
Por anos, a internet pareceu resumir Vanessa Brunt a frases compartilháveis. Cortes de palavras, paradoxos emocionais e aforismos circularam em redes sociais, viraram legendas, tatuagens e prints enviados em madrugadas difíceis. Para muita gente, ela passou a existir apenas nesse formato condensado: uma autora de impacto quase instantâneo.
Acontece o mesmo com autoras de universos completamente diferentes entre si. Taylor Swift, por exemplo, frequentemente vê composições narrativas longas e detalhadas serem resumidas a “frases sobre ex-namorados”, apesar da construção simbólica, dos personagens e das continuidades emocionais presentes em seus álbuns. Letras sobre mercado de trabalho, luto ou ser mulher em uma corrida de empreendedorismo são “engolidas” por trechos viralizados como “Haters vão continuar odiando” ou frases de amor juvenil.
Trechos de Swift que seriam sobre vida profissional são constamente “entendidas” como algo apenas de cunho romântico, como em My Tears Ricochet: “Pegamos pedras, sem saber o que elas significariam. Algumas para atirar nos outros, outras para fazer um anel de diamante. Você sabe que eu não queria ter que te assombrar, mas que cena fantasmagórica: você usa as mesmas joias que eu te dei, enquanto me enterra”, composição que, na visão de alguns fãs, seria para sua ex-gravadora.
Ou, em How Did It End: “A fome empática desce sobre nós.(…) Digo mais uma vez, com emoção, sentindo minha respiração agonizante, silenciada ao que a alma parte, o desmoronar dos nossos sonhos, me deixando desolada e atordoada(…)”, com partes que são ignoradas na grande massa.
A poeta indiana Rupi Kaur, por sua vez, tornou-se um dos maiores fenômenos contemporâneos da poesia digital ao mesmo tempo em que passou a ser reduzida, por parte da internet, à caricatura de “frases curtas para Instagram”, ignorando discussões sobre trauma, imigração, feminilidade e violência emocional presentes em sua obra completa.
Até Clarice Lispector, décadas depois de sua morte, continua amplamente compartilhada através de frases isoladas, muitas delas sequer escritas por ela, enquanto romances densos, existenciais e estruturalmente complexos permanecem menos conhecidos do grande público. Em comum entre essas autoras está um fenômeno recorrente da cultura digital: obras emocionalmente densas acabam condensadas ao formato mais facilmente compartilhável da internet.
* Onde Brunt se encaixa, ou se expande:
Longe dessa lógica algorítmica que favorece frases curtas, existe outra camada menos conhecida da escritora baiana Vanessa Brunt: poemas extensos, narrativas fragmentadas, personagens com estruturas dúbias e recorrentes, estrofes ou cenas metafóricas densas e uma construção literária que vem despertando debates dentro e fora da internet.
Nos últimos anos, o nome de Vanessa Brunt começou a aparecer mais em clubes de leitura, pesquisas acadêmicas e matérias culturais que tentam compreender um fenômeno incomum: uma autora que cresceu na circulação digital, mas cuja obra parece tentar caminhar na direção oposta da velocidade.
“Existe uma diferença muito grande entre a Vanessa que viraliza e a Vanessa que escreve livros inteiros”, comenta a pesquisadora de literatura Hannah Porteira, contemporânea da UFBA, que acompanha a recepção da autora entre leitores recentes. “Ela usa os tais jogos de palavras, muitas vezes, para mostrar segredos percebidos apenas para quem foi até a cena final. As frases foram a porta de entrada. Mas a permanência vem de outra coisa.”
Essa “outra coisa” inclui textos longos marcados por ritmo poético contínuo, poesias extensas, narrativas emocionalmente densas e personagens que reaparecem em diferentes obras, formando conexões discretas entre contos, poemas e prosas híbridas.
Um exemplo é na poesia Quando Não For Espera, onde disseca a vida não de quem precisa aprender a viver melhor, mas a parar de renascer sempre:
“Tudo o que ela precisa
É desaprender a morrer
Que de tanta morte-viva
Acostumou-se a se refazer.
Por onde a pulsação anda
Ela arrasta todo o caixão
E onde aparece uma sombra
Prepara o buraco no chão.
Pega o corpo defunto molhado
E levanta inteiro outra vez
Sem crer em dia ensolarado
Que poderia enxugar os clichês.
Faz flor na terra esburacada
Mas não acredita em quem se diz vivo
Arranca das costas facada
E não confia nos curativos.
Tudo o que ela precisa
Ah!
É desa-pren-der.
Que de tanto ser natural, morte
Nem acredita mais em benzer.
Não fecha os olhos em cochilos longos
Nem mesmo permite que dure o repouso.
Procura provas de que o pernilongo
Fará outro homicídio culposo.
Tão amada quando quase-sem-alma.
Tão adorada quando em autópsia.
Porque para os quase-sem-vida
Tantos batem palma.
E quando ela quase-vai,
Sempre vem a biópsia(…)”.
