CRISE CLIMÁTICA

Áreas protegidas pela Unesco funcionam como refúgios da biodiversidade

Relatório inédito da Unesco mostra que áreas protegidas pelo organismo das Nações Unidas globalmente mantêm a estabilidade da flora e da fauna, além de garantir o armazenamento de 240 gigatoneladas de carbono

Em meio ao avanço da crise climática e da perda acelerada da biodiversidade, áreas protegidas vinculadas à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) funcionam como refúgios ecológicos, segundo um relatório divulgado ontem pelo organismo da ONU. Pela primeira vez, o documento Comunidades e natureza nos sítios designados pela Unesco analisa as diferentes categorias de sítios — patrimônio mundial, reserva da biosfera e geoparques. Juntos, eles formam uma rede de 2.260 territórios, 23 deles no Brasil, que cobrem cerca de 13 milhões de quilômetros quadrados em todo o mundo, uma área superior à soma da China e da Índia.  

O documento, apresentado em uma coletiva de imprensa on-line, revela que, enquanto as populações globais de animais selvagens caíram cerca de 73% desde 1970, as que vivem em sítios reconhecidos pelo organismo permaneceram relativamente estáveis. Os espaços protegidos pela Unesco abrigam 60% das espécies conhecidas globalmente, incluindo 40% endêmicas. 

Além disso, o relatório revela que os sítios armazenam cerca de 240 gigatoneladas de carbono — o equivalente a quase duas décadas das emissões globais atuais —, contribuindo com aproximadamente 15% da absorção anual de CO2 pelas florestas do mundo. "Um dos pontos-chave do relatório é que, numa época em que a biodiversidade está declinando globalmente, esses locais ajudam a sustentar ecossistemas e populações vivas. São a prova de que é possível a conservação dos ecossistemas e o bem-estar humano", comentou Lídia Brito, diretora do Escritório Regional de Ciências da Unesco para a América Latina e o Caribe, na entrevista.

O brasileiro Tales Carvalho Resende, diretor de projetos do comitê de patrimônio mundial da Unesco e coautor do relatório, destacou a importância da participação de comunidades locais, incluindo povos originários, na proteção a longo prazo dos sítios protegidos. "Por exemplo, no Parque Nacional de Virunga, na República Democrática do Congo, mesmo durante períodos difíceis de conflito, a conservação comunitária e o monitoramento a longo prazo resultaram no crescimento de 5% da população de gorilas na década passada", disse. 

Segundo Resende, os sítios protegidos pela Unesco abrigam aproximadamente 20 mil espécies ameaçadas. "Em alguns casos, eles são o último refúgio de algumas espécies icônicas, como a vaquita marinha, o menor cetáceo do mundo, do qual só restam cerca de 10 indivíduos", afirma. A pequena população sobrevive no Golfo da Califórnia, no México, área reconhecida pelo organismo das Nações Unidas. 

Estresse 

O documento, porém, traz um alerta: quase 90% dos sítios enfrentam níveis elevados de estresse ambiental, e os riscos associados às mudanças climáticas cresceram 40% na última década. A projeção é de que mais de um quarto das áreas protegidas pela Unesco possa atingir pontos de inflexão até 2050, com impactos potencialmente irreversíveis, como o colapso de recifes de coral, o desaparecimento de geleiras e a transformação de florestas em fontes de emissão de carbono. "As florestas, nesses lugares, absorvem cerca de 700 milhões de toneladas de CO2 cada ano. Isso é equivalente, aproximadamente, às emissões de combustíveis fósseis anuais da Alemanha", afirmou Tales Carvalho Resende. "E é importante lembrar que muitos desses sítios foram formados e mantidos por povos indígenas."

Os autores destacaram, no relatório, que "uma diferença mínima de temperatura pode levar a um aumento incrível dos riscos", em referência a um aumento de mais de 1ºC na temperatura global até 2050. "Limitar as emissões de gases com efeito de estufa é agora crucial. Para cada grau que evitarmos, poderemos reduzir para metade o número de sítios que ultrapassam os pontos de inflexão críticos", comentou, na entrevista, Martin Delaroche, especialista ambiental da Unesco. 

