
Com uma comunidade de 117 mil seguidores no Instagram, Moisés Lopes tem construído uma trajetória que vai além da influência digital. Entre campanhas de moda, publicidade, eventos e produção de conteúdo, o criador consolidou uma marca pessoal baseada em autenticidade, representatividade e propósito.
Homem negro, gay e nascido na periferia, ele faz da própria história um manifesto sobre pertencimento, mostrando que ocupar espaços historicamente restritos também é uma forma de transformar realidades.
Mas o caminho até aqui não foi simples. Em uma carreira construída com consistência e dedicação, Moisés admite que houve momentos em que pensou em desistir. A pressão por resultados rápidos nas redes sociais, somada às barreiras impostas pelo racismo e pelo preconceito, quase interrompeu seus planos. Foi justamente nesses momentos que encontrou forças para seguir em frente.
“Quando você vem da periferia, é um homem negro e gay, muitas portas parecem estar fechadas antes mesmo de você tentar abri-las. Além disso, trabalhar com internet exige constância, e nem sempre os resultados aparecem na velocidade que esperamos. O que me fez continuar foi entender que minha história poderia inspirar outras pessoas. Cada conquista mostrou que eu estava no caminho certo. Hoje, quando participo de campanhas, desfiles ou eventos importantes, lembro de onde vim e percebo que todo esforço valeu a pena. Meu propósito sempre foi ocupar espaços sem abrir mão de quem eu sou”, afirma.
Para o influenciador, cada conquista individual também representa um avanço coletivo. Ele acredita que a presença de pessoas negras em espaços de destaque ajuda a ampliar horizontes para uma nova geração que, durante muito tempo, cresceu sem referências.
“A representatividade importa porque faz as pessoas acreditarem que também podem chegar lá. Quando um jovem negro entra no meu perfil e vê alguém que veio da periferia ocupando espaços na moda, na comunicação e na publicidade, ele entende que esse lugar também é dele.”
Essa visão foi construída a partir das referências que encontrou ao longo da vida. Em uma época em que havia poucas pessoas negras ocupando posições de protagonismo na televisão, na moda e na comunicação, Moisés buscou inspiração em nomes que romperam barreiras e abriram caminhos.
Entre eles estão Conceição Evaristo, pela valorização da história e da identidade negra através da literatura; Sandra de Sá, pela autenticidade e representatividade na música; Glória Maria, pioneira que transformou o jornalismo brasileiro; e Gilberto Gil, que fez da arte uma celebração da diversidade e da cultura brasileira. Também cita Rafael Zulu, Lázaro Ramos, Taís Araújo e Mano Brown como exemplos de profissionais que construíram carreiras sólidas sem abrir mão da própria identidade.
“Essas pessoas me ensinaram que representatividade vai muito além da imagem. É sobre abrir caminhos, ocupar espaços com propósito e criar oportunidades para que as próximas gerações encontrem um cenário mais diverso do que aquele que eu encontrei quando comecei. Não quero ser visto apenas como uma exceção. Quero fazer parte de uma mudança em que pessoas negras estejam presentes em todos os espaços de forma natural, sendo reconhecidas pelo talento, pela criatividade e pela competência.”
Embora reconheça que a internet democratizou oportunidades e ampliou a visibilidade de criadores negros, Moisés acredita que o verdadeiro avanço acontecerá quando a diversidade deixar de ser encarada como exceção.
“Quero entrar em um hotel de luxo, em um restaurante, em um shopping ou ligar a televisão e ver pessoas negras ocupando todos os espaços. Não apenas trabalhando nesses lugares, mas também consumindo, viajando, apresentando programas, liderando empresas e vivendo essas experiências. Precisamos normalizar essa presença. Quando isso acontecer de forma espontânea, sem causar estranhamento, vamos entender que a representatividade deixou de ser discurso e passou a fazer parte da realidade.”
Para os próximos anos, o influenciador pretende ampliar sua atuação como comunicador e fortalecer sua presença em projetos que conectem moda, entretenimento e impacto social. Entre os sonhos estão apresentar grandes eventos, como o Rock in Rio, comandar um programa de entrevistas, acompanhar semanas de moda internacionais e conhecer Nova York, cidade que considera uma das maiores referências mundiais em cultura, diversidade e moda.
Mais do que acumular conquistas profissionais, Moisés quer continuar sendo um exemplo para quem ainda acredita que determinados espaços não lhe pertencem.
“Quero continuar ocupando lugares que um dia pareciam distantes para alguém com a minha história. Se, ao fazer isso, eu conseguir inspirar outras pessoas negras e da comunidade LGBTQIAPN+ a acreditarem que também podem chegar lá, vou sentir que estou cumprindo um propósito muito maior do que qualquer conquista profissional”, conclui.