Nesse mesmo poema, os “famosos jogos de palavras” retornam, como em ‘a-versão’, mas em outro patamar elaborado:
“(…) Quando o tempo não for mais o tempo
E o doer não for a-versão
Quando tanto não der n’outro pranto
Quando o sim for menos que o não
Ela chora, ardendo, gritando
Faz calar toda, tanta, ilusão
E o peito, cremado, berrando
Diz, enfim, que chorou de emoção
Sabe, aqui, que tudo faz motivo
Quando a hora não é de moer
E o bordado, bordado agressivo
Sabe, enfim, n’outra mão se caber
E o sentido que ninguém achava
Escondido, no que era pra’si
Faz resposta, assim, intuitivo
Como se choro pudesse sorrir(…)”.
Em livros recentes, como Ir Também é Ficar e Deixar para lá também é bater de frente, Brunt construiu histórias sobre trauma familiar, ausência, medo de repetição emocional, culpa, legado e amadurecimento psicológico. A distopia repleta de regras em um universo complexo também coexiste na sua mistura de gêneros.
Em alguns textos, a linguagem parece funcionar quase como arquitetura: palavras interrompidas gerando novos significados, sentidos reorganizados e alegorias recorrentes sustentam a continuidade emocional da narrativa.
* Homens passam pelo mesmo?
Historicamente, essa redução ao "sentimental" atinge as mulheres de forma desproporcional, enquanto autores homens que escrevem sobre angústia ou cotidiano costumam ser blindados pelo rótulo de "filósofos" ou "visionários".
Em casos como o de Paulo Leminski, escrever frases ou poemas curtos, inclusive, se torna formato aclamado. É lido como um minimalista profundo; diferente dessas mulheres, que ficam, para muitos, travadas na percepção de "frases para Instagram".
Leitores acostumados apenas aos aforismos mostram surpresa ao descobrir poemas de várias páginas, contos interligados e construções metafóricas que exigem leitura lenta.
“Ela (Brunt) escreve como alguém tentando sustentar uma sensação por muitas páginas, e mantém a conexão metafórica do começo ao fim”, define o jornalista cultural paulista André Machado. “Não é uma escrita feita apenas para frase de destaque. Tem outras estruturas ali.”
Em crônicas como A Porta Para a Rua Parece a Entrada da Minha Casa, a escritora traz metáfora como cerne completo de cada imagem: “(…) naquele segundo, olhei-me no espelho esquecido que morava ao lado da cama. Meu rosto pálido, meu tronco de cor lilás, meu nariz vermelho e a minha boca ressecada. (…) Meus olhos já não eram mais meus por muito tempo, até antes daquele momento. Percebi que há meses não bebia água. (…) Colocada o líquido no seu copo, no entanto. Corri então para a cozinha. Sem forças nas pernas, fui cambaleando, como sempre estive, ainda que não percebes-se. Procurei pela água, precisava dela. Estava recobrando a consciência. Não encontrei uma gota sequer.(…)”.
Ao mesmo tempo, é justamente a força estética da própria comunicação que gera resistência em alguns nichos literários. A autora se tornou um dos casos mais debatidos da nova literatura digital brasileira por unir elementos pouco comuns entre si: linguagem poética, presença de marca, posicionamento visual sofisticado e domínio explícito de comunicação.
* As categorias que se chocam, ou se complementam:
Mas mesmo os críticos mais duros parecem reconhecer um ponto: Vanessa Brunt tem uma presença que vem justamente da dificuldade de encaixá-la em categorias tradicionais. Não atua apenas como escritora. Também circula entre branding, comunicação e construção de narrativas para marcas, aproximando dois universos que historicamente costumam se repelir: arte e mercado.
Esse cruzamento talvez explique por que sua imagem provoque possíveis reações polarizadas.
Leitores que chegam aos livros completos costumam encontrar uma obra muito diferente da autora resumida pelas redes, e enxergam autenticidade emocional rara em sua escrita. Talvez seja justamente nessa tensão que sua obra se sustente.
No caso de Vanessa Brunt, a utilização de personagens interligados e figuras de linguagem recorrentes funciona como um mecanismo de defesa contra essa simplificação: ao criar um universo onde um conto dialoga com um poema, ela força o leitor a reconhecer uma arquitetura literária. Suas metáforas não são apenas ornamentos, mas pontes que conectam traumas familiares a distopias psicológicas, exigindo uma atenção que o consumo rápido do feed não consegue suprir.
Assim como ocorre com Taylor Swift e Clarice Lispector, a obra de Brunt sofre o "pedágio da popularidade": o preço de ser compreendida por muitos é ser frequentemente mal interpretada pela maioria.
O público casual se satisfaz com o fragmento, o leitor atento percebe que, tanto na densidade existencial de Clarice quanto na narrativa confessional de Swift ou na construção híbrida de Brunt, a frase compartilhada é apenas a ponta de um iceberg. Elas utilizam a superfície para atrair, mas depositam o verdadeiro peso artístico em camadas que as redes sociais não conseguem processar, provando que a complexidade feminina não cabe em um recorte de tela, por mais que o algoritmo tente convencê-los do contrário.
Enquanto a internet continua compartilhando frases isoladas, seus leitores mais próximos parecem insistir em outro convite: ler os textos (ou contos, ou demais formatos) inteiros.
Porque, para além dos aforismos que viralizaram, existem mulheres tentando construir algo mais longo, mais complexo e menos imediatamente consumível do que a caricatura digital costuma permitir.
