Ciclone-bomba: entenda o fenômeno monitorado pelo Inmet
Professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP explica o que é o ciclone-bomba, fenômeno que pode ser formado entre Argentina, Uruguai, sul do Brasil e Oceano Atlântico nos próximos dias
O termo ciclone-bomba é usado na meteorologia para descrever um ciclone extratropical que se intensifica de forma muito rápida em consequência de uma queda acentuada da pressão atmosférica - (crédito: PxHere/Divulgação )
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) monitora a possível formação de um ciclone-bomba entre a Argentina, o Uruguai, o Sul do Brasil e o Oceano Atlântico, com previsão de impactos principalmente entre os dias 6 e 8 de agosto. De acordo com o órgão, o sistema poderá favorecer o avanço de uma frente fria, aumentando o risco de temporais, descargas elétricas, granizo, rajadas intensas de vento e queda acentuada das temperaturas na Região Sul.
Apesar do nome chamativo, um ciclone-bomba não é um tipo diferente do fenômeno. O termo é usado na meteorologia para descrever um ciclone extratropical que se intensifica de forma muito rápida em consequência de uma queda acentuada da pressão atmosférica. Esse processo é conhecido como ciclogênese explosiva.
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Segundo o Inmet, a rápida intensificação do sistema ocorre quando há uma combinação favorável entre massas de ar frio e quente, além de condições atmosféricas que aceleram a queda da pressão no centro do ciclone. Quanto mais intensa essa queda, maior tende a ser a força dos ventos associados ao fenômeno.
Os principais efeitos esperados não decorrem apenas do centro do ciclone, mas também da frente fria associada ao sistema. O Inmet alerta para a possibilidade de chuvas intensas, tempestades com descargas elétricas, granizo e rajadas de vento, sobretudo nos estados da Região Sul. O deslocamento do ciclone sobre o oceano também pode provocar forte agitação marítima e ressaca ao longo da costa.
Embora ciclones extratropicais sejam relativamente comuns no Sul da América do Sul, apenas uma parcela deles passa por intensificação suficiente para ser classificada como uma “bomba meteorológica”. Por isso, nem todo ciclone extratropical é um ciclone-bomba.
Micael Cecchini, astrônomo
(foto: Instituto Serrapilheira )
Micael Cecchini, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USO) apoiado pelo Instituto Serrapilheira, tira as dúvidas dos leitores sobre o ciclone-bomba:
O que são os ciclones-bomba?
Primeiro, é importante definir o que é um ciclone. Um ciclone é um sistema meteorológico em larga escala, com centenas ou milhares de quilômetros de extensão, que tem como característica uma rotação no mesmo sentido da rotação da Terra. No Hemisfério Sul, isso significa que esses sistemas giram no sentido horário quando observados de cima, enquanto no Hemisfério Norte giram no sentido anti-horário. Qualquer sistema que gire dessa forma é chamado de ciclone. Dentro dessa classificação, existem diferentes tipos de ciclones. Os ciclones tropicais ocorrem nos trópicos e podem dar origem aos furacões. Furacão e tufão são o mesmo fenômeno; a diferença está apenas na região onde ocorrem. Já os ciclones extratropicais acontecem em latitudes mais altas, enquanto os subtropicais se formam entre as regiões tropicais e extratropicais. Nos ciclones extratropicais e subtropicais, uma característica fundamental é o que chamamos de gradiente horizontal de temperatura, ou seja, uma diferença de temperatura entre massas de ar frio e quente. Essa diferença gera uma corrente de ar forte em altos níveis da atmosfera, que provoca uma queda de pressão próxima à superfície. O que diferencia um ciclone comum de um ciclone bomba é a intensidade desse fenômeno. Se a diferença de temperatura for mais drástica, essa corrente em altos níveis será mais forte, fazendo com que a pressão na superfície diminua mais rapidamente. Convencionou-se estabelecer um limiar para definir um ciclone bomba: nos extratrópicos, em torno de 60 graus de latitude, uma queda de aproximadamente 24 milibares em 24 horas. Na prática, quando se fala em ciclone bomba, isso indica que uma massa de ar muito mais fria está avançando por baixo de uma massa de ar muito mais quente. Essa situação gera tempestades mais intensas na interface entre essas massas de ar, porque o ar frio, por ser mais denso, empurra o ar quente para cima. Esse levantamento favorece a formação de nuvens e tempestades. Quanto mais frio for o ar frio e mais quente for o ar quente, mais intenso tende a ser esse processo, aumentando a ocorrência de tempestades severas, granizo e, depois da passagem do sistema, uma queda muito rápida das temperaturas.
