Dor

DTM: um problema muito além de músculos e articulações

Estudo defende que disfunção temporomandibular (DTM) é uma condição multifatorial, fortemente modulada por fatores socioculturais ainda pouco explorados. Pesquisadores entrevistaram pacientes brasileiros e espanhóis

Segundo especialistas, a DTM não pode ser compreendida apenas pelo viés biológico -  (crédito: Pexels/Divulgação )
Segundo especialistas, a DTM não pode ser compreendida apenas pelo viés biológico - (crédito: Pexels/Divulgação )

Um estalo ao abrir a boca, dores de cabeça frequentes, dificuldade para mastigar e uma sensação constante de tensão no rosto. Para milhões de pessoas, esses sintomas fazem parte da rotina provocada pela disfunção temporomandibular (DTM), condição que afeta a articulação da mandíbula e músculos da mastigação. Embora comum, a doença ainda é cercada por desinformação, demora no diagnóstico e dificuldades de acesso ao tratamento — especialmente no Brasil. É o que revela um estudo internacional publicado na revista científica Healthcare, que comparou as experiências de brasileiros e espanhóis com a condição.  

A pesquisa ouviu 50 pacientes — 25 brasileiros e 25 espanhóis — diagnosticados com DTM, buscando entender como eles enxergam a doença, quais caminhos percorrem até o diagnóstico, onde buscam informação e o que esperam do tratamento. O trabalho identificou diferenças marcantes entre os dois países, especialmente em relação ao acesso ao sistema de saúde e ao conhecimento sobre a condição.  

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Segundo os pesquisadores, muitos brasileiros relataram não saber qual profissional procurar quando os sintomas começaram. Dentistas e médicos generalistas foram os primeiros consultados, mas frequentemente o diagnóstico recebido era apenas de bruxismo — o hábito de ranger ou apertar os dentes — sem uma investigação mais aprofundada sobre a DTM.  

“Eu não sei exatamente qual profissional procurar. Não sei se devo ir ao médico, ao dentista, ao fisioterapeuta”, relatou uma participante brasileira entrevistada pelos autores do estudo. Já entre os espanhóis, a fisioterapia apareceu com destaque. Muitos participantes disseram procurar fisioterapeutas logo no início dos sintomas e consideravam esses profissionais importantes fontes de informação sobre a doença.  

Dificuldade 

Os pesquisadores destacam que essa diferença pode estar relacionada à organização dos sistemas de saúde dos dois países. Embora Brasil e Espanha tenham modelos públicos universais, os espanhóis relataram maior facilidade para obter encaminhamento a especialistas, enquanto brasileiros mencionaram dificuldades para encontrar profissionais capacitados e custos elevados no atendimento privado.  

A DTM é considerada a principal causa de dor não dentária na região da face. Ela engloba um conjunto de alterações que afetam a articulação temporomandibular — responsável pelos movimentos da mandíbula — além dos músculos da mastigação. Os sintomas incluem dor facial, dores de cabeça, estalos, sensação de travamento da mandíbula, zumbido e desconforto cervical.  

O estudo lembra que a prevalência global da DTM gira em torno de 31% da população adulta e pode chegar a 44% até 2050. No Brasil, cerca de 39% das pessoas apresentam ao menos um sinal ou sintoma relacionado ao problema. Mulheres são as mais afetadas.  

Além do impacto físico, os relatos dos participantes revelam o peso emocional da doença. Tanto brasileiros quanto espanhóis associaram o agravamento dos sintomas ao estresse, ansiedade, excesso de responsabilidades e mudanças importantes na vida, como entrada na universidade, troca de emprego ou dificuldades financeiras. “Quando estou sobrecarregada com a faculdade e tenho muitos trabalhos, sinto muito mais dor no rosto e na cabeça”, contou uma participante brasileira.  

Multifatorial 

Os pesquisadores observam que a relação entre fatores emocionais e DTM já é conhecida pela ciência. A condição tem origem multifatorial, envolvendo componentes musculares, estruturais, comportamentais e psicológicos. O estresse, por exemplo, pode aumentar o apertamento dentário e a tensão muscular, intensificando as dores.  

Outro aspecto importante identificado foi a busca intensa por informação na internet. Participantes dos dois países relataram recorrer a mecanismos de busca, redes sociais e até ferramentas de inteligência artificial para tentar entender os sintomas e encontrar soluções. Vídeos com exercícios, massagens e técnicas de relaxamento foram frequentemente mencionados.  

Apesar disso, os espanhóis demonstraram maior cautela em relação ao conteúdo online. Alguns disseram desconfiar das informações encontradas na internet e preferir orientações de profissionais de saúde.  

As expectativas em relação ao tratamento também chamam atenção. Os pacientes desejam, acima de tudo, serem ouvidos e receberem explicações claras sobre a origem da dor. Muitos relataram frustração com consultas rápidas ou diagnósticos vagos. “Um bom tratamento é aquele em que o profissional senta e explica o que está acontecendo”, afirmou uma brasileira entrevistada.  

Placas

Os tratamentos mais citados pelos participantes incluíram fisioterapia, placas oclusais, medicamentos, acupuntura e aplicação de toxina botulínica. Mas a percepção sobre a eficácia variou bastante. Enquanto brasileiros tendiam a considerar a placa dentária útil para controlar os sintomas, alguns espanhóis relataram desconforto e até piora da dor com o uso.  

As estratégias de enfrentamento também foram semelhantes entre os grupos: massagens, compressas quentes, exercícios, técnicas de relaxamento, melhora do sono e controle do estresse apareceram com frequência nos relatos.  

Para os autores, os resultados mostram que o cuidado com a DTM precisa ir além do tratamento físico. Aspectos culturais, emocionais e sociais influenciam diretamente a maneira como os pacientes entendem a doença, buscam ajuda e aderem às terapias.  

Palavra de especialista 

Rafael Sasles, fisioterapeuta
Rafael Sales, fisioterapeuta (foto: Hay Torres/Divulgação )
Diagnóstico mais assertivo

"O estudo traz uma contribuição extremamente relevante ao mostrar que a DTM não pode ser compreendida apenas pelo viés biológico, mas sim como uma condição fortemente influenciada por fatores socioculturais e pela organização dos sistemas de saúde. A comparação entre Brasil e Espanha é estratégica justamente porque, apesar de ambos possuírem sistemas públicos universais, existem diferenças importantes no acesso, no encaminhamento e na estrutura do cuidado.

Na prática, isso se reflete diretamente na experiência do paciente. No Brasil, ainda há uma grande dificuldade em identificar o profissional adequado e acessar atendimento especializado, o que pode atrasar o diagnóstico e impactar a evolução do quadro. Já na Espanha, observa-se um fluxo mais organizado e maior inserção da fisioterapia, embora ainda exista uma visão limitada do seu papel, muitas vezes restrita às disfunções musculares.

Como fisioterapeuta bucomaxilofacial, o estudo reforça um ponto essencial da prática clínica: o sucesso no tratamento da DTM não depende apenas da técnica, mas da forma como o paciente entende sua condição, acessa o sistema de saúde e se engaja no processo terapêutico. Essa análise comparativa amplia nossa compreensão e aponta caminhos importantes para melhorar a qualidade do cuidado, especialmente por meio de educação em saúde, diagnóstico mais assertivo e abordagem interdisciplinar."

Rafael Sales, fisioterapeuta, especialista em fisioterapia para DTM 

 

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postado em 15/05/2026 15:27
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