Entenda

Ozempic e Mounjaro podem causar queda de cabelo e mulheres são mais afetadas

Dermatologista Dr. Rafael Reinert explica que emagrecimento rápido com esses medicamentos pode desencadear eflúvio telógeno, um tipo de queda capilar associada ao estresse metabólico.

Dr. Rafael Reinert -  (crédito: Reprodução/instagram)
Dr. Rafael Reinert - (crédito: Reprodução/instagram)

Nos últimos anos, medicamentos como Ozempic (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida) se tornaram febre entre quem busca emagrecimento rápido, impulsionados por depoimentos de celebridades e resultados impressionantes – até 20% de perda de peso em alguns casos. Porém, um efeito colateral pouco discutido vem preocupando dermatologistas: a queda abrupta de cabelo, especialmente entre mulheres. Esse fenômeno tem levado pacientes a procurarem dermatologistas com queixas de fios ralos e quebra excessiva.

O Dr. Rafael Reinert, dermatologista membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), explica que o problema está diretamente ligado à perda de peso acelerada. "A alopecia não está entre os efeitos adversos mais relatados nos estudos iniciais, mas na prática clínica, o eflúvio telógeno tem sido frequente", afirma. O motivo seria uma combinação perigosa: estresse metabólico, déficits nutricionais e alterações hormonais desencadeados pela perda de peso acelerada e pela falta de acompanhamento profissional.


O Dr. Reinert explica que o fenômeno é bem documentado: "A perda ponderal rápida leva a deficiências de ferro, zinco, vitamina D e biotina, nutrientes essenciais para o ciclo capilar”. Uma pesquisa da Universidade de British Columbia, publicada em 2025, mostra que usuárias de semaglutida têm 50% mais risco de queda de cabelo comparado a outros métodos de emagrecimento.
Mas o problema vai além da nutrição, influenciando a saúde hormonal de pacientes. “Alterações endócrinas, especialmente disfunções tireoidianas potencialmente associadas à ação dos agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1), podem comprometer adicionalmente a dinâmica do ciclo capilar”, detalha o especialista. Para mulheres, o risco é ainda maior.

Mulheres sofrem mais com queda capilar ao usar Ozempic e Mounjaro


Enquanto a queda de cabelo atinge ambos os sexos, as mulheres são as mais afetadas pelos efeitos colaterais capilares de Ozempic e Mounjaro. “A maior suscetibilidade das mulheres à queda capilar associada ao uso de semaglutida pode estar relacionada a fatores hormonais, metabólicos e comportamentais. O sistema hormonal feminino é mais sensível a alterações metabólicas e à perda de peso rápida — que é um efeito comum da semaglutida. A alopecia eflúvio telógeno, tipo de queda capilar induzida por estresse físico ou metabólico, é mais prevalente em mulheres justamente por essa sensibilidade”, explica Dr. Reinert.


Além disso, o uso da semaglutida com foco somente estético contribui para esse quadro, já que é cada vez mais comum que mulheres busquem tratamentos com objetivo de emagrecimento rápido, o que pode levar a déficits nutricionais.


No entanto um ponto muito importante que também deve ser levado em consideração é que, culturalmente, mulheres tendem a relatar e perceber mais precocemente alterações capilares, o que pode também influenciar os dados estatísticos.

  • Dr. Rafael Reinert
    Dr. Rafael Reinert Divulgação


As explicações também vão além da biologia, já que o especialista também relata um impacto emocional muito significativo entre seus pacientes. “A perda capilar costuma ter um impacto psicológico significativo, especialmente em mulheres. No consultório, é comum observar sintomas de baixa autoestima, ansiedade, vergonha e até depressão associadas à alopecia. O cabelo, especialmente na cultura ocidental, tem forte ligação com identidade, feminilidade, juventude e saúde. O primeiro passo é acolher emocionalmente o paciente e validar sua dor. Em seguida, é fundamental oferecer um diagnóstico preciso, explicando as causas e os tratamentos disponíveis de forma clara e acessível”, detalha.

Como proteger os fios (sem abandonar o tratamento)


Para mulheres que precisam ou optam por usar esses medicamentos, o Dr. Reinert ressalta que a suplementação alimentar é fundamental durante todo o período de tratamento. Assim como é indispensável manter uma alimentação com quantidades adequadas de proteínas, frutas e verduras. “A reeducação alimentar é o ponto chave quando falamos em emagrecimento saudável”, afirma. “É preciso que a população entenda que se automedicar não é o melhor caminho. Todo medicamento tem uma indicação e ela deve ser respeitada. Procure um endocrinologista para saber se você é um paciente com indicação para uso de tal medicamento. Caso seja, deve realizar o tratamento associado a equipe multidisciplinar (cardiologista, dermatologista, nutricionista, psicóloga, etc.). A saúde sempre está acima da estética. Procure um especialista antes de usar o qualquer medicamento por conta própria”, finaliza.



FM
postado em 20/06/2025 15:50 / atualizado em 20/06/2025 15:56
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