Quais são as diferenças entre ciclone-bomba, um ciclone normal, furacão e tufão?
Todos esses fenômenos são ciclones, mas pertencem a classificações diferentes. Os ciclones tropicais ocorrem nos trópicos e podem dar origem aos furacões. Furacão e tufão são a mesma coisa; o que muda é apenas a região onde o fenômeno acontece. O termo tufão é usado para os eventos que ocorrem na região do Japão e do Pacífico Noroeste, enquanto furacão é o nome mais utilizado para os eventos do Atlântico. Já os ciclones extratropicais ocorrem em latitudes mais altas, e os subtropicais acontecem na faixa de transição entre os trópicos e as latitudes mais elevadas. O ciclone bomba não é uma categoria diferente, mas um ciclone extratropical particularmente intenso. O que o caracteriza é uma queda de pressão muito rápida, provocada por um contraste mais intenso entre massas de ar frio e quente. Quanto maior essa diferença de temperatura, mais forte será a corrente de ar em altos níveis e mais rapidamente a pressão diminuirá na superfície. Esse tipo de ciclone tende a provocar tempestades mais intensas, granizo e uma queda acentuada de temperatura após a passagem da frente fria.
É um fenômeno mais raro?
Não tenho os números em mãos, mas, para que exista uma classificação como essa, é preciso identificar uma queda de pressão particularmente forte, suficiente para caracterizar um evento extremo. Por definição, portanto, não é um fenômeno comum. Se fosse comum, não haveria necessidade de uma definição específica além da definição de ciclone. Essa classificação serve justamente para identificar eventos que exigem atenção especial. É possível discutir se eles podem se tornar mais frequentes ou mais intensos no futuro, mas, em termos de frequência de ocorrência, não são fenômenos comuns.
Por que os ciclones têm se formado mais recentemente na região Sul do Brasil?
Na verdade, não é que os ciclones tenham passado a se formar mais recentemente na região Sul do Brasil. Eles sempre se formam em latitudes mais altas e, por isso, naturalmente atingem primeiro a região Sul. No Hemisfério Sul, esses sistemas geralmente fazem um deslocamento semelhante a um bumerangue. Eles vêm do sul, caminham em direção ao nordeste e, em determinado momento, desviam para sudeste. Como normalmente se formam entre aproximadamente 45 e 60 graus de latitude, esses eventos surgem ao sul do Brasil ou muito próximos do Rio Grande do Sul. Por isso, os ciclones sempre atingem primeiro a Região Sul e, depois, podem avançar para outras áreas do país. Em alguns casos, as frentes frias associadas conseguem produzir efeitos até na Amazônia. No entanto, a parte mais intensa do fenômeno costuma permanecer no Sul, porque, conforme o sistema se desloca, ele pode perder força ou desviar para o Oceano Atlântico antes de alcançar outras regiões. No Brasil, ocorrem apenas ciclones extratropicais e subtropicais. Não temos ciclones tropicais nem furacões. A exceção foi o Furacão Catarina, um evento extremamente atípico, ocorrido há mais de 20 anos. Os ciclones que ocorrem por aqui estão sempre associados ao contraste de temperatura entre massas de ar e à passagem de uma frente fria, responsável pela linha de tempestades que acompanha esses sistemas.
Formada na Universidade de Brasília, é especializada na cobertura de ciência e saúde há mais de uma década. Entre as premiações recebidas, estão primeiro lugar no Grande Prêmio Ayrton Senna e menção honrosa no Prêmio Esso.