Música

Conheça o Queernejo, vertente sertaneja que dá visibilidade LGBTQIA+

O Queernejo traz a representatividade e as narrativas LGBTQIA+ para o gênero mais popular do país

Lisa Veit*
postado em 29/08/2020 06:01 / atualizado em 09/09/2020 19:47
Gabeu é o precursor do segmento Pocnejo, e conta com sucessos, como Amor rural e Sugar daddy, que têm a sonoridade característica da moda de viola e do sertanejo raiz. -  (foto: Gabriel Renné/Divulgação)
Gabeu é o precursor do segmento Pocnejo, e conta com sucessos, como Amor rural e Sugar daddy, que têm a sonoridade característica da moda de viola e do sertanejo raiz. - (foto: Gabriel Renné/Divulgação)

Um novo movimento musical está se organizando a partir do gênero mais consumido no país, o sertanejo. Inicialmente batizado pelas redes de Pocnejo, Travanejo, ou Sapanejo, o subgênero passou a se chamar Queernejo, um termo mais abrangente para englobar todos os expoentes LGBTQIA+, que passam a escrever e protagonizar as próprias narrativas sobre as tradicionais bases rítmicas da sanfona, da viola caipira e do violão.

Apesar de ser algo ainda recente no mercado fonográfico, alguns artistas começam a ser identificados como os precursores do Queernejo no cenário musical brasileiro. Entre eles, Gabeu, Alice Marcone, Gali Galó, Reddy Alor e Aíla estão atuantes, e presentes nas playlists de sertanejo Queer, junto a expoentes do country estadunidense, como Shania Twain, Lady Gaga, com o trabalho Joanne (2016), e Lil Nas X, do sucesso Old Town Road. O último faz parte da comunidade LGBTQIA+ e é uma forte aposta para o, também emergente, Queer Country no cenário internacional.

Segundo a jornalista Addison Nugent, em publicação no portal da BBC, o Queer Country Music inicia uma nova onda e, assim como no Brasil com o Feminejo e, agora, com o Queernejo, tem aberto oportunidades para renovar o cenário country conservador. Nomes como Lil Nas X, o mascarado Orville Peck (com seu álbum de estreia Pony (2019)), e Trixie Mattel, dragqueen do reality show RuPaul’s Drag Race, indiretamente dão continuidade ao legado (pouco conhecido pelo mainstream) da banda Lavender Country, e do álbum homônimo, de 1973, considerado o primeiro álbum de Queer Country, que se tem registro.

Origens

Gabeu nasceu em um momento de auge na carreira do pai, Solimões, da dupla sertaneja com Rio Negro. Na época, o duo tinha feito sucesso com o disco De São Paulo a Belém. A influência da arte sertaneja e do ambiente interiorano de Franca (SP) reacenderam-se na memória de Gabeu, enquanto se entendia como músico. “Depois de fazer teatro, e algumas aulas de música, fui para São Paulo estudar cinema e tive um insight. Assim, decidi trabalhar com música profissionalmente. Comecei, então, a arquitetar de que forma eu poderia me lançar”, lembra Gabeu. Depois de lançar, em 2019, os singles Amor rural e Sugar daddy, ele teve boa resposta por meio da reação nas redes sociais: o Pocnejo. Um tempo depois, ao se reunir com outros artistas, decidiram por chamar as produções de Queernejo, já que o termo Queer foi apropriado para englobar todas as existências que saiam do padrão heteronormativo.

Assim como Gabeu, a multiartista Alice Marcone também iniciou recentemente a carreira no sertanejo. Passou a enxergar o gênero como um resgate às suas raízes, porém com protagonismo para contar histórias que a representem como mulher trans. A cantora passou pelo cinema e moda, assinou trabalhos como roteirista e, por fim, atendeu o chamado da música, que, a princípio, vem sob influência de outras artes. “Desde muito nova, contar histórias me atravessa. Também aprendi a tocar violão no interior, com 13 ou 14 anos. Foi quando comecei a desenvolver o canto. Professor de interior ensinava muito pop rock e muito sertanejo. Era todo um universo sertanejo nas minhas referências: Almir Sater, João Carreiro & Pardinho, Pena Branca & Xavantinho, essa parte mais raiz”, relembra Alice.

