Oriente Médio

Horror em Gaza inspirou escultor italiano a criar Pietà palestina

Filippo Tincolini viu em fotografia de palestina com o sobrinho de cinco anos morto no colo uma releitura da obra de Michelangelo. Decidiu, então, recriar a imagem em mármore. Ao Correio, ele contou como foi o processo de criação

O escultor Filippo Tincolini ao lado de sua obra: meses de trabalho árduo  -  (crédito: Arquivo pessoa )
O escultor Filippo Tincolini ao lado de sua obra: meses de trabalho árduo - (crédito: Arquivo pessoa )

Em 2024, a imagem flagrada pelo fotógrafo palestino Mohammed Jadallah Salem ganhou o cobiçado prêmio World Press Photo. Salem flagrou o momento em que Inas Abu Maamar enterra a cabeça sobre a mortalha envolvendo o corpo de sua sobrinha Saly, de cinco anos, morta em um bombardeio israelense. Ao tomar conhecimento da imagem, feita em 17 de outubro de 2023 no Hospital Nasser (na Cidade de Gaza), o escultor italiano Filippo Tincolini enxergou, nela, uma nova Pietà. Depois de meses de trabalho árduo, utilizando o mesmo tipo de mármore usado por Michelangelo em 1498, Tincolini recriou uma leitura própria da cena testemunhada por Salem. Em entrevista exclusiva ao Correio, ele falou sobre a "Pietà Palestina". O escultor vive em Carrara, 385km ao norte de Roma. 

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Quando e como o senhor encontrou a inspiração para sua Pietà? Qual é o simbolismo? 

Não começou com uma ideia. Começou com um olhar que eu não conseguia interromper. Uma fotografia. Uma imagem agraciada com o World Press Photo de 2024, de Mohammed Salem. Uma mulher. Um corpo. Um lençol branco que é, ao mesmo tempo, um sudário e um silêncio. Dentro daquela imagem não havia apenas um fato. Havia algo mais antigo que notícias. Eu reconheci, sem procurar, a Pietà. Não como uma citação. Como um retorno. Como se aquela forma nunca tivesse desaparecido, mas continuasse ressurgindo cada vez que a dor encontra um corpo. Esta Pietà não vem de mim. Ela nasce entre múltiplos olhares que se encontraram no mesmo ponto.

Inas Abu Maamar segura o corpo da sobrinha Saly, morta em bombardeio israelense, em 2023
Inas Abu Maamar segura o corpo da sobrinha Saly, morta em bombardeio israelense, em 2023 (foto: Mohamed Salem/Reuters/Instagram )
 

De que modo transcorreu o processo de criação?

Federico Quaranta, que acendeu a primeira faísca comigo, trouxe para o projeto a palavra, o ritmo, o sopro da narrativa. Andrea Pezzi, que deu profundidade ao pensamento, mergulhou no presente da mesma forma que se mergulha na matéria. Laura Veschi, que acompanhou o nascimento da obra, transformou o processo em visão, mármore em tempo visível. Quatro trajetórias. Uma direção. A primeira vez que tudo isso tomou forma foi no Teatro Era. Não foi uma apresentação. Foi uma travessia. Eu, em pé diante da escultura, com um texto. Federico e Andrea em um diálogo que começou com a Ilíada e a Odisseia, e chegou aqui, agora. Ao luto como uma linguagem universal, que muda de forma, mas não de significado. Ao nosso redor, as imagens de Laura. O mármore se abrindo. A figura emergindo. Não criada, mas libertada. Esta Pietà não foi feita para ficar. Ela foi feita para se mover. De cidade em cidade. De olhar em olhar. Até que alguém, em pé diante dela, sinta o mesmo curto-circuito: "Não estou olhando para uma obra de arte... Estou reconhecendo algo que já existe dentro de mim".

A Pietà palestina finalizada: mármore do mesmo tipo usado por Michelangelo
A Pietà palestina finalizada: mármore do mesmo tipo usado por Michelangelo (foto: Filippo Tincolini)

Que sensações o senhor experimentou durante esse processo?

Foram meses de trabalho físico árduo. O mármore não perdoa. Mas o que mais me lembro não era da exaustão nas minhas mãos — era do silêncio. Um silêncio estranho, pesado, profundo. Enquanto esculpia aquelas formas, pensava constantemente em Mohammed Salem, naquela mulher, em sua sobrinha. Às vezes, precisava parar. Não por cansaço — por emoção. Houve um momento em que percebi que estava segurando em minhas mãos algo que não era só meu. Pertencia a todos. Esse pensamento me deu um enorme senso de responsabilidade e, ao mesmo tempo, uma profunda paz.

Que mensagem o senhor quis transmitir ao mundo com essa escultura?

Que a dor não tem fronteiras, nacionalidade ou religião. Que a mãe palestina e a Madona de Michelangelo são a mesma pessoa — elas representam todas as mães do mundo que perderam um filho em uma guerra que não escolheram. Quero que quem olhar para esta escultura pare por um instante e sinta. Não pense, não julgue — sinta. Porque, se ainda podemos sentir, ainda há esperança.

  • Inas Abu Maamar segura o corpo da sobrinha Saly, morta em bombardeio israelense, em 2023
    Inas Abu Maamar segura o corpo da sobrinha Saly, morta em bombardeio israelense, em 2023 Foto: Mohamed Salem/Reuters/Instagram
  • A Pietà palestina finalizada: mármore do mesmo tipo usado por Michelangelo
    A Pietà palestina finalizada: mármore do mesmo tipo usado por Michelangelo Foto: Filippo Tincolini
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postado em 21/04/2026 18:54 / atualizado em 21/04/2026 19:01
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