
Por que alguém precisa morrer para que milhares de pessoas passem a se interessar por sua história? A morte de Rick, da dupla Rick & Renner, provocou comoção entre fãs e artistas, mas um fenômeno nas redes sociais acabou chamando atenção: após o acidente de helicóptero que matou o cantor aos 59 anos, mais de 1 milhão de pessoas passaram a seguir seu perfil.
O crescimento repentino não passou despercebido por Roberta Miranda. A cantora reagiu ao aumento no número de seguidores e lamentou o fato de o reconhecimento ganhar força justamente depois da morte. “Pensei o mesmo… Chega a ser cruel você não valorizar em vida quem tanto fez pela música”, escreveu a artista nas redes sociais.
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O episódio traz à tona um comportamento que não começou com as redes sociais, mas que ganhou novas proporções com elas. Mortes inesperadas, acidentes e tragédias despertam curiosidade, fazem buscas dispararem, levam pessoas aos perfis das vítimas e são capazes de manter milhões de espectadores acompanhando cada nova informação. Mas por que a dor do outro exerce tanto poder sobre a nossa atenção?
Para a psicanalista Cintia Castro, uma das explicações está justamente na dificuldade humana de lidar com a própria mortalidade.
“A morte repentina de alguém conhecido nos coloca diante de uma realidade que normalmente tentamos manter distante: a nossa própria finitude. No caso do Rick, o crescimento de mais de 1 milhão de seguidores mostra também uma tentativa coletiva de se aproximar, conhecer melhor sua história e elaborar aquela perda. A ausência torna aquilo que estava presente muito mais visível”, explica.
É como se a morte despertasse uma urgência para descobrir quem era aquela pessoa, rever sua trajetória, ouvir novamente suas músicas e conhecer detalhes que, até então, poderiam passar despercebidos. No ambiente digital, esse movimento acontece em poucos cliques e pode transformar rapidamente a repercussão de um perfil.
Mas existe ainda outro componente. Segundo Cintia, o ser humano tem uma atenção natural voltada para situações de ameaça e perigo. “Nosso cérebro é naturalmente atento ao perigo, e uma tragédia desperta medo, curiosidade e a necessidade de entender o que aconteceu, mas existe também algo mais profundo: quando olhamos para a tragédia do outro, somos levados a pensar na nossa própria fragilidade.”
E, mesmo que isso não seja verbalizado, algumas perguntas podem surgir quase automaticamente. “É como se, silenciosamente, perguntássemos: ‘E se fosse comigo? E se fosse alguém que eu amo?’”, afirma a psicanalista.
Esse mecanismo ajuda a compreender também por que acidentes e mortes de pessoas famosas costumam provocar grande repercussão na televisão, nos portais de notícias e nas redes sociais. O público quer entender o que aconteceu, busca novas informações e acompanha cada atualização.
“Tragédias reúnem elementos que capturam fortemente a atenção: emoção, incerteza, identificação e urgência. No caso do cantor Rick, havia ainda uma história construída na música brasileira e uma forte memória afetiva”, analisa Cintia.
A grande audiência, no entanto, também abre uma discussão sobre os limites dessa cobertura. Até que ponto mostrar todos os detalhes significa informar e quando a exposição da tragédia começa a transformar sofrimento em entretenimento?
“A mídia precisa de audiência e acontecimentos emocionalmente intensos conseguem capturá-la, mas existe um cuidado importante entre informar e transformar a dor em espetáculo, pois afinal estamos falando de pessoas, famílias e perdas irreparáveis”, alerta.
Se, por um lado, as pessoas procuram cada vez mais informações quando uma tragédia acontece, por outro, permanecer conectado continuamente a notícias negativas também pode ter consequências. A repetição de imagens, relatos e atualizações pode fazer com que a sensação de ameaça permaneça mesmo quando a pessoa está distante do acontecimento.
“Notícias sobre ameaças podem manter nosso organismo em estado de alerta, aumentando tensão, preocupação, irritabilidade e dificuldade para desligar a mente”, explica a especialista.
É justamente aí que pode surgir um paradoxo: a pessoa fica angustiada com o que está vendo, mas, em vez de se afastar, sente necessidade de procurar ainda mais informações.
“Pode surgir um ciclo: ficamos ansiosos, procuramos mais notícias para tentar entender ou nos sentir seguros, encontramos mais conteúdo negativo e ficamos ainda mais angustiados”, diz Cintia. Para a psicanalista, não se trata de deixar de acompanhar as notícias ou ignorar acontecimentos importantes. O cuidado deve estar na maneira como esse consumo passa a ocupar a rotina.
“O problema não é saber o que acontece no mundo. É quando valorizar notícias ruins passa a ser uma necessidade até mesmo sem a pessoa perceber.”
O salto de seguidores de Rick após sua morte acaba, portanto, expondo algo que vai muito além das redes sociais. Enquanto milhares de pessoas correram para conhecer mais sobre sua vida depois da tragédia, a reação de Roberta Miranda trouxe outra questão para o centro da discussão: por que tantas vezes o interesse, a homenagem e o reconhecimento se tornam maiores justamente quando já não podem mais ser recebidos por quem partiu?