
Aos 98 anos, Nicanor Teixeira segue como uma das figuras mais respeitadas da história do violão brasileiro. Sua trajetória, iniciada ainda na adolescência e construída ao longo de décadas de dedicação à música, agora ganha uma nova homenagem pelas mãos do compositor e músico Zé Carlos Medeiros, que acaba de lançar o choro “Ao Mestre Nicanor”.
A relação entre os dois é antiga. Medeiros conheceu Nicanor há décadas, quando o violonista dava aulas de violão clássico para seu sobrinho. O encontro acabou se transformando em uma amizade e, principalmente, em uma referência musical para Zé Carlos, que compôs a faixa como uma forma de reverenciar o mestre.
“Eu o conheci há muitas décadas, quando ele dava aula de violão clássico para o meu sobrinho. A partir desse encontro, pude ver e ouvir de perto o quanto ele tocava. Tornou-se uma referência para mim e fiz esse choro com todo carinho”, recorda Medeiros.
Nascido em Barra dos Mendes, no interior da Bahia, em 1928, Nicanor começou a se apresentar aos 13 anos e compôs sua primeira obra aos 15. Em 1948, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde passou a conviver com importantes nomes da música brasileira. Entre suas experiências, está a convivência no Exército com o sambista Nelson Sargento.
Na capital fluminense, Nicanor ampliou sua atuação e se aproximou de nomes fundamentais do violão e da música popular brasileira. Foi pupilo de Dilermando Reis e Antonio Rebello, amigo de Jodacil Damaceno, participou como calouro do programa de Ary Barroso e teve contato com a obra de Andrés Segovia. A partir de meados dos anos 1950, deixou o trabalho no comércio para se dedicar integralmente à música.
Além de compositor e instrumentista, Nicanor construiu uma importante trajetória como professor. Ao longo dos anos, passou a ser referência para estudantes e músicos profissionais de diferentes gerações, formando uma extensa rede de discípulos e influenciando nomes como Turíbio Santos, Egberto e Alexandre Gismonti, Guinga, Paulão 7 Cordas, Afonso Machado e o próprio Zé Carlos Medeiros.
Sua produção também atravessa diferentes vertentes da música brasileira. O choro aparece em obras como “Carioca nº 1”, enquanto a seresta, a música clássica e a cultura nordestina também encontram espaço em sua composição.
Admiração entre mestres
A decisão de gravar “Ao Mestre Nicanor” também ganhou força após um encontro com outro grande nome das cordas: Toninho Horta. Apresentado ao músico pelo produtor Tuninho Villas, na Casa com a Música, na Lapa, no Rio de Janeiro, Zé Carlos tocou a composição durante o encontro.
A reação positiva de Toninho Horta serviu como um incentivo para que Medeiros levasse a homenagem ao estúdio e transformasse a composição em lançamento.
“A reação e as palavras muito elogiosas me deram força também para gravá-la”, conta o músico.
Primeiro álbum autoral
“Ao Mestre Nicanor” é o segundo single de uma série que prepara o primeiro álbum autoral de Zé Carlos Medeiros. O projeto, produzido por Tuninho Villas, do coletivo Casa com a Música, reúne participações de nomes consagrados da música brasileira e marca uma nova etapa na trajetória do artista.
Entre os convidados estão Robertinho Silva, Carlos Malta, Kiko Continentino e o percussionista Júlio Diniz, além de integrantes da Orquestra Sinfônica Brasileira. O trabalho também conta com a participação da cantora, poetisa e atriz irlandesa Aisling Groves-McKeown e de Marcelo Cervone, bisneto de Medeiros.
A aproximação entre Zé Carlos e Marcelo ganhou força nos últimos anos a partir de parcerias musicais. O músico participou da organização e preservação da obra do bisavô e também colaborou com Medeiros em trabalhos como “Cuidado”, de 2023, e “Greenwich”, de 2025.
Para Marcelo, “Ao Mestre Nicanor” carrega ainda uma memória afetiva. “O Zé sempre tocava esse choro na minha infância. E essa raiz está sempre presente comigo e me acompanha nos meus trabalhos aqui em Londres e nessas parcerias que tenho tido a honra e felicidade de realizar com ele”, afirma.
Com o novo single, Zé Carlos Medeiros não apenas apresenta uma nova composição, mas também ajuda a manter viva a memória de um músico cuja trajetória atravessa gerações e permanece ligada à história do violão brasileiro.
