Uma das plantas medicinais mais populares do Brasil, muito conhecida pelo sabor amargo e pelas propriedades terapêuticas é a carqueja. A erva é aproveitada tanto na indústria de bebidas, quanto na culinária e na produção de cosméticos.
Em entrevista ao Correio, a nutricionista Ana Clara da Cruz Silva, da clínica Hâncora, explica que a planta possui ação antioxidante, contribuindo para a redução do estresse oxidativo no organismo. Segundo a especialista, a composição da carqueja é rica em flavonoides, como quercetina e rutina, além de diterpenos e compostos fenólicos.
Ana Clara explica que estudos experimentais também apontam um possível efeito hepatoprotetor da planta, com redução de marcadores de lesão hepática e do estresse oxidativo. “Em relação à digestão, a carqueja apresenta ação colerética, ou seja, estimula a produção e liberação de bile, o que pode favorecer uma digestão mais eficiente, especialmente de gorduras”, explica.
Emagrecimento não é comprovado cientificamente
Apesar de ser frequentemente associada à perda de peso, não há evidências científicas robustas que comprovem esse efeito. Revisões sobre plantas medicinais indicam que embora a carqueja possa apresentar leve redução da glicemia, isso não se traduz necessariamente em emagrecimento clínico.
“Na prática, o que pode ocorrer é uma melhora da digestão e redução de sintomas como distensão abdominal, além da substituição de bebidas calóricas pela opção sem calorias. Ou seja, qualquer impacto no peso é indireto e depende do contexto alimentar individual”, destaca Ana Clara.
Efeito Detox e Digestivo
A carqueja melhora o funcionamento do fígado e a produção de bile. Quando o fígado trabalha bem, o metabolismo das gorduras é mais eficiente, melhorando a digestão e aquela sensação de "barriga inchada" após as refeições.
Se o peso da pessoa oscila muito por conta da retenção, a carqueja pode ser uma boa aliada. "Estudos pré-clínicos indicam efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios, que podem reduzir danos hepáticos". Ainda assim, a nutricionista ressalta que há limitações científicas, o que exige cautela na interpretação desses resultados.
Cuidados com o consumo e preparo da carqueja
Não existe uma diretriz clínica oficial sobre a dose ideal da carqueja, mas com base nas recomendações do uso tradicional e em monografias de fitoterápicos, a especialista sugere o consumo moderado, cerca de uma a duas xícaras por dia. A preparação mais comum utiliza uma colher de sopa da planta seca para 150 a 200 ml de água.
O consumo excessivo pode causar efeitos adversos. "Entre eles estão hipotensão e hipoglicemia, que podem provocar sintomas como tontura, fraqueza e mal-estar", destaca a especialista. Também há relatos de desconforto gastrointestinal e irritação gástrica em doses elevadas, então o cuidado é válido.
Cuidados com a Glicemia
A carqueja consegue manter os níveis de açúcar no sangue mais estáveis, por conta dos flavonoides. Quando a glicose não sobe e desce bruscamente, você sente menos aquela vontade incontrolável de comer doces ou carboidratos no meio da tarde. Além disso, níveis baixos de insulina no sangue facilitam para o corpo acessar as reservas de gordura para queimar.
Alerta para o grupos de risco
O uso da carqueja não é recomendado para gestantes, principalmente devido à falta de estudos que comprovem sua segurança. Pessoas com pressão arterial baixa ou que utilizam medicamentos, especialmente anti-hipertensivos ou para controle da glicemia, também devem ter cautela.
“Nesses casos, pode haver um efeito somado, aumentando o risco de hipotensão ou hipoglicemia. Por isso, o uso deve ser sempre avaliado de forma individualizada”, orienta a nutricionista.
Uso complementar, não substitutivo
A especialista reforça que o chá de carqueja não substitui tratamentos médicos ou nutricionais. Segundo Ana Clara, o uso de plantas medicinais deve ser apenas complementar, especialmente em casos de doenças hepáticas, metabólicas ou digestivas.
Outro ponto de atenção é a variação na composição da planta, que pode mudar de acordo com o cultivo, armazenamento e forma de preparo, influenciando seus efeitos no organismo.
“É importante lembrar que ‘natural’ não significa automaticamente seguro. O uso deve seguir os princípios da prática baseada em evidências, considerando eficácia, segurança e individualidade. A orientação profissional continua sendo essencial”, conclui.
*Estagiária sob supervisão de Ronayre Nunes
Saiba Mais
