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Pesquisa inédita revela detalhes da reprodução da jiboia arco-íris

Estudo conduzido na USP descreve pela primeira vez o ciclo reprodutivo da espécie e aponta possível caso de intersexualidade nunca registrado anteriormente

A biologia reprodutiva, área responsável por investigar a reprodução dos seres vivos, têm como um dos principais objetivos entender o papel da ecologia na criação de estratégias de conservação da fauna. Ainda assim, o ciclo reprodutivo de muitas espécies brasileiras ainda permanece pouco conhecido, porém, com novos estudos, esse cenário começou a mudar para a jiboia arco-íris (Epicrates crassus), espécie nativa do Cerrado brasileiro.

Uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) descreveu de forma inédita o comportamento reprodutivo da serpente da família Boidae. O estudo identificou que a espécie apresenta reprodução sazonal, concentrada principalmente no outono, além de comportamento reprodutivo quase simultâneo entre os indivíduos.

A investigação foi conduzida pelo pesquisador Rafael Kenji Anzai, mestre em Zoologia pelo Instituto de Biociências da USP. Além de detalhar o ciclo reprodutivo da espécie, o trabalho analisou características ligadas ao dimorfismo sexual (diferenças físicas entre machos e fêmeas), levantando também a hipótese de um caso de intersexualidade, fenômeno que até então não tinha relatos entre indivíduos da espécie.

Segundo Anzai, o objetivo era de ampliar o conhecimento científico sobre os modos de reprodução desta família de cobras, que inclui sucuris e outras espécies de jiboias. “Entender o ciclo reprodutivo permite compreender o comportamento, os hormônios e reunir informações importantes para estratégias de conservação”, explica o pesquisador.

A orientadora do estudo, Selma Maria Almeida Santos, professora do programa de pós-graduação em Zoologia da USP e vice-diretora do Laboratório de Ecologia e Evolução do Instituto Butantan, destaca que pesquisas de ciência básica são essenciais para a preservação das espécies.

“Sem conhecer a biologia reprodutiva, é impossível desenvolver programas de conservação eficientes”, afirma. Ela cita como exemplo a própria jiboia (Boa constrictor), alvo frequente do tráfico ilegal por causa da pele e de partes do corpo, mas que ainda não tem um ciclo reprodutivo completamente descrito pelos pesquisadores.

A escolha da jiboia arco-íris do Cerrado ocorreu, segundo Anzai, pela familiaridade do pesquisador com a família Boidae e pelas características da espécie. Diferentemente de outras jiboias, que podem atingir cerca de três metros antes da maturidade sexual, a jiboia arco-íris torna-se adulta com aproximadamente um metro de comprimento.

Após alguns estudos com espécimes, os pesquisadores coletaram amostras dos órgãos reprodutivos para análise microscópica. Os resultados mostraram que o ciclo reprodutivo da espécie é sazonal, semi-síncrono e descontínuo, ou seja, há um período específico de produção máxima de células sexuais envolvidas na fecundação.

Possível caso inédito de intersexualidade

Um dos achados mais surpreendentes do estudo foi a identificação de possíveis casos de intersexualidade em alguns machos da espécie. Esse tipo de condição ocorre quando o animal apresenta estruturas reprodutivas associadas ao sexo oposto. 

Diferentemente do hermafroditismo, porém, apenas um dos sistemas reprodutivos é funcional. Nos machos analisados, os pesquisadores encontraram estruturas vestigiais semelhantes a partes do oviduto, órgão relacionado ao sistema reprodutor feminino de animais ovíparos.

“Era uma estrutura pequena e delimitada, diferente do órgão completo observado nas fêmeas”, relata Anzai.

Embora a característica não tenha sido encontrada em todos os indivíduos, o número de ocorrências chamou atenção dos pesquisadores. A hipótese levantada é de uma condição semelhante à síndrome da persistência dos ductos de Müller, alteração rara em que machos mantêm estruturas embrionárias associadas ao aparelho reprodutor feminino.

Até o momento, não há evidências de que a característica afete a fertilidade dos animais, uma vez que os machos apresentaram produção normal de gametas. Ainda assim, os pesquisadores ressaltam que novos estudos serão necessários para compreender completamente o fenômeno.

*Estagiário sob supervisão de Luiz Felipe

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