NO DNA

Estudo aponta que gene neandertal aumenta massa muscular em humanos até hoje

Estudo internacional mostra que gene neandertal presente no DNA humano atual intensifica ação do hormônio do crescimento e da musculatura

Uma variante genética herdada dos neandertais continua influenciando características físicas de parte da população atual, segundo um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia, e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha. Os cientistas concluíram que uma versão do receptor do hormônio do crescimento, transmitida aos humanos modernos por meio do cruzamento com neandertais há cerca de 47 mil anos, está associada a maior massa muscular e a pequenas diferenças na estrutura da mandíbula e dos dentes.

A pesquisa, publicada nesta quarta-feira (5/8) na revista científica Current Biology, identificou duas alterações específicas na proteína que forma o receptor do hormônio do crescimento dos neandertais. Essas modificações não são encontradas na variante mais comum entre os humanos atuais.

Em experimentos realizados com células cultivadas em laboratório, os pesquisadores observaram que a versão herdada dos neandertais responde de forma mais intensa ao hormônio do crescimento, resultando em um aumento de aproximadamente 40% no crescimento celular em comparação com a variante predominante na população moderna. Segundo os autores, uma das duas alterações genéticas é a principal responsável por esse efeito.

O hormônio do crescimento é produzido pela hipófise, glândula localizada na base do cérebro, e desempenha um papel fundamental no desenvolvimento dos ossos e dos músculos. Depois de ser liberado na corrente sanguínea, ele precisa se ligar a um receptor presente na superfície das células para desencadear os processos responsáveis pelo crescimento dos tecidos.

De acordo com os pesquisadores, a variante do receptor foi incorporada ao patrimônio genético dos humanos modernos durante o período em que houve cruzamentos com os neandertais. Atualmente, ela é mais frequente em populações do Sul e do Leste da Ásia. Em algumas regiões do Sul da Ásia, até 24% das pessoas carregam essa versão do gene, enquanto, entre os europeus, a frequência é de cerca de 0,5%.

Ao comparar os resultados obtidos em laboratório com dados genéticos e físicos de mais de um milhão de pessoas, a equipe encontrou evidências de que os efeitos observados nas células também se refletem no organismo humano.

"O que mais me impressionou foi que dois tipos de evidência muito diferentes contaram a mesma história", afirmou Philipp Kanis, primeiro autor do estudo e pesquisador de pós-doutorado no Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva. "As células cultivadas em laboratório responderam de forma mais intensa, enquanto os dados de mais de um milhão de pessoas mostraram sinais do mesmo efeito no organismo. É raro ver evidências de laboratório e de populações se encaixarem de forma tão clara."

Os cientistas também investigaram quando essas diferenças começam a aparecer. Para isso, analisaram medidas corporais de mais de 6 mil crianças e não encontraram associação entre a variante herdada dos neandertais e o crescimento até os 11 anos de idade. A ausência desse efeito na infância indica que as mudanças provavelmente passam a ocorrer mais tarde, possivelmente durante a puberdade, fase em que os níveis do hormônio do crescimento aumentam significativamente.

Entre os adultos, os portadores da variante apresentaram, em média, cerca de 270 gramas a mais de massa muscular. Os pesquisadores ressaltam, porém, que a influência genética é limitada e não determina, sozinha, a constituição física de uma pessoa.

"Como pratico CrossFit, fiquei muito feliz em ver a genética dos neandertais e a massa muscular reunidas no mesmo estudo", comentou a coautora Miriam Berreiter. "Mas nem mesmo um receptor do hormônio do crescimento herdado dos neandertais substitui o treinamento."

Além da maior massa muscular, a pesquisa apontou diferenças discretas na anatomia do crânio e da dentição. Os participantes que carregavam a variante genética tendiam a apresentar uma porção posterior da mandíbula inferior ligeiramente mais curta e raízes dentárias menores, características que se aproximam das observadas em fósseis de neandertais.

Os autores lembram que os neandertais eram, em geral, mais robustos do que a maioria dos seres humanos atuais. Seus esqueletos indicam musculatura desenvolvida e exibem traços típicos, como arcos superciliares proeminentes e raízes dentárias relativamente curtas.

"É fascinante que uma única alteração genética herdada dos neandertais ainda possa exercer influência sobre o corpo humano atualmente", afirmou Hugo Zeberg, pesquisador responsável pelo estudo. "Mas essa é apenas uma entre muitas influências genéticas sobre o crescimento e a forma do corpo. Ela não explica, sozinha, o biotipo dos neandertais e, certamente, não determina a aparência geral de uma pessoa."

Mais Lidas