Glaucoma

Lente de contato sem bateria libera medicamentos para controle de pressão ocular

O aumento da pressão ocular afetará 134 milhões de pessoas até 2040. Para ajudar no tratamento, pesquisadores desenvolvem um dispositivo confortável e leve, que promove o monitoramento da condição em tempo real

Uma lente de contato inteligente e sem bateria pode monitorar a pressão intraocular e liberar múltiplos medicamentos para glaucoma, a principal causa de cegueira no mundo. O dispositivo, que controla o aumento da pressão em tempo real, foi testado em coelhos e em um modelo de tecido ocular bovino, com resultados animadores, segundo os autores de um estudo publicado hoje (8) na revista Science Translational Medicine. 

A lente se destaca dos modelos anteriores por sua simplicidade, conforto e ausência de componentes eletrônicos volumosos, abrindo caminho para uma nova geração de tecnologias personalizadas para cuidados com a visão. Estima-se que o glaucoma afetará 134 milhões de pessoas até 2040. Embora seja uma doença incurável, o diagnóstico precoce e o tratamento contínuo podem retardar a perda da visão e preservar a qualidade de vida dos pacientes.

No entanto, o diagnóstico precoce requer ferramentas confiáveis que possam identificar pessoas em risco e fornecer terapias personalizadas para as necessidades de cada paciente. Uma abordagem envolve o uso de tecnologias que monitoram a pressão intraocular, o fator de risco modificável mais importante para o glaucoma. Mas as ferramentas clínicas atuais são insuficientes, já que o método padrão-ouro precisa ser realizado no consultório e fornece medições apenas a cada 6 a 12 meses. 

Desconfortáveis

As lentes de contato inteligentes eletrônicas oferecem uma solução mais futurista e podem monitorar a pressão intraocular continuamente, mas dependem de componentes eletrônicos rígidos e fontes de alimentação externas, sendo geralmente desconfortáveis ou até mesmo perigosas de usar. 

Agora, pesquisadores do Instituto Terasaki para Inovação Biomédica, na Coreia do Sul, apresentaram um design mais simples e confortável, que chamaram de  lente de contato inteligente teranóstica totalmente polimérica. A lente é baseada em componentes poliméricos de baixo custo, um sensor microfluídico de pressão intraocular e uma esponja de seda biomimética que aumenta a sensibilidade. Ela também inclui um compartimento que pode liberar múltiplas doses de medicamentos se detectar picos de pressão intraocular. 

Quando testada em coelhos e em olhos de vaca ex vivo, a lente monitorou de forma confiável a pressão intraocular e liberou doses dos medicamentos aprovados para glaucoma, timolol ou brimonidina, nos limites de pressão atuais. “Nosso objetivo era criar uma plataforma que não apenas monitorasse a doença em tempo real, mas também respondesse a ela imediatamente”, disse, em nota, Yangzhi Zhu, um dos autores do artigo. “Esperamos que essa tecnologia possa, em última análise, melhorar a qualidade de vida dos pacientes, reduzindo o fardo dos métodos de tratamento tradicionais.”

 

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Essa lente tem potencial de mudar a prática clínica no manejo do glaucoma? 

A lente de contato descrita no artigo é um dispositivo polimérico capaz de monitorar a pressão intraocular (PIO) em tempo real e liberar medicamento de forma automática e “responsiva”, ou seja, somente quando a PIO sobe acima de um limiar prédefinido, em modelos préclínicos de glaucoma. Na prática clínica, a lente promove o monitoramento contínuo e dinâmico da PIO — em vez de depender de medidas pontuais no consultório (muitas vezes em horários fora do pico de PIO), a lente permite registrar a pressão ao longo do dia e da noite, capturando picos noturnos e flutuações circadianas que hoje são subdiagnosticados. A lente evita sobremedicação e minimiza efeitos adversos sistêmicos e locais. Isso ajuda a prevenir a perda de campo visual antes que seja detectável por exames estruturais/funcionais convencionais.

A tecnologia pode melhorar a adesão dos pacientes à medicação?

A adesão ao uso de colírios pode cair para cerca de 30–40% após um ano, levando a controle insuficiente da PIO e progressão silenciosa da doença. Ao combinar melhor controle da PIO (menos flutuações e picos) com maior adesão terapêutica, esperase redução na taxa de progressão de danos ao nervo óptico e perda de campo visual, embora ainda seja necessária avaliação em ensaios clínicos de longa duração.

Quais são os principais desafios para levar essa inovação para humanos?

Segurança e biocompatibilidade: A lente precisa ser biocompatível a longo prazo com córnea, endotélio e conjuntiva, sem inflamação crônica, alteração de transmissibilidade de oxigênio. Além disso, há a questão de engenharia e desempenho clínico: a precisão e calibração da medição de PIO devem ser robustas em diferentes curvaturas corneanas, estados de hidratação da lente e cenários de vida real (atividades, piscar, olho seco intermitente). Também há a questão do custo e incorporação no sistema de saúde, pois a tecnologia envolve microeletrônica, sensores sofisticados e manufatura de precisão, o que tende a gerar custo muito superior ao de colírios tradicionais, podendo limitar acesso em sistemas públicos (como o SUS). Serão necessários ensaios clínicos de fase I–III e estudos de custo-efetividade para demonstrar vantagem clínica e viabilidade econômica. Além de aprovação nos órgãos regulatórios.


 

 

 

 

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