RAFAELA LEITE*
Bebês cujas mães receberam psicoterapia para tratar a depressão durante a gravidez apresentaram diferenças no volume do hipocampo direito, estrutura cerebral envolvida na memória e na regulação emocional. É o que revela um estudo realizado por pesquisadores da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos. A pesquisa também identificou uma associação entre o menor volume dessa região e indicadores de menor emotividade negativa aos seis meses de idade. Os resultados ampliam as evidências sobre a relação entre saúde mental materna e desenvolvimento neurológico infantil, mas não permitem estabelecer benefícios duradouros.
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A investigação, publicada na revista científica Nature Communications, integra o Care Project e acompanhou gestantes com sintomas depressivos elevados. Os pesquisadores compararam dois grupos: um recebeu psicoterapia interpessoal breve, enquanto o outro teve acesso ao acompanhamento obstétrico habitual aprimorado, que incluía informações sobre depressão pré-natal e orientações para buscar atendimento em saúde mental.
Segundo o ginecologista e obstetra Domingos Mantelli, a depressão pré-natal (gestacional) pode provocar tristeza persistente, ansiedade, desânimo, alterações no sono, perda de interesse pelas atividades e dificuldade de criar expectativas positivas em relação à maternidade. “O transtorno não afeta apenas o bem-estar da gestante. Quando não tratada, pode comprometer o autocuidado e aumentar o risco de complicações gestacionais.”
Metodologia
Para avaliar os possíveis efeitos das intervenções, os cientistas examinaram a estrutura cerebral dos bebês por meio de ressonância magnética realizada após o nascimento. Além do hipocampo, analisaram a amígdala, região associada ao processamento das emoções. As diferenças entre os grupos foram identificadas apenas no hipocampo direito. De acordo com a pesquisa, não houve variações significativas no volume do hipocampo esquerdo nem das amígdalas.
Aos seis meses, os bebês com menor volume do hipocampo direito também apresentaram índices mais baixos de emotividade negativa, característica relacionada à intensidade das reações emocionais diante de estímulos e situações cotidianas. A associação, contudo, não significa que a alteração cerebral provoque diretamente essas respostas nem que represente, necessariamente, uma vantagem para o desenvolvimento.
A intervenção psicoterapêutica compreendeu oito sessões semanais, com duração de 50 minutos cada. A terapia interpessoal busca auxiliar as pacientes a enfrentar conflitos nos relacionamentos, situações de estresse e dificuldades emocionais. A abordagem também procura fortalecer as redes de apoio social, que podem oferecer suporte à gestante durante esse período, diz o estudo.
"A psicoterapia é um espaço de acolhimento e cuidado em saúde mental, que possibilita à mulher compreender suas emoções, identificar situações que podem estar relacionadas ao seu sofrimento e desenvolver estratégias para lidar com elas”, explica a psicóloga Materno-infantil e psicopedagoga Lorranny Cristina.
Segundo ela, existem diferentes abordagens que apresentam evidências científicas para o tratamento da depressão, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Psicoterapia Interpessoal (TIP), que foi a abordagem utilizada no estudo. Lorranny afirma que a TIP trabalha questões relacionadas aos relacionamentos, aos conflitos interpessoais, às mudanças de papéis sociais e à rede de apoio. “Esses aspectos podem ganhar novos significados durante a transição para a maternidade e ser importantes no cuidado à saúde mental da mulher.”
Inovação
De acordo com os autores, o trabalho é o primeiro ensaio clínico randomizado e controlado a investigar os efeitos de uma intervenção psicoterapêutica para depressão pré-natal sobre a estrutura cerebral dos bebês. Nesse modelo de pesquisa, as participantes são distribuídas aleatoriamente entre grupos, permitindo comparar os resultados e avaliar com maior rigor os possíveis efeitos da intervenção.
Estudos anteriores já haviam relacionado a depressão durante a gravidez a alterações no desenvolvimento emocional e comportamental infantil. Grande parte dessas pesquisas, porém, tinha caráter observacional, ou seja, identificava associações sem avaliar diretamente os efeitos de um tratamento. A investigação atual acrescenta evidências experimentais ao examinar se o cuidado psicológico oferecido durante a gestação está relacionado a diferenças mensuráveis na anatomia cerebral dos recém-nascidos.
Para a psicóloga e gerente de Saúde Mental da Teladoc Health, Daniela Quirino, esses resultados reforçam a necessidade de incluir a avaliação da saúde mental no acompanhamento pré-natal, permitindo a identificação precoce de sintomas e o encaminhamento para assistência especializada. “É fundamental compreender que o cuidado integral à gestante deve contemplar não apenas sua saúde física e o desenvolvimento do bebê, mas também seu bem-estar psicológico.”
Apesar disso, os pesquisadores destacam que ainda não é possível determinar se as diferenças identificadas persistem ao longo da infância ou se estão associadas a vantagens cognitivas, emocionais ou comportamentais em fases posteriores da vida. Estudos longitudinais, que acompanham as mesmas crianças durante períodos prolongados, serão necessários para esclarecer essas questões.
Palavra de especialista
Processos psicológicos
Durante a gestação, a mulher passa por diversos processos psicológicos que envolvem as mudanças que estão acontecendo e a preparação para se tornar mãe. É um período que pode mobilizar questões relacionadas à autoestima, à mãe que ela deseja ser, às expectativas em relação à maternidade, aos medos, às inseguranças e às mudanças nos relacionamentos. Quando essa transição é vivenciada em meio à depressão, esses processos podem se tornar ainda mais difíceis e gerar um sofrimento significativo. Nesse contexto, a psicoterapia oferece um espaço seguro para que essa mulher consiga elaborar suas experiências, compreender o que está sentindo e construir recursos para lidar com as dificuldades. No tratamento da depressão gestacional, ela pode ajudar a mulher a reconhecer seus sentimentos, identificar situações que contribuem para seu sofrimento e desenvolver estratégias para lidar com os sintomas depressivos e com as dificuldades do dia a dia. É importante que o tratamento seja baseado em evidências científicas e considere as necessidades de cada mulher, para que as intervenções sejam adequadas às suas demandas. Estudos como esse contribuem para ampliar a compreensão sobre a relação entre a saúde mental materna e o desenvolvimento infantil. Embora os resultados ainda precisem ser investigados em estudos de longo prazo, eles reforçam a relevância de ampliar o olhar para o tratamento da depressão durante a gestação.
Lorranny Cristina Ribeiro Alves, psicóloga materno-infantil
*Estagiária sob a supervisão de Marcelo Abreu