 Cantora Alice Marcone.
Cantora Alice Marcone. (foto: Mayra Azzi/Divulgação)


Antes disso, ao se entenderem LGBTQIA+, contam tiveram em comum, por um considerável período de tempo, o sentimento de distanciamento e divergência com o gênero musical. As letras eram, por vezes, pouco ou nada representativas. Nesse período, a identificação veio por meio do pop. “Eu sempre tive a influência também do pop, assim como a Alice, como uma forma de refúgio. Por não me encaixar mesmo, por achar que o sertanejo era um lugar que não nos cabia, não cabia nossos discursos, histórias e questões”, conta Gabeu. O cantor chegou a lançar um trabalho pop, antes de fazer a transição para o sertanejo.

Amor

Durante a reflexão sobre os possíveis desafios e possibilidades da produção Queer no sertanejo, os artistas contam que a intenção é abraçar a estética e trazer, em alguns momentos, o humor, mas sem os estereótipos distorcidos. Além disso, também haverá sofrência. Em seus trabalhos, Alice Marcone trata do universo amoroso da mulher trans, por vezes envolto em momentos de solidão: “Eu sempre falei muito de amor. É o tema imediato que me aparece quando eu vou compor. É o romance, a sexualidade, o afeto, a sofrência. Quando eu decido por ser uma cantora sertaneja, eu entendo de onde vem. É do gênero musical e de um passado muito imerso nessas temáticas. Quando eu me entendo uma mulher trans, tem algo que passei e vivi por muito tempo, e que é muito importante pautar em relação às mulheres trans, a solidão. Especialmente da mulher trans heterosexual, que se relaciona com homens heterosexuais cis gênero”, explica a cantora.

No videoclipe de Noite quente, Alice utilizou de alegorias do folclore para contar a história do amor entre a protagonista trans e um cantor sertanejo, vivido pelo ator Thomás Aquino (Bacurau), que se transforma em lobisomem ao anoitecer. Somente fora do ambiente social e público, ele se permite viver o ‘romance voraz’. Ela adiantou que pretende seguir essa estética narrativa para os próximos lançamentos, que inclui um álbum em fase de produção.


Referências

Gabeu, conta que é preciso trazer novas referências à imagem do sertanejo gay. “Eu não tinha muitas referências de artistas que fizeram algo do tipo e deu certo. A única referência que as pessoas têm em mente, e que me perguntam muito é a dupla Rosa & Rosinha, que não é gay. Não desmerecendo o trabalho musical deles, mas não é representatividade, são dois homens héteros interpretando personagens gays caricatos”, esclarece. E completa: “A princípio, quando estava pensando sobre me lançar um cantor sertanejo, passou pela minha cabeça: ‘como eu vou ser um cantor sertanejo, eu sou viado (risos)’. Eu tinha em mente que, se eu fizesse sertanejo, poderia ser que eu começasse a performar uma heteronormatividade. Refleti muito sobre isso. Quando lancei Amor rural, estava receoso de como o público receberia. Foi um tiro no escuro”.

O cantor adiantou que está em processo de produção de um álbum para o próximo ano, com algumas parcerias. Além disso, também falou sobre o 1º festival de Queernejo, o Fivela Fest, com produção de Gabeu e Gali Galó. “Estamos nos organizando para fazer dois dias de festival.” O evento será realizado em 18 e 19 de outubro, e será transmitido pelo YouTube. Para mais informações o público pode acessar as redes sociais do @fivelafest e dos músicos @eugabeu, @alice.marcone e @gali.music.

*Estagiária sob supervisão de Igor Silveira

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