
No palco, Ed Sheeran fez da simplicidade uma marca registrada. Camiseta, tênis e violão costumam ser suficientes para um dos artistas britânicos mais conhecidos de sua geração. Basta olhar para o pulso, porém, para encontrar um universo bem diferente.
O cantor construiu ao longo dos anos uma coleção que reúne alguns dos nomes mais importantes da alta relojoaria, com relógios históricos, grandes complicações, edições de poucos exemplares e até peças desenvolvidas especialmente para ele.
Mas o que leva alguém com acesso praticamente irrestrito ao mercado de luxo a escolher determinados relógios?
Para o especialista em alta relojoaria Renan Bastos, a resposta ajuda a entender a diferença entre simplesmente comprar peças caras e construir uma coleção.
“Quando chegamos a esse nível de colecionismo, preço é apenas uma das variáveis. Raridade, importância histórica, complicações, procedência e a relação do colecionador com as manufaturas passam a ter um peso enorme”, explica.
No caso de Sheeran, há ainda outro elemento recorrente: muitos dos relógios guardam referências à própria vida do artista.
O Patek Philippe que trocou Londres pela cidade de Ed Sheeran
Talvez o exemplo mais simbólico seja um Patek Philippe World Time referência 5230G, feito especialmente para o cantor.
Nos tradicionais relógios World Time, nomes de cidades aparecem no mostrador para representar diferentes fusos horários. Na peça de Sheeran, Londres foi retirada para dar lugar a Framlingham, cidade inglesa onde ele cresceu.
O detalhe transforma um relógio sofisticado em algo que dificilmente poderia pertencer a outra pessoa com o mesmo significado.
“Uma peça única muda completamente a discussão. Não estamos falando apenas de um relógio difícil de encontrar, mas de algo criado especificamente para determinado proprietário. A exclusividade passa a estar também na história que aquela peça carrega”, avalia Renan Bastos.
Um relógio com referências aos álbuns e às filhas
A mesma lógica aparece em outro modelo da coleção: um Audemars Piguet Royal Oak Perpetual Calendar, em cerâmica branca, desenvolvido como peça única.
Nesse caso, os detalhes funcionam quase como pistas sobre a vida do músico.
Os ponteiros receberam cores relacionadas aos álbuns de Sheeran, o rotor foi personalizado com os símbolos matemáticos associados a seus trabalhos e números destacados no mostrador fazem referência aos aniversários de suas filhas.
Para Renan Bastos, personalizações desse nível mostram como o conceito de exclusividade muda entre grandes colecionadores.
“Depois de determinado nível, exclusividade deixa de significar apenas possuir algo raro. O relógio passa a ter elementos que fazem sentido especificamente para aquela pessoa.”
Um dos Patek Philippe mais importantes está na coleção
Entre tantas peças personalizadas, há também espaço para referências históricas.
Sheeran possui um Patek Philippe referência 2499, calendário perpétuo com cronógrafo produzido entre 1950 e 1985.
Foram fabricados apenas 349 exemplares ao longo de aproximadamente 35 anos. O cantor possui uma versão tardia em ouro amarelo e já apareceu publicamente usando a peça.
Curiosamente, não é um relógio que necessariamente chamaria atenção de quem cruza com o músico na rua.
“Alguns dos relógios mais importantes do mundo passam despercebidos por quem não acompanha o mercado. Eles não precisam ser visualmente chamativos. Produção, mecânica, conservação e importância histórica podem dizer muito mais”, explica Renan Bastos.
Uma grande complicação para usar no palco
Outro relógio chama atenção não apenas pela mecânica, mas pela forma como Sheeran decidiu utilizá-lo.
Em 2017, período marcado pelo sucesso mundial do álbum Divide, o cantor adquiriu um Patek Philippe 5208P.
O modelo combina repetição de minutos, cronógrafo monopulsante e calendário perpétuo instantâneo. Mesmo diante de tamanha complexidade, Sheeran não queria que a peça permanecesse apenas guardada.
O músico chegou a solicitar uma pulseira revestida de borracha para conseguir usá-la durante apresentações.
“Existe o colecionador que guarda e existe aquele que quer viver com o relógio. Mesmo peças extremamente sofisticadas podem estar ligadas a momentos importantes da vida de quem as comprou”, afirma Renan Bastos.
Um relógio que apenas outras dez pessoas poderiam ter
Em 2025, outra escolha chamou atenção.
Durante um ensaio relacionado à TIME100, Sheeran apareceu usando um Arnold & Son Constant Force Tourbillon 11.
A versão em ouro amarelo foi limitada a apenas 11 exemplares. O modelo possui caixa de 41,5 mm, movimento mecânico de corda manual e reserva de marcha de 100 horas.
Para Renan Bastos, a escolha também ajuda a desmontar a ideia de que grandes coleções são formadas exclusivamente pelas marcas mais conhecidas do público.
“Quando o colecionador começa a buscar uma peça pela solução mecânica, pela história do fabricante ou pela produção extremamente restrita, o nome estampado no mostrador deixa de ser o único fator de decisão”, observa.
Até o álbum ‘Play’ virou relógio
Os discos de Ed Sheeran também acabaram chegando ao pulso do cantor.
Em 2025, durante o lançamento de Play, ele apareceu usando um IWC Big Pilot Perpetual Calendar personalizado, com caixa de cerâmica branca e mostrador rosa inspirado na identidade visual do álbum.
O logotipo de Play aparece no próprio relógio.
“Começa a existir uma espécie de memória da carreira por meio dos relógios. A peça deixa de representar somente a manufatura e passa a marcar um momento específico da trajetória do proprietário”, analisa Renan Bastos.
Nesse sentido, a coleção de Sheeran funciona quase como uma linha do tempo. Diferentes peças remetem a discos, cidades, datas e momentos pessoais.
A paixão pelos relógios chegou até sua equipe
E nem todos ficaram com ele.
Ao final da Divide Tour, Sheeran encomendou versões especiais do Tudor Black Bay para presentear integrantes de sua equipe.
Os relógios receberam o símbolo do álbum no mostrador e uma gravação de agradecimento no fundo da caixa.
A escolha reforça um comportamento que aparece repetidamente na coleção do cantor: relógios são usados para registrar momentos e relações, não apenas como objetos de luxo.
O que os relógios de Ed Sheeran revelam
Separadamente, são peças raras, sofisticadas e, em alguns casos, praticamente impossíveis de reproduzir. Quando observadas em conjunto, porém, contam uma história mais interessante.
Há um relógio que carrega a cidade onde Sheeran cresceu. Outro registra referências aos álbuns e à família. Há modelos ligados a fases específicas da carreira e peças escolhidas pela importância histórica ou pela complexidade mecânica.
É por isso que, para Renan Bastos, avaliar uma coleção desse nível apenas pela soma dos preços seria simplificar o que existe por trás dela.
“Uma grande coleção não precisa necessariamente ser aquela com o maior valor financeiro. Ela precisa ter coerência. Você começa a perceber por que cada peça está ali: história, mecânica, raridade, estética, uma conquista ou uma lembrança.”
No pulso de Ed Sheeran, luxo e memória acabam ocupando o mesmo espaço. E talvez seja justamente isso que torne sua coleção tão particular: alguns de seus relógios poderiam custar uma fortuna para qualquer comprador, mas carregam histórias que só fazem sentido quando pertencem a ele.
