
Doses mais altas da substância semaglutida, um agonista do hormônio GLP-1, podem acelerar e prolongar a perda de peso sustentada em pessoas com obesidade, segundo uma análise apresentada no Congresso Europeu de Obesidade (ECO 2026), em Istambul, na Turquia. Os dados, que fazem parte do ensaio clínico Step Up, patrocinado pela farmacêutica Novo Nordisk, a fabricante do medicamento, avaliou quanto tempo os pacientes levam para atingir diferentes metas de emagrecimento — como perder 5%, 10%, 15%, 20% ou 25% do peso corporal — e por quanto tempo conseguem manter esses resultados ao longo do tratamento.
O estudo comparou a semaglutida semanal na dose de 7,2mg com a dose de 2,4mg — atualmente utilizada em medicamentos para obesidade — e também com placebo. A substância é comercializada com o nome de Wegovy. Participaram do Step Up 1.407 adultos com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30 kg/m² e sem diabetes tipo 2. Todos os participantes receberam orientação para reduzir em 500 calorias a alimentação diária e praticar pelo menos 150 minutos semanais de atividade física.
Os resultados mostraram que, após 72 semanas de tratamento, aqueles que utilizaram semaglutida 7,2mg tiveram redução média de 20,7% do peso corporal. Já aqueles que receberam 2,4mg perderam, em média, 17,5%, enquanto o grupo placebo apresentou redução de apenas 2,4%. A diferença entre as doses foi estatisticamente significativa.
Perda sustentada
O foco principal da análise, porém, não foi apenas o percentual final de emagrecimento. Os pesquisadores quiseram entender quando os pacientes efetivamente alcançavam determinadas metas clínicas de perda de peso e se conseguiam mantê-las até o final do estudo. Para isso, definiram “perda de peso sustentada” como atingir uma meta de emagrecimento e permanecer dentro desse patamar, com variação máxima de 3%, até a semana 72 do tratamento.
Os dados sugerem que perdas de peso mais expressivas ocorreram mais rapidamente com a dose de 7,2mg. A meta de perda sustentada de 15% do peso corporal foi atingida na semana 32 entre os usuários da dose mais alta. Já as metas de 20% e 25% foram alcançadas oito semanas antes em comparação com a dose de 2,4mg.
Além disso, uma parcela significativamente maior dos pacientes conseguiu manter reduções substanciais de peso até o fim do tratamento. Entre os participantes que usaram semaglutida 7,2mg, 71,9% sustentaram perda de pelo menos 15% do peso corporal, 51,7% mantiveram redução superior a 20% e 33,9% conseguiram preservar emagrecimento acima de 25%. Na dose de 2,4mg, esses percentuais foram menores: 58%, 36,8% e 17,8%, respectivamente. No grupo placebo, praticamente ninguém atingiu perdas mais expressivas.
Segundo os autores, os dados podem ajudar médicos e pacientes a estabelecer expectativas mais realistas sobre o tratamento da obesidade. Um dos desafios mais frequentes em terapias para perda de peso é justamente a dificuldade de manter o emagrecimento ao longo do tempo. Muitas pessoas conseguem perder peso inicialmente, mas recuperam parte significativa dos quilos perdidos após alguns meses ou anos.
Gerenciamento
“A obesidade, como doença crônica, exige um tratamento contínuo e holístico. A perda de peso inicial pode indicar quem tem maior probabilidade de alcançar reduções mais expressivas com a semaglutida. No entanto, é importante destacar que aqueles sem uma resposta ‘precoce’ ao tratamento ainda apresentam uma perda de peso substancial e clinicamente significativa”, disse, em nota, Dror Dicker, professor clínico associado de Medicina Interna da Faculdade de Medicina e Ciências da Saúde da Universidade de Tel Aviv, Israel. “Esses novos insights da subanálise do estudo Step Up, apresentados no ECO, podem auxiliar profissionais de saúde no gerenciamento de expectativas e na definição de metas com seus pacientes ao iniciar medicamentos para obesidade, além de potencialmente favorecer a adesão de longo prazo ao tratamento”, avaliou.
Os autores do estudo destacam, porém, que existem limitações. A própria definição de “manutenção do peso” ainda não é totalmente padronizada na literatura científica, e a análise foi feita apenas durante o período em que os participantes estavam em tratamento. Os dados, portanto, não mostram o que acontece após a interrupção do medicamento — uma questão central nas discussões atuais sobre obesidade, já que estudos anteriores indicam que parte do peso pode ser recuperada quando os pacientes param de usar as “canetinhas emagrecedoras”.
Especialistas ressaltam a importância do acompanhamento médico no tratamento com os agonistas do hormônio GLP-1. “Esses medicamentos são indicados principalmente para pacientes com diabetes tipo 2, obesidade (IMC acima de 30) ou sobrepeso associado a comorbidades, como hipertensão e esteatose hepática. Fora dessas condições, especialmente quando utilizados apenas com finalidade estética, o uso é inadequado e pode trazer riscos à saúde”, explica Victor Camillo, médico da rede de clínicas SegMedic.
Além disso, Camillo destaca a importância de um tratamento integrado. “O uso dessas medicações não deve ser isolado, mas parte de uma estratégia de saúde. Sem uma avaliação criteriosa das funções renais, hepáticas e do histórico do paciente, o risco é desnecessário. O emagrecimento saudável exige preservação da massa muscular e acompanhamento contínuo. Mais do que o resultado na balança, é preciso buscar equilíbrio metabólico com segurança”, reforça.
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