
Nos últimos anos, medicamentos como Ozempic (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida) se tornaram febre entre quem busca emagrecimento rápido, impulsionados por depoimentos de celebridades e resultados impressionantes – até 20% de perda de peso em alguns casos. Porém, um efeito colateral pouco discutido vem preocupando dermatologistas: a queda abrupta de cabelo, especialmente entre mulheres. Esse fenômeno tem levado pacientes a procurarem dermatologistas com queixas de fios ralos e quebra excessiva.
O Dr. Rafael Reinert, dermatologista membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), explica que o problema está diretamente ligado à perda de peso acelerada. "A alopecia não está entre os efeitos adversos mais relatados nos estudos iniciais, mas na prática clínica, o eflúvio telógeno tem sido frequente", afirma. O motivo seria uma combinação perigosa: estresse metabólico, déficits nutricionais e alterações hormonais desencadeados pela perda de peso acelerada e pela falta de acompanhamento profissional.
O Dr. Reinert explica que o fenômeno é bem documentado: "A perda ponderal rápida leva a deficiências de ferro, zinco, vitamina D e biotina, nutrientes essenciais para o ciclo capilar”. Uma pesquisa da Universidade de British Columbia, publicada em 2025, mostra que usuárias de semaglutida têm 50% mais risco de queda de cabelo comparado a outros métodos de emagrecimento.
Mas o problema vai além da nutrição, influenciando a saúde hormonal de pacientes. “Alterações endócrinas, especialmente disfunções tireoidianas potencialmente associadas à ação dos agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1), podem comprometer adicionalmente a dinâmica do ciclo capilar”, detalha o especialista. Para mulheres, o risco é ainda maior.
Mulheres sofrem mais com queda capilar ao usar Ozempic e Mounjaro
Enquanto a queda de cabelo atinge ambos os sexos, as mulheres são as mais afetadas pelos efeitos colaterais capilares de Ozempic e Mounjaro. “A maior suscetibilidade das mulheres à queda capilar associada ao uso de semaglutida pode estar relacionada a fatores hormonais, metabólicos e comportamentais. O sistema hormonal feminino é mais sensível a alterações metabólicas e à perda de peso rápida — que é um efeito comum da semaglutida. A alopecia eflúvio telógeno, tipo de queda capilar induzida por estresse físico ou metabólico, é mais prevalente em mulheres justamente por essa sensibilidade”, explica Dr. Reinert.
Além disso, o uso da semaglutida com foco somente estético contribui para esse quadro, já que é cada vez mais comum que mulheres busquem tratamentos com objetivo de emagrecimento rápido, o que pode levar a déficits nutricionais.
No entanto um ponto muito importante que também deve ser levado em consideração é que, culturalmente, mulheres tendem a relatar e perceber mais precocemente alterações capilares, o que pode também influenciar os dados estatísticos.
As explicações também vão além da biologia, já que o especialista também relata um impacto emocional muito significativo entre seus pacientes. “A perda capilar costuma ter um impacto psicológico significativo, especialmente em mulheres. No consultório, é comum observar sintomas de baixa autoestima, ansiedade, vergonha e até depressão associadas à alopecia. O cabelo, especialmente na cultura ocidental, tem forte ligação com identidade, feminilidade, juventude e saúde. O primeiro passo é acolher emocionalmente o paciente e validar sua dor. Em seguida, é fundamental oferecer um diagnóstico preciso, explicando as causas e os tratamentos disponíveis de forma clara e acessível”, detalha.
Como proteger os fios (sem abandonar o tratamento)
Para mulheres que precisam ou optam por usar esses medicamentos, o Dr. Reinert ressalta que a suplementação alimentar é fundamental durante todo o período de tratamento. Assim como é indispensável manter uma alimentação com quantidades adequadas de proteínas, frutas e verduras. “A reeducação alimentar é o ponto chave quando falamos em emagrecimento saudável”, afirma. “É preciso que a população entenda que se automedicar não é o melhor caminho. Todo medicamento tem uma indicação e ela deve ser respeitada. Procure um endocrinologista para saber se você é um paciente com indicação para uso de tal medicamento. Caso seja, deve realizar o tratamento associado a equipe multidisciplinar (cardiologista, dermatologista, nutricionista, psicóloga, etc.). A saúde sempre está acima da estética. Procure um especialista antes de usar o qualquer medicamento por conta própria”, finaliza.