Entrevista

Adirley Queirós: 'Os filmes chegam muito mais longe do que podemos esperar'

Cineasta de Ceilândia conversa com o Correio sobre cinema e o próximo trabalho 'Mato seco em chamas'

Ricardo Daehn
postado em 12/09/2020 06:01
 (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)
(crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

Com o batalhador cineasta da Ceilândia Adirley Queirós, o papo é reto. Determinado, é dos diretores locais que constroem não apenas nome na carreira, mas assentam estética e conteúdo crítico característicos de uma obra, como confirmam longas como Branco sai, preto fica (2014) e Era uma vez Brasília (2017). Adirley, aos 50 anos, emprega o olhar de quem não teme o batente, circula nas ruas e acumula experiências de vida: já vendeu chocolate na rua, deu aula particular de matemática, foi jogador de futebol e empregado de padaria.

O mais novo trabalho (em codireção com Joana Pimenta) será Mato seco em chamas, coprodução de baixo orçamento com Portugal. O filme, imerso no universo de quatro mulheres maduras, está pronto; mas sem data de exibição. “Na minha leitura, as mulheres são a origem da Ceilândia, que é feminina. Com 44 anos vividos na cidade, percebo que elas construíram nossas histórias, lutando pelas coisas da cidade. Lutam nas escolas, nos postos de saúde...”, sintetiza.

No novo longa, os diretores tratam da “primeira Ceilândia”, embasadora de memórias, ao mesmo tempo em que exploram uma arrojada quimera: uma Ceilândia que poderia ter até a riqueza de conter petróleo. “Como seria a promessa brasileira da era do pré-sal, caso ela fosse expandida para as periferias, resultando em educação e saúde? Essa foi nossa busca, no filme”, explica Adirley. Engajado, o diretor, a seguir, trata de temas pulsantes como o destino do Festival de Brasília e os reflexos da pandemia na Ceilândia; sem deixar de lado streaming, a quebra no pacto de políticas públicas, o impacto do cinema dele no exterior e até mesmo fala da possibilidade de mudar de profissão.

É difícil partir para a codireção em um longa-metragem como Mato seco em chamas?
Em curtas, já tive codireção com o Thiago Mendonça (Dias de greve e Fora de campo). O projeto Mato seco já nasceu com esta ideia, e não tenho trauma em codirigir, sendo a equipe total, unida pelo sentimento de discussão da política brasileira. Joana Pimenta (a codiretora) fez a fotografia do meu filme Era uma vez Brasília. O novo filme está pronto, mas não vai passar em Brasília, no festival. Na verdade, vamos esperar para ver como fica depois da pandemia. Para ter uma exibição on-line, seria necessária uma licença. Isso a gente não quer: há acertos (de negociação) ainda por serem feitos.

Em que sentido?
Estamos ajeitando os detalhes de como será distribuído. É uma etapa de contrato. O edital deste novo filme é pré-pandemia. Na regulamentação, há necessidade de exibição em salas de cinema, por um mínimo de tempo que seja. O Mato seco vem de um projeto de estímulo de cinema brasileiro em salas de cinema. E sabemos o quanto isso é importante e difícil: fazer o filme circular em salas de cinema. Isso impede o lançamento em plataformas. Depois, não tenho interesse. Cinema on-line, neste momento, ainda tem formatação muito confusa.

Por que a ideia de desviar do Festival de Brasília?
Não se trata da preferência por exibir online ou em telona. Cada filme tem seu jeito. E para passar um filme online, não se precisa de festival. Não cabe a festival este empoderamento. Festival, sim, traz a dinâmica de público, de encontro, e dos debates, em que se vê o rosto das pessoas. Meus filmes passam online, há tempos — e todos estão passando. Inclusive estão pirateados. Não fui eu quem colocou (risos).

Dá raiva ou orgulho ser pirateado?
Não dá orgulho, nem raiva. A exibição, desta forma, não é muito democrática: alguém está ganhando muito com isso. Não se respeita direitos autorais nenhum. O problema é que alguém ganha dinheiro, montando pacotes de 20, 30 filmes. Nisso, se desconstrói a ideia de um cinema que traga sustento. Nem autorização tem para passar o filme! Se fosse uma plataforma completamente livre, no sentido de não haver remuneração, dinheiro nenhum envolvido; não veria problemas, como o torrent faz, por exemplo. O problema é que os filmes têm o lado comercial: há patrocinadores envolvidos.

