
Uma alga marinha que frequentemente aparece em grande quantidade nas praias pode deixar de ser apenas um "problema ambiental" e se transformar em uma aliada da indústria da beleza, que movimenta mais de US$ 600 bilhões por ano. É o que aponta um estudo realizado por pesquisadores parceiros do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia para Agricultura Sustentável (INCT NanoAgro).
A pesquisa, publicada na revista científica Frontiers in Marine Science, reuniu os resultados de 30 estudos publicados entre 2020 e 2024, analisando 17 espécies da macroalga Sargassum. O objetivo foi entender como essas algas podem ser utilizadas na produção de dermocosméticos — produtos para cuidar da pele que unem cosméticos e ingredientes com ação comprovada cientificamente.
Os pesquisadores concluíram que o Sargassum possui substâncias naturais capazes de hidratar, proteger, combater inflamações e ajudar a prevenir o envelhecimento da pele, além de oferecer alternativas mais sustentáveis para a fabricação de cosméticos.
O que torna essa alga tão especial?
O estudo mostra que o Sargassum é rico em compostos naturais que apresentam diversos benefícios para a pele. Entre eles estão:
- Ação antioxidante, que ajuda a combater o envelhecimento precoce;
- Proteção contra os danos causados pelos raios solares;
- Efeito anti-inflamatório;
- Ação antimicrobiana, que auxilia no combate a microrganismos;
- Hidratação da pele;
- Auxílio na redução de manchas.
Entre as substâncias identificadas pelos pesquisadores estão fucoidanas, que fortalecem a barreira natural da pele e ajudam na hidratação; florotaninos, antioxidantes potentes; e meroterpenoides, associados à prevenção do envelhecimento.
Os pesquisadores revisaram 30 artigos científicos que investigaram o potencial cosmético da macroalga. Ao todo, foram estudadas 17 espécies diferentes, sendo as mais pesquisadas: S. horneri, com 30% dos estudos; S. fusiforme 6,67%; S. fussum 6,67% e Sargassum muticum 6,67%. Apesar dos resultados promissores, a maior parte da pesquisa ainda está em fase laboratorial.
Novas tecnologias tornam o processo mais sustentável
Um dos principais destaques da revisão é o avanço das chamadas tecnologias verdes, que reduzem o impacto ambiental durante a extração dos compostos presentes nas algas. Em vez de utilizar grandes quantidades de produtos químicos, os cientistas vêm adotando métodos mais limpos, como as extrações por som, enzimas e a por micro-ondas. Três técnicas que ajudam a preservas asa propriedas dos ingredientes e ainda reduzem o consumo de energia e solventes.
Outro conceito apresentado pelo estudo é o da biorrefinaria, que tem como objetivo gerar praticamente resíduo zero. Primeiro são retirados os compostos mais valiosos para cosméticos, para depois, o restante da biomassa pode ser utilizado na produção de fertilizantes, bioestimulantes agrícolas, alimentos para animais e até biocombustíveis.
Brasil ainda enfrenta desafios para liderar o setor
Apesar do potencial, o pesquisador Dr. Levi Pompermayer Machado, membro do INCT NanoAgro e um dos autores da revisão, explica ao Correio que ainda existem obstáculos para transformar esse conhecimento em produtos nas prateleiras .“Esse estágio pode ser acelerado com infraestrutura adequada para validação tecnológica, desenvolvimento de protótipos, serviços analíticos e apoio regulatório, reduzindo o tempo entre a descoberta científica e o mercado”, explica.
Segundo o pesquisador, o Brasil reúne biodiversidade e competência científica suficientes para se tornar referência na área, mas ainda precisa superar desafios relacionados à pesquisa, regulamentação e infraestrutura. “Não falta potencial biológico, mas uma combinação de desafios científicos, tecnológicos e regulatórios”, destaca.
Entre os principais entraves apontados estão:
- Pouca pesquisa das espécies brasileiras;
- Variações sazonais na composição das algas;
- Necessidade de padronização da biomassa;
- Controle de metais pesados e contaminação microbiológica;
- Desenvolvimento de processos industriais sustentáveis;
- Regulamentação para coleta e aproveitamento das macroalgas.
Além disso, o pesquisador destaca que ainda falta uma cadeia produtiva organizada no Brasil. “A articulação entre universidades, empresas, startups e órgãos reguladores é fundamental para transformar o conhecimento científico em produtos seguros e competitivos no mercado internacional”, afirma.
Além dos cosméticos
Embora o foco da revisão seja o setor de dermocosméticos, o Sargassum também apresenta potencial para outras áreas. De acordo com os pesquisadores, as macroalgas podem ser utilizadas na produção de alimentos funcionais, ingredientes farmacêuticos, bioenergia, biocombustíveis, bioestimulantes agrícolas, ração animal e até em tecnologias de captura e armazenamento de carbono.
Oportunidade para a bioeconomia brasileira
A revisão também evidencia uma lacuna importante: embora Brasil e Caribe recebam grandes quantidades de Sargassum, a maior parte das pesquisas ainda é desenvolvida na Ásia, principalmente na Coreia do Sul e na China.
Para os autores, isso revela uma oportunidade estratégica para que o Brasil fortaleça a chamada bioeconomia azul, transformando um problema ambiental em uma nova cadeia econômica baseada em inovação e sustentabilidade.
*Estagiária sob supervisão de Rafaela Soares
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