Além do desaparecimento de um terço dos glaciares protegidos, incluindo todos os três do continente africano — Monte Quênia, Monte Kilimanjaro e Montanhas Rwenzori —, a elevação da temperatura global poderá causar branqueamento de corais em grande escala e estresse hídrico crônico, o que alteraria as funções florestais. Segundo o relatório, 98% dos sítios designados já sofreram pelo menos um risco relacionado com o clima desde 2000. 

Em nota, o diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany, disse que o relatório é um "chamado" para reconhecer os locais no enfrentamento às mudanças climáticas e à perda de biodiversidade. "As conclusões são claras: os sítios protegidos pela Unesco produzem impactos positivos, tanto para as pessoas quanto para a natureza. Nesses territórios, as comunidades prosperam, o patrimônio da humanidade perdura e a biodiversidade é preservada enquanto se degrada em outros locais", disse. "Trata-se de um chamado urgente para ampliar o grau de ambição e reconhecer os sítios da Unesco como ativos estratégicos para enfrentar a mudança do clima e a perda de biodiversidade, além de investir imediatamente na proteção de ecossistemas, culturas e modos de vida para as gerações futuras."

 

Mais Lidas

Destaques

Proteção

• Os cerca de 2.260 sítios designados pela Unesco abrangem aproximadamente 13 milhões de km², uma área maior que a China e a Índia juntas.

• Mais de 900 milhões de pessoas, cerca de 10% da população mundial, vivem em e ao redor dos sítios designados pela Unesco.

• Mais de 1 mil línguas foram documentadas nesses sítios, representando aproximadamente 15% de todas as línguas vivas.

• Pelo menos 25% abrangem terras e territórios de povos indígenas, chegando a quase 50% na América Latina e no Caribe e na África.

• Esses sítios abrigam mais de 60% das espécies mapeadas globalmente, com cerca de 40% encontradas apenas lá.

• Esses locais abrangem quase 3 milhões de km² de Áreas-Chave para a Biodiversidade (KBAs), os locais mais críticos do planeta para a natureza, uma área aproximadamente do tamanho da Índia.

• Os sítios designados pela Unesco protegem até um terço dos elefantes, tigres e pandas restantes no mundo, e pelo menos um em cada dez grandes símios, girafas, leões, rinocerontes e dugongos.

• Os sítios absorvem 700 megatoneladas líquidas de CO2 por ano, o equivalente às emissões anuais da Alemanha provenientes de combustíveis fósseis, sendo que as florestas representam cerca de 85% dessa absorção.

• As florestas dentro dos sítios da Unesco representam cerca de 15% de todo o CO2 absorvido pelas florestas em todo o mundo.

• Os sítios da Unesco armazenam cerca de 240 gigatoneladas de carbono, o equivalente a quase duas décadas das emissões globais atuais de combustíveis fósseis, se liberadas na atmosfera.

Desafios

• Quase 90% dos sítios designados pela Unesco estão expostos a altos níveis de estresse ambiental devido a atividades humanas e riscos relacionados ao clima.

• Todas as regiões são afetadas, sendo as tropicais as mais expostas devido à combinação de pressões sobre a biodiversidade, o clima e a atividade humana.

• Mais de 300.000 km² de cobertura arbórea foram perdidos em sítios designados pela Unesco desde 2000, uma área maior que a República do Congo, com cerca de 2/3 dessa perda devido à expansão agrícola e à exploração madeireira.

• Com a intensificação das mudanças climáticas, os incêndios florestais induzidos pelo clima são o principal fator de perda florestal em sítios designados pela Unesco.

• 98% dos locais sofreram pelo menos uma condição climática extrema desde 2000, sendo o calor extremo a mais prevalente

• O número de locais designados pela Unesco impactados por riscos relacionados ao clima (secas, inundações, incêndios e branqueamento de corais) aumentou 40% na última década.

• Os sistemas naturais em mais de 1 em cada 4 locais podem atingir pontos de inflexão críticos já em 2050. 

* Quase todos os recifes de coral em mais de 90 locais designados pela Unesco devem sofrer eventos anuais de branqueamento.

* Geleiras podem desaparecer completamente em mais de 40 locais designados pela Unesco — representando aproximadamente um terço desses locais — incluindo todas as geleiras restantes na África.

Fonte: People and Nature in UNESCO-Designated Sites: Global and Local Contributions, Unesco