Voltando ao Festival de Brasília: você acredita numa popularização do evento?
O Festival de Cinema de Brasília 2020 tem dito que contará com uma grande corporação on-line que apoiará. Ninguém sabe como será feito, nem qual o grande interesse por trás disso. Ninguém sabe quanto isso pode gerar de renda ou não. Aliás, partir da ideia de que o festival possa ser algo popular, cria um problema sério. Temos que encarar de frente: o Festival de Brasília não pode se mover com a mesma lógica de público e de mercado. Na minha concepção, há uma grande diferença entre as políticas públicas do estado, tentando induzir um determinado tipo de público (qualquer que seja) e o público de mercado. Se corrermos atrás apenas do público de mercado, estamos na profissão errada: melhor seria ser youtuber (risos). Isso é o que traz público certeiro. Os festivais e eventos, sejam de literatura ou de filmes, fazem é buscar uma fruição diferenciada com objetos: sejam livros, filmes. Que tipos de filmes estarão lá? Não é porque o festival esteja online, que as pessoas vão se mobilizar. Tipo, sábado à noite, vão ver um filme específico porque ele está competindo num festival!? Isso com o apelo da Netflix e dos milhões de filmes disponíveis no streaming e na tevê. Uma pessoa, que tenha interesse específico, fará. É a pessoa que iria para a sessão do Festival de Brasília, no Cine Brasília. É quem quer sentir o ambiente do festival: socializar. Festival é uma janela interessante de filmes e um local de encontros: sempre foi assim.

E a popularidade?
Tenho dificuldade de entender o que se pensa que seja popular. Talvez, num novo formato, propicie realmente mais pessoas assistindo. Acho falacioso é apresentar um tipo de formatação para o evento, a partir do impedimento (com a pandemia), e tentar fazê-lo de modo que passe a impressão de ser vanguarda. Ficar parecendo que, além de ser uma solução, ela é muito inteligente. Não sei se é inteligente, acho que seja é bastante cômoda, na verdade. Interessante, pelo que ouvi, será como proposto no Festival de Gramado: a exibição direto no Canal Brasil.

Seus filmes alcançam festivais internacionais. Como você avalia isso?
Festival não é um fim: não se faz filmes para eles. Mas, claro, que associado a um festival, um filme ganha diferente visibilidade. Isso é irrefutável. O Era uma vez Brasília circulou muito em festivais internacionais. Foi um filme por duas vezes capa de Público, em Portugal. Muita gente fala ainda do Era uma vez Brasília: dizem que é um filme para ser entendido mais na frente. Talvez tenha que esperar para dialogar com um novo tempo: as pessoas viram assim — como um filme de futuro. Branco sai também circulou muito, A cidade é uma só? (2011) agora começa a circular também: foi a festival em Nova York. Neste processo, raramente vejo brasileiros no público. O público é de estrangeiro. Na Inglaterra, na Argentina e nos Estados Unidos saíram teses de doutorado sobre meus trabalhos. Geralmente, nos enredos, proponho provocações e o deslocamento de circunstâncias: tenho o recurso (da liberdade), por não trabalhar na Globo, na Netflix. Pela natureza dos meus filmes, chegamos até a Bolívia, a França, a Rússia. Tenho filme que passou na Sibéria! Os filmes chegam muito mais longe do que podemos esperar, e todo o filme vai atingir seu público. Acho importante circular para levar um certo tipo de cinema da cidade. Todos os meus filmes na verdade falam da cidade da Ceilândia. Não só como locação, mas usamos pessoas (atores e equipe) que circulam na cidade. Isso é muito positivo.

Como se deu o trabalho das atrizes amadoras no novo filme?
Em Mato seco em chamas, Gleide Firmino, atriz de teatro, é a única intérprete profissional. Completam o elenco, mulheres saídas do cotidiano, como uma frentista, uma atendente de padaria e uma funcionária de mercado. Parte do nosso processo vem do que chamo de etnografia da ficção: proponho uma ficção para personagens reais que internalizam situações, acreditam naquilo, e filmamos como se fosse um documentário. É isso.

