
O Carnaval começa, para muita gente, no batuque do tamborim. Para Amanda Fróes, começou bem antes, ainda na infância, diante da televisão, encantada com uma mulher que, nos anos 80 e 90, desafiava padrões e brilhava como poucas na avenida.
A inspiração tinha nome e sobrenome, Roberta Close. “Eu era criança e via aquela mulher perfeita brilhando no Carnaval, eu falava ‘eu quero ser igual a ela’. Ela capinou um terreno cheio de obstáculos para eu e muitas outras mulheres trans estarmos aqui, gratidão Roberta Close pelo seu legado. O legal é que eu já pude dizer isso pessoalmente pra ela nas vezes que nos encontramos e ela sempre muito carinhosa comigo”, relembra Amanda, emocionada.
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Direto de Sergipe para o sonho carioca, Amanda guarda na memória a primeira vez que pisou na Marquês de Sapucaí, em 1996. “Eu lembro que minha primeira vez na Sapucaí foi em 1996, há exatos 30 anos, o tempo passa voando demais, eu ainda morava em Sergipe e vim pro Rio só pra participar desse filé, foi na União da Ilha do Governador, o enredo era ‘A viagem da pintada encantada’, foi uma mistura de emoção e realização de estar ali naquele lugar que parece sagrado, não sei explicar, só quem já pisou na Sapucaí sabe o que eu estou falando, mas também quando você está na avenida passa voando”.
Agora, depois de alguns anos afastada, ela se prepara para voltar ao palco mais simbólico do samba. E volta com discurso afinado sobre representatividade. Amanda destaca a importância de mulheres trans ocupando postos de destaque como rainhas e musas, espaços que durante décadas foram restritos às mulheres cis.
Ela cita como exemplo Pepita, atualmente Rainha de Bateria da Unidos de São Lucas. “Isso é representatividade, ocupar espaços que antes eram só de mulheres cis. A Pepita é um exemplo de travestilidade”, afirma.
Em 2026, Amanda também assume novos holofotes. É musa do Bloco Sai Hétero, considerado o maior bloco LGBT do Rio, e comemora o convite. “Fiquei lisonjeada e estou fazendo jus a esse título de musa que me foi dado”. Além disso, estará na terça-feira de Carnaval no carro “Espanha Caribenha” pela Paraíso do Tuiuti, que leva para a avenida o enredo “Lonã Ifá Lukumí”.
Entre memória, gratidão e ocupação de espaços, Amanda prova que o Carnaval é feito de brilho, mas também de história. E, para quem um dia sonhou diante da TV, hoje é ela quem inspira outras meninas a acreditarem que a avenida também pode — e deve — ser delas.
