sistema imunológico. Utilizando nanobiorreatores automatizados com inteligência artificial em missões à Estação Espacial Internacional, o estudo mostrou que essas células perdem eficiência, acumulam danos no DNA e apresentam encurtamento dos telômeros — características típicas de envelhecimento precoce. Além disso, tornam-se mais ativas de forma prejudicial, esgotando sua capacidade de regeneração e aumentando sinais de inflamação e estresse celular.
Para os especialistas, esses resultados aprofundam descobertas anteriores ao revelar mecanismos celulares mais detalhados desse envelhecimento acelerado. Apesar dos danos observados, parte das alterações pode ser revertida em ambientes saudáveis, sugerindo potencial para terapias de rejuvenescimento celular.
Conforme Isabela Carballal endocrinologista do Hospital Brasília Águas Claras, da Rede Américas, no espaço, o corpo passa por adaptações importantes. "Há aumento do cortisol conhecido como hormônio do estresse, alterações na melatonina pelo ciclo irregular de luz e mudanças em hormônios ligados ao metabolismo, músculos e ossos. O confinamento e o estresse elevam o cortisol, o que pode afetar sono, imunidade e até questões sexuais."
Segundo o ortopedista Ivo Zulian Neto, integrante da plataforma Inki de consultas, a exposição prolongada ao ambiente de microgravidade provoca um conjunto de alterações que lembram um estado acelerado de desuso do sistema musculoesquelético. "A perda de massa óssea ocorre rapidamente, porque o osso deixa de receber estímulos mecânicos, levando à diminuição da formação óssea e ao aumento da reabsorção, com redução mensal significativa, sobretudo em coluna, pelve e membros inferiores. Paralelamente, há atrofia muscular importante: músculos antigravitacionais perdem volume e força, e suas fibras passam a se comportar de forma mais fatigável, resultando em queda funcional em poucas semanas."
Além disso, Neto frisa que as articulações também sofrem com a falta de compressão, o que altera o metabolismo da cartilagem, reduz a espessura e modifica a produção de líquido sinovial. "A coluna vertebral se alonga devido à descompressão dos discos, o que pode aumentar temporariamente a estatura, mas frequentemente causa dor lombar e eleva o risco de hérnias discais após o retorno à Terra." Para minimizar esses efeitos, os astronautas seguem protocolos rigorosos de prevenção, baseados em exercícios resistidos, esteiras com tração, bicicletas ergométricas e, em alguns casos, uso de medicamentos como bisfosfonatos para reduzir a perda óssea. Essas estratégias são essenciais para preservar a função musculoesquelética durante a permanência no espaço. (Isabella Almeida)
