O ator Brad Pitt revelou, em entrevista à revista GQ, que sofre de uma condição chamada prosopagnosia, que faz com ele tenha dificuldade de reconhecer rostos. O hollywoodiano, famoso por filmes como Bastardos Inglórios e Entrevista com o Vampiro, atribui à “cegueira facial” a fama de arrogante e distante.
“Ninguém acredita em mim! Quero conhecer outros”, afirmou Pitt, se referindo a não conhecer outras pessoas que convivem com a mesma condição. A prosopagnosia realmente é rara: um estudo de Harvard Medical School (HMS) e do VA Boston Healthcare System, publicado em 2023 na revista Cortex, aponta que apenas uma em cada 33 pessoas atendem aos critérios para o distúrbio.
Ao Correio, Josiane Duarte, neurologista do Hospital Anchieta, explica que a dificuldade em reconhecer rosto é uma condição neurológica que pode ser congênita (quando já nasce com a pessoa) ou adquirida.
"Quando o sintoma é congênito, a pessoa relata que ‘sempre foi assim’, que desde a infância tinha dificuldade para reconhecer amigos e até familiares”, afirma. “Nessa situação, é comum que desenvolvam estratégias como reconhecer as pessoas pela voz, jeito de andar, cabelo etc.”.
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Já na prosopagnosia adquirida, a neurologista aponta que a mudança é percebida pelo paciente, que deixa de reconhecer rostos familiares. As causas podem incluir traumatismo craniano, acidente vascular cerebral, tumores, cirurgias cerebrais ou doenças neurodegenerativas.
Diagnóstico
Josiane afirma que o diagnóstico clínico, com avaliação de um neurologista cognitivo, é a principal forma de identificar a condição. Para isso, podem ser utilizados testes neuropsicológicos e exames de imagem.
“Existem testes neuropsicológicos específicos para avaliar a percepção de faces, por exemplo o Teste de reconhecimento facial de Benton”, lembra. “Já os exames de imagem são importantes para identificar causas e avaliar detalhadamente várias regiões do cérebro. A avaliação inicial é realizada com a ressonância magnética do crânio e também podem ser necessários exames mais detalhados”.
Gravidade
Para a neurologista, a gravidade do caso depende das causas do sintoma e do impacto gerado na funcionalidade do paciente. “Em geral, casos leves geram dificuldade em reconhecer pessoas fora do contexto habitual do paciente e podem ser causados por doenças que são autolimitadas e não progressivas”, diz.
Por outro lado, a profissional aponta que podem ser considerados casos graves aqueles provocados por doenças progressivas e mais ameaçadoras, que podem comprometer a capacidade de reconhecer familiares.
Estratégias
Indivíduos que sofrem com prosopagnosia podem encontrar formas de identificar pessoas à partir de outras características. “Nosso cérebro é extremamente eficaz em desenvolver estratégias compensatórias e o treinamento é algo que potencializa muito essa função”, explica a especialista.
O som da voz, padrão da fala e até o cabelo podem ser formas de reconhecer alguém, além de pedir que as pessoas se apresentem. “Essas adaptações podem reduzir bastante o desgaste emocional de quem possui essa condição”, pontua.
Acompanhamento
A condição pode gerar um impacto psicológico intenso no paciente. Ansiedade social e constrangimento recorrente podem afetar a autoestima e levar ao isolamento, como destaca Josiane. “O acompanhamento psicológico é essencial para que a pessoa que é portadora dessa condição possa desenvolver habilidades sociais e estratégias de manejo da ansiedade para se tornar funcional, com melhor qualidade de vida e menos sobrecarga social”, conclui.
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