Como percebe o freio do governo federal no setor audiovisual?
A Ancine (Agência Nacional do Cinema), obviamente, passa por processo de desmonte. Nós temos um governo que não gosta de cultura. Ele usa táticas de guerra: colocam pessoas chaves em lugares chaves para desmobilizar processos. Fazem isso, a partir da burocracia. Quem supervisiona a prestação de contas da Ancine é um militar da Marinha. O pensamento é “se a gente não consegue desmoralizar publicamente o cinema brasileiro junto aos espectadores, a gente acaba com ele, na essência, que é na burocracia: vamos acabar com o cinema, nas políticas públicas”. A Ancine foi paralisada. Temos, aliás, que esclarecer de onde vem o fomento da Ancine: não é da ordem do dinheiro público. É da ordem do dinheiro privado. Como diz o Luiz Carlos Barreto (produtor de cinema) “é o Estado que mama nas tetas da Ancine”. Paralisam o órgão, e retiram este montante. Na essência, o dinheiro da Ancine vem do mercado: está na regulamentação, junto com a aquisição de pacotes de televisão, de internet. Há filmes que fazem bilheteria e que só obtém lucro depois de repassar montantes para a Ancine. No Brasil, temos pessoas que depositaram a vida e as carreiras nas especializações em cinema, com investimentos, sem possibilidade de trabalho, e que estão sofrendo interrupção absurda. Na discussão de parâmetros de economia, o audiovisual gera economia. Então, é jogar contra si próprio: o governo atira nele mesmo. A paralisação da Ancine é um processo ideológico, de um governo facínora e de extrema direita. É um processo de silenciamento de liberdade.

Como vê a atuação do governo local no âmbito do FAC (Fundo de Apoio à Cultura)? Vê possibilidade de uma versão do Fac Audiovisual, uma expectativa da classe?
O que vai gerar produção local é o Fac, que é uma lei orgânica do estado. Teoricamente, deveria estar desvinculado dos desejos e vontades do governo. Se o dinheiro existe, e o governo não consegue trabalhar com este dinheiro, o governo é incompetente. Não conseguir gerir o dinheiro? Para que serve uma Secretaria de Cultura que age contra a cultura? O papel do secretário de cultura é o de lutar pelos interesses da classe cultural. Vejo política de governo e falta de compromisso com a ideia de estado. Um governo que não lança um edital de audiovisual vai ser cobrado por isso. Se o dinheiro foi alocado para isso: se existe, enquanto lei, por que não será aplicado?

E quanto aos aparatos emergenciais do FAC qual a sua percepção? Como nota a problemática da Ceilândia, diante do coronavírus?
FAC especial e emergencial são fundamentais, neste momento. Deveria até ter mais e atingir todos os que trabalham com cultura. Em Ceilândia, há vários artistas na cidade e que aparecem todos os dias. Mais FACs emergenciais deveriam atingir as periferias. Aqui, os artistas de rua vendem o almoço pra comprar a janta. Estou há cinco meses no mesmo espaço físico da minha casa, na Ceilândia Norte. Mas, e quem não pode ficar em casa? E os ambulantes que, todo o dia, têm que vender algo pela sobrevivência? A Ceilândia é o reflexo da falta de política pública. Falta a mão do estado para proteger os mais pobres, e não de oprimir os mais carentes. Não precisa só colocar polícia nas ruas. Precisa é dar a assistência que as pessoas precisam. Imagina o desamparo da saúde pública! A falta de UTIs nas periferias sempre existiu. Quando se restringia à classe pobre, não era visibilizados. Junto com Sol Nascente, Ceilândia, com 500 mil pessoas, sofre com a falta de atendimento médico, com um hospital. Vivemos a catástrofe, a tristeza de ver pessoas mais carentes e mais velhas desamparadas. Com as mortes dos idosos, há perda da memória da cidade. O interesse do governo é o de colocar as pessoas a trabalharem, a qualquer custo. Além disso, como alguém na Ceilândia faz distanciamento social, com três, quatro famílias vivendo no mesmo lote?

Como é viver de cinema no país? Deu para ter algum dinheiro?
Vivo de cinema, como qualquer pessoa vive do que faz. Estou nisso há 15 anos, então consigo me remunerar com filmes. Numa vida qualquer, como todos vivem. Sem políticas, o cinema tende a não existir como foi. Não tenho vontade de fazer concessões no que faço, não tenho tempo nem vontade de fazer adesões. Luto, sim, permanentemente, em sentido de classe, de grupo de cinema. Luto, em comunhão, pela categoria para ter capacidade de produção. Aos poderosos, fica o balcão (a política disso). Não converso com pessoas pelas quais não tenha respeito. Editais é que são democráticos. Se as políticas públicas acabarem, procuro outra profissão.

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