
Fé, dinheiro, medo da perda e relações amorosas se encontram em uma mesma casa em “O Santo e a Porca”, clássico de Ariano Suassuna que ganhou uma nova montagem em São Paulo. A encenação estreou no último domingo (30), no Teatro Décio de Almeida Prado, no Centro Cultural da Diversidade, e segue em temporada gratuita até 27 de setembro. O espetáculo marca o primeiro trabalho da Companhia Séria de Teatro.
A proposta é revisitar a obra escrita em 1957 sem abrir mão da força de seu texto, mas explorando novas possibilidades de corpo, ritmo, musicalidade e relação com a plateia. Para isso, a montagem reúne referências do clown, da commedia dell’arte e das danças brasileiras, além da chamada Trajetória do Herói, utilizada na construção dos percursos e arquétipos das personagens.
A história acompanha Euricão Arábe, um homem avarento e devoto de Santo Antônio que mantém sua fortuna escondida dentro de uma porca. Quando acredita que seu dinheiro está ameaçado, ele passa a agir de forma cada vez mais desesperada, dando início a uma série de confusões que envolvem segredos, disfarces, interesses amorosos, fé e ganância.
Na leitura proposta pela companhia, a avareza de Euricão está diretamente ligada ao medo. A direção de Diego Rodda busca compreender o personagem para além da obsessão pelo dinheiro, relacionando seu comportamento à necessidade de controlar a própria vida e garantir sua sobrevivência.
“Nosso ponto de partida foi justamente respeitar a força da escrita de Suassuna. Buscamos lançar um olhar particular sobre aquilo que já pulsa na obra. Em nossa visão, a avareza de Euricão é compreendida como expressão do medo: medo da falta, da perda, da entrega e de confiar no outro. Ele se agarra à porca como quem se agarra à própria sobrevivência. É dessa tentativa desesperada de controlar a vida que nasce o riso.”
O trabalho dos intérpretes também ocupa lugar central na encenação. A montagem investiga o corpo, o gesto, a postura e o ritmo de cada personagem, enquanto as cenas são construídas a partir de pausas, silêncios, ataques, mudanças de andamento e diferentes intensidades.
Integram o elenco Duda Paiva, Eduardo Venosa, Fernanda Bertoloni, Gabriela Minerbo, Matheus Cirillo, Paulo Roben, Thiago Salvetti e Yasmin Calbo, nos papéis de Caroba, Euricão, Benona, Margarida, Pinhão, Eudoro, Santo Antônio e Dodó, respectivamente.
A direção musical de Marco França complementa a pesquisa cênica e contribui para a construção de uma teatralidade que busca dialogar com a tradição popular brasileira sem transformar o Nordeste de Ariano Suassuna em caricatura ou representação folclórica.
A relação com o público também é parte da proposta. A montagem procura romper a distância convencional entre palco e plateia, convidando os espectadores a participar do jogo estabelecido pelos atores e criando uma relação de cumplicidade durante a apresentação.
O espetáculo marca ainda o início da trajetória da Companhia Séria de Teatro, formada por sete artistas que se conheceram na graduação em Teatro, em 2017. Depois de seguirem caminhos individuais, eles decidiram retomar a parceria em novembro de 2025 para reunir suas experiências em um projeto de criação, pesquisa e colaboração.
A pesquisa do grupo parte do personagem e de suas complexidades, utilizando improvisação, jogo teatral, escrita e criação colaborativa. Para Duda Paiva, a montagem representa o início desse percurso coletivo: “O Santo e a Porca representa o pontapé inicial para uma pesquisa de teatro popular, de arquétipos, tipos, de uma criação colaborativa pautada no jogo.”
Com a montagem, a Companhia Séria de Teatro inicia uma investigação voltada ao teatro popular e à construção de uma linguagem contemporânea, tendo o humor como ferramenta para abordar os medos, desejos, afetos, contradições e estratégias de sobrevivência presentes nas personagens.
Serviço
O Santo e a Porca
Temporada:
30/08 — 19h
05/09 — 20h
06/09 — 19h
13/09 — 19h
19/09 — 20h
20/09 — 19h
26/09 — 20h
27/09 — 19h
Local: Teatro Décio de Almeida Prado — Centro Cultural da Diversidade
Endereço: Rua Lopes Neto, 206 — São Paulo/SP
Ingressos: gratuitos
Duração: 1h30
Classificação indicativa: 16 anos
Ingressos: Sympla — “O Santo e a Porca”
