Por: Thiago Sodré

Altiva, alta e visível: Amanda Fróes transforma existir em ato político no Brasil que mais mata pessoas trans

No mês da visibilidade trans, atriz e influenciadora faz um balanço cru, dolorido e necessário sobre ocupar espaços, enfrentar a transfobia e seguir viva — o que, por aqui, já é resistência

Amanda Fróes -  (crédito: Foto divulgação)
Amanda Fróes - (crédito: Foto divulgação)

Com 1,92 de altura e presença impossível de ignorar, Amanda Fróes não pede licença para existir — ela chega, ocupa e fica. No mês da visibilidade trans, a atriz e influenciadora resolveu abrir o jogo sobre o que significa ser uma mulher trans em um país que lidera o ranking mundial de assassinatos dessa população, e o recado é direto, sem filtro e com a coragem de quem atravessa esse campo minado há mais de 25 anos.

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“Tudo é um movimento político, estar viva, ocupar espaços. Eu não passo despercebida, tenho 1,92 de altura e estou em todos os lugares que eu deseje ir — na feira, no shopping, na praia… Se vocês soubessem a quantidade de meninas trans que estão trancadas em casa com medo de saírem às ruas, medo da violência, do julgamento, da maldade… Eu passo por isso há 25 anos, desde quando me transicionei. Eu sabia que não seria fácil, mas eu precisava viver minha identidade.”

O balanço do último ano, porém, vem com cicatrizes recentes. Amanda foi vítima de transfobia na porta de casa, quando um vizinho a xingou de “traveco” em alto e bom som. As câmeras de segurança registraram tudo e o caso foi parar na Justiça. Segundo ela, a agressão não teve motivo além do preconceito: ela estava em casa, sem incomodar ninguém, quando um homem branco, heterossexual e rico decidiu que a existência dela no mesmo condomínio era inaceitável.

“Eu não incomodo ninguém, eu tranquila na minha casa, e esse senhor branco, heterossexual e rico me xingando. E por quê? Simplesmente por eu ser uma mulher trans e morar no mesmo condomínio que ele. Isso ele não aceita.”

E Amanda não deixou barato. A denúncia foi registrada na DECRADI, delegacia responsável por crimes raciais e de transfobia, e o episódio também foi relatado no grupo de moradores do condomínio, onde vivem nomes conhecidos como Larissa Manoela, o ator André Luiz Frambach e a cantora Bruna Karla. Houve solidariedade de muitos moradores, com mensagens públicas e privadas, mas o silêncio de algumas figuras famosas chamou atenção — e machucou.

“Mas eles têm que aceitar. Nós, pessoas trans, moramos onde nós quisermos. Ali mora um juiz, ali um deputado, e ali uma influenciadora TRANS. Qual o problema?”

Amanda não esconde a frustração com a falta de empatia de quem tem visibilidade e discurso público alinhado à diversidade, mas preferiu não se posicionar.

“São pessoas públicas, pessoas que têm amigos LGBTs, sabem do ocorrido, sabem de mim, da minha existência, que sou uma mulher trans, que crio conteúdo para as redes sociais, que saio na pracinha com meu porquinho… Infelizmente não tive um apoio, um conforto dessas pessoas.”

Apesar das feridas, o mês da diversidade também é de celebração. Amanda comemora conquistas pessoais e coletivas, lembrando que avanços existem, ainda que conquistados a passos lentos. Ela retificou nome e gênero em 2015 e hoje vê mutirões facilitando esse processo para outras pessoas trans — algo que define como um verdadeiro marco social.

“Tem muita intolerância, sim, mas pouco a pouco vamos ocupando nosso espaço, que é de direito. Retifiquei meu nome e gênero em 2015. Hoje vejo mutirões para a retificação de pessoas trans, isso é maravilhoso e, socialmente falando, um grito de vitória. Tenho minha independência, sou livre, meus documentos estão no gênero feminino há mais de dez anos, tanto aqui quanto nos meus documentos franceses. Que cada pessoa trans conquiste seu espaço, que suas identidades sejam respeitadas. Fico feliz quando uma pessoa trans me diz que sou ‘inspiração’. Isso me deixa infinitamente grata.”

No Brasil onde existir ainda é um ato de coragem, Amanda Fróes segue sendo vista, ouvida e, sobretudo, impossível de apagar.

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TS
postado em 20/01/2026 17:33
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