RISCOS ELEVADOS

Comércio de animais ameaça saúde humana

Venda, tanto legal quanto ilegal, de bichos — especialmente selvagens — afeta um quarto de todos os mamíferos conhecidos e aumenta em 50% o risco de transmissão de agentes infecciosos para humanos

Os animais mostram raciocínio semelhante ao de crianças de 4 anos -  (crédito: Liran Samuni, Projeto Taï Chimpanzee )
Os animais mostram raciocínio semelhante ao de crianças de 4 anos - (crédito: Liran Samuni, Projeto Taï Chimpanzee )

Um estudo realizado pela Universidade de Lausanne (Unil), na Suíça, avaliou o impacto do comércio de animais selvagens na contaminação por germes e parasitas entre bichos e humanos. Segundo o trabalho publicado recentemente na revista Science, ouriços, elefantes, pangolins, raposas-do-deserto e muitas outras espécies selvagens são vendidas como animais de estimação, troféus de caça ou por sua carne e pele. No entanto, essas práticas, sejam legais ou ilegais, afetam um quarto de todos os mamíferos e ameaçam a saúde mundial.

A equipe liderada por Cleo Bertelsmeier, professora da Unil, avaliou o papel do comércio internacional de animais selvagens na transmissão de patógenos entre bichos e humanos. Embora essa ligação pareça óbvia desde a pandemia, “nenhuma quantificação precisa havia sido realizada até agora”, explica Jérôme Gippet, cientista da Universidade de Friburgo, na Suíça, e primeiro autor do estudo.

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Para o trabalho, os cientistas combinaram 40 anos de dados de importação e exportação legal e ilegal de animais selvagens com compilações de relações hospedeiro-patógeno. As análises revelaram que mamíferos selvagens comercializados têm probabilidade 50% maior de compartilhar agentes infecciosos com humanos do que aqueles que não são vendidos. “Em outras palavras, essas espécies têm 50% mais risco de compartilhar pelo menos um vírus, bactéria, fungo ou parasita conosco.” E não é só isso: o risco é ainda maior quando os bichos são negociados ilegalmente e vivos.

A descoberta mais surpreendente, segundo a equipe de pesquisa, é que "o tempo de presença de um animal no comércio desempenha um papel fundamental: em média, uma espécie compartilha um patógeno adicional com os humanos a cada 10 anos no mercado", enfatiza Jérôme Gippet.

O estudo foi centrado em mamíferos selvagens, ou seja, espécies que não foram domesticadas e sobre as quais os humanos não exerceram pressão seletiva, ao contrário de gatos, cães e gado. Podem ser indivíduos capturados na natureza ou criados em cativeiro, por exemplo, para a produção de peles. Essa categoria inclui novos animais de estimação exóticos, como raposas-do-deserto, lontras, ouriços-pigmeus africanos, gatos-leopardo ou petauros-do-açúcar, cuja compra e venda são impulsionadas pela sua popularidade nas redes sociais. Os dados analisados abrangem tanto o comércio de espécimes vivos quanto o de produtos derivados, tais quais peles, escamas e chifres.

“É importante entender que a probabilidade de ser infectado ao tocar um piano com teclas de marfim ou ao usar pele é quase inexistente. O problema reside no início da cadeia: alguém teve que caçar o animal, esfolá-lo, transportá-lo…”, explica Jérôme Gippet. “Assim, mesmo que o perigo não seja imediato, nossas escolhas de consumo alimentam indiretamente a transmissão de patógenos para os humanos. Isso coloca em questão nossas práticas de compra”, acrescenta Cleo Bertelsmeier, que liderou o estudo.

Fortalecimento da biovigilância

Conforme Juliana Carvalho Farias, infectologista e coordenadora do Serviço de Controle e Infecção Hospitalar do Hospital Anchieta Taguatinga, a literatura científica documenta uma diversidade impressionante de agentes infecciosos associados ao comércio de vida selvagem. “Primatas, ungulados, carnívoros e morcegos representam riscos particularmente elevados, hospedando 132, cerca de 58%, dos 226 vírus zoonóticos conhecidos atualmente em comércio. Estudos em mercados asiáticos identificaram 17 espécies de vírus zoonóticos em animais comercializados, incluindo o Nipah em morcegos frugívoros, além de Cowpox, dengue, hepatite E, herpes B e retrovírus símios em primatas.”

“Mercados frequentemente operam sem medidas adequadas de biossegurança, facilitando o contato direto entre humanos, animais e seus fluidos corporais. O risco é ainda maior quando as espécies são comercializadas ilegalmente ou vivas, situações que escapam de qualquer forma de vigilância sanitária”, frisa Carvalho Farias. “O perigo não se limita ao consumidor final. Caçadores, transportadores, comerciantes e açougueiros enfrentam exposição ocupacional significativa na manipulação dos bichos”, completa.

Segundo os cientistas, os resultados do estudo destacam a necessidade de aprimorar a biovigilância dos bichos e produtos de origem animal para detectar agentes infecciosos e avaliar o potencial de transmissão para humanos. “Na minha opinião, nosso trabalho demonstra claramente como a pesquisa fundamental pode esclarecer questões de saúde pública. Ela fornece elementos essenciais para uma melhor compreensão da dinâmica hospedeiro-patógeno e para a prevenção de futuras epidemias”, conclui Cleo Bertelsmeier.

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postado em 14/04/2026 16:40
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