
A saúde mental é um tema que ainda precisa ser amplamente discutido e desmistificado. Criada em 2014, a campanha Janeiro Branco busca justamente isso: conscientizar as pessoas sobre a importância de cuidar da saúde mental e quebrar os tabus que ainda cercam esse assunto.
A campanha, recorre ao simbolismo de recomeço no início do ano para incentivar as pessoas a refletirem sobre o cuidado psicológico, mas é crucial que essa conscientização não se limite a um único mês.
Em entrevista para a TV Alesp, o médico psiquiatra Luiz Dieckman, enfatiza a importância de discutir esse assunto. “Qualquer pessoa pode enfrentar problemas de saúde mental, seja pessoalmente ou com alguém próximo. Cuidar da saúde psicológica é fundamental, pois não há saúde física sem uma boa saúde mental", acrescenta ele.
Porque debater sobre saúde mental e problemas psicológicos?
O estigma em torno da saúde mental e das doenças psicológicas é um dos principais obstáculos para que as pessoas busquem ajuda. O Dr. Luiz explica que muitas pessoas que estão em tratamento psiquiátrico não entregam atestados médicos no trabalho, por exemplo.
O medo de ser rotulado e a vergonha em relação à saúde mental, faz como que muitos optem por não buscar ajuda, o que contribui para o agravamento da condição.
A falta de atenção a sintomas iniciais pode levar a crises graves, como os ataques de pânico. O psiquiatra alega que muitas pessoas só procuram ajuda quando a situação se torna mais grave. Ele ressalta que muitas vezes as pessoas não se questionam sobre o que em sua vida cotidiana – seja no trabalho, na família ou em relacionamentos – está contribuindo para esses sintomas, sendo fundamental identificar e lidar com esses fatores antes que se agravem.
Afinal, a ansiedade é algo bom ou ruim?
Embora todo ser humano sinta ansiedade, é crucial entender os fatores que tornam esse sentimento prejudicial. Dieckman explica que a ansiedade tem um papel evolutivo importante, sendo um mecanismo que ajudou o Homo Sapiens a alcançar suas conquistas. "Se eu não me preocupar, não me preparar para ser um bom profissional, por exemplo, ou para fazer algo que orgulhe meus filhos, não vou ser uma pessoa que agregue à sociedade", afirma.
Ele explica que a ansiedade segue uma curva, podendo gerar inicialmente mais trabalho e eficiência, mas, a partir de certo ponto, ela atinge um platô. "Quanto mais ansiedade, mais eu trabalho, mas, depois de um certo limite, a performance não melhora", completa.
A partir daí, tentar aumentar a ansiedade, consumindo substâncias como cafeína ou energéticos, não resulta em melhoria e pode levar ao declínio da performance, o que é um dos sinais de transtorno de ansiedade.
É essencial identificar a linha tênue entre o que é comum e o que é patológico, para que transtornos sejam tratados adequadamente. Ele ainda explica que funções biológicas como sono, apetite e concentração são indicadores importantes de alterações, e que mudanças nesses padrões podem indicar que algo não está normal. "É importante separar o que é comum do que é inesperado, aquilo que gera sofrimento e afeta a qualidade de vida”, conclui.
Um dos aspectos do estigma das doenças psicológicas é o preconceito sobre a "aparência de ter problemas". O Dr. Luiz relembra que, por muito tempo, evitou contar aos pacientes que já teve transtorno do pânico, se tratou e ficou bem. Ele conta que teve esse transtorno aos 17, 18 anos e, mesmo depois de formado, ainda se preocupava com o julgamento, acreditando que, se compartilhasse sua experiência, poderia ser visto de forma negativa. "Ou seja, ninguém é imune. Eu sempre reforço: me tratei, fiquei tão bem que estou aqui”, acrescenta o especialista.
Dieckman afirma que um dos fatores essenciais para melhorar a qualidade de vida é agir desde a infância, focando na base do desenvolvimento do indivíduo.
Ele destaca que a redução do uso de telas, por exemplo, é um aspecto fundamental, trazendo impactos positivos para a saúde psicológica de forma geral, mas especialmente para as crianças.