Teatro

Festival Cena Contemporânea chega aos 25 anos adaptado à pandemia

Mesmo de maneira enxuta e, em um primeiro momento virtual, a 21ª edição do Festival Internacional de Teatro de Brasília, o Cena Contemporânea 2020, comemora 25 anos e projeta olhares para o futuro das artes cênicas

Roberta Pinheiro
postado em 01/12/2020 07:22 / atualizado em 01/12/2020 09:02
Performance de vídeo-dança 'Último berro - corpo em estado de emergência', do bailarino Idio Chicava -  (crédito: Mariano Silva/Divulgação)
Performance de vídeo-dança 'Último berro - corpo em estado de emergência', do bailarino Idio Chicava - (crédito: Mariano Silva/Divulgação)

Apesar do modelo enxuto e adaptado ao distanciamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus, a 21ª edição do Festival Internacional de Teatro de Brasília permitiu aos organizadores sonhar com outras possibilidades do fazer teatral e com o time de convidados. Isso porque, ao contrário de anos anteriores, o Cena Contemporânea 2020 está dividido em duas etapas. A primeira, virtual, que começa nesta terça-feira (1º/12) e vai até dia 11, e a segunda, marcada para ocorrer entre 25 de maio e 6 de junho de 2021, com uma programação híbrida.

Com trabalhos que levam a assinatura da globalização e do diálogo entre as linguagens artísticas, o Cena explora outros formatos e homenageia a própria história. Afinal, este ano são comemorados 25 anos desde a criação do festival a partir do Núcleo de Arte e Cultura (NAC), com a proposta de consolidar um processo de intercâmbio, possibilitando que Brasília entrasse em um circuito de espetáculos inovadores e de vanguarda.

“Não queríamos que os 25 anos do Cena passassem em branco. Então, é uma edição que visita a história e projeta para o futuro ao lado de parceiros, companhias e artistas”, comenta Carmem Moretzsohn, diretora artística e curadora do festival, ao lado de Mariana Soares. “São espetáculos preparados para o festival, outros que são registros de obras em andamento, com a presença de grandes astros que jamais poderia sonhar em trazer”, acrescenta Carmem citando, por exemplo, o norte-americano Paul Lazar, que apresenta, ao lado da parceira Bebe Miller, Cage Shuffle: a digital duet (Cage aleatório: um dueto digital); e a Akra Khan Company, da Inglaterra, uma das companhias de dança mais importantes da Europa, que traz uma versão exclusiva de The silent burn project.

Ao todo, são mais de 20 apresentações de obras híbridas e transmídias com exibição gratuita, em horários diversos, no site do festival e no canal do YouTube do Cena Contemporânea. Além disso, cada espetáculo poderá ser visto por mais três dias depois da estreia, em qualquer horário, no canal YouTube do festival — com algumas exceções que serão indicadas no site. A programação conta com projetos de diferentes estados brasileiros, como Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte, propostas de artistas e grupos do Distrito Federal, e obras internacionais da França, Espanha, Inglaterra, México, Estados Unidos, Moçambique e Alemanha.

Expressão política

“Realizar o Cena é abrir espaço de expressão. Ao longo dos séculos, o teatro vem se reinventando, se atualizando aqui, faz um diálogo com uma ferramenta, encontra novas formas de expressão. Isso é saudável até para se renovar e não se apagar”, afirma Carmem. No decorrer da construção da programação, a curadora detalha como foi interessante ver artistas recriando olhares, formas de expor ideias e assuntos. “O teatro está vivo. É claro que foram canceladas temporadas, turnês. Tem muita gente sem trabalho, passando por necessidades financeiras, a ajuda do Estado que muitas vezes é ausente, mas a gente tem visto também que as pessoas continuam procurando formas de se expressar. Uma inventividade incrível”, pontua.

Entre as estreias do Cena, está o trabalho Aquilo que não podem demolir enquanto eu puder falar, que trata da matéria fantasma dos espaços, com direção de Francis Wilker e criação dele com Ligia Souza e Marcelo Díaz. Em cena, três mulheres — Micheli Santini, Adriana Nunes e Lucinaide Pinheiro — resgatam memórias e afetos de uma oficina mecânica que também era teatro e a casa de José Perdiz, em uma mistura de cinema e teatro.

“A Oficina Perdiz foi um espaço cultural muito importante para o DF e a salvaguarda dessa memória é um direito social. Demolir paredes e construir outras em novos lugares não dá conta de preservar as memórias, perde-se a ressonância afetiva de tudo aquilo que se viveu no espaço original. E Brasília tem muito forte o culto à monumentalidade de determinados espaços e à sua própria arquitetura. Então, penso que a arte pode ter um papel importante em fazer ver o que não está dando, escavar o tempo e fazer vibrar novamente vozes quase sempre à margem. Resgatar memórias da Oficina Perdiz é também afirmar a importância do teatro na criação de imaginários para a cultura do DF ontem, hoje e amanhã”, afirma Wