Legado

Geoglifos são encontrados na Amazônia brasileira

Pesquisadores acreditam que os grandes recintos geométricos com valas, deixados pela antiga civilização Aquiry, funcionavam como centros cerimoniais, políticos e de encontro público

Uma pesquisa liderada pela Universidade de Helsinque, na Finlândia, detectou 432 padrões, chamados de terraplenagens, no solo do sudoeste da Amazônia, no Brasil. Desse total, 396 não haviam sido documentados anteriormente. As descobertas, publicadas nesta quarta-feira (29/07), na revista Nature, foram feitas em uma área anteriormente habitada pela antiga civilização Aquiry, que, segundo a pesquisa, pode ter sido muito maior do que se imaginava.

Os pesquisadores acreditam que os grandes recintos geométricos com valas, conhecidos como geoglifos amazônicos, deixados pela antiga civilização Aquiry, funcionavam como centros cerimoniais, políticos e de encontro público. As estruturas variam em tamanho, a maior encontrada abrange quase 50 hectares.

Tentativas anteriores de estimar o número de estruturas de terraplenagem na Amazônia foram limitadas porque se basearam apenas em sítios descobertos em áreas desmatadas, onde é mais fácil localizar as estruturas. Agora, com uma forma de levantamento aéreo conhecida como LiDAR, que usa detecção por luz, ajudou a revelar geoglifos ocultos sob a cobertura da floresta tropical.

Martti Pärssinen e seus colegas realizaram levantamentos LiDAR em uma área de 4.497 km² no sudoeste da Amazônia, incluindo os arredores das cidades de Rio Branco, Lábrea, Boca do Acre e Carauari, no Brasil. O conjunto de dados obtido identificou 432 estruturas de terraplenagem.

Extrapolando esses resultados e em conjunto com estudos de satélite já existentes, os autores sugerem que a região Aquiry, com cerca de 183.000 km², pode conter de 24 mil a 30 mil estruturas. Além disso, eles estimam que a civilização Aquiry tenha sustentado aproximadamente de 1,25 a 3 milhões de pessoas em seu auge, entre 100 e 300 d.C., o que sugere que seu impacto sobre os solos, a estrutura florestal e a biodiversidade da Amazônia foi maior do que se pensava anteriormente.

Mais compreensão

Segundo a geóloga Mayara Fraeda, professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e apoiada pelo Instituto Serrapilheira, a descoberta reforça a ideia de que a Amazônia foi muito mais ocupada e transformada por sociedades pré-colombianas do que se imaginava há algumas décadas. "Essas terraplenagens são evidências de planejamento e organização da paisagem, mostrando que esses povos modificavam o ambiente de forma estruturada. Sem dúvidas, o LiDAR vem se mostrando uma ferramenta robusta, com inúmeras aplicações, e tem permitido identificar estruturas antes escondidas pela floresta, ampliando significativamente nosso conhecimento sobre a ocupação humana da região."

"Esses resultados, integrados a estudos anteriores, ajudam a reconstruir a evolução da paisagem amazônica e a compreender melhor a interação entre os processos naturais e a ação humana ao longo do tempo. Além disso, o estudo reforça a importância de investir em pesquisas científicas na Amazônia. Ainda conhecemos apenas uma pequena fração desse rico território, que reúne patrimônios geológicos, arqueológicos e biológicos. Certamente, muitas outras descobertas ainda virão e continuarão a transformar nossa compreensão da região", completou a professora.

Segundo a pesquisa, a civilização Aquiry ocupou uma área menor que 3% da Grande Amazônia, contudo, a região pode conter mais estruturas de terraplenagem do que se previa anteriormente para toda a bacia amazônica. Os autores concluem que, caso concentrações semelhantes de estruturas de terraplenagem ocorram em outros locais, as estimativas das populações pré-coloniais e seu impacto local deverão ser reavaliadas. 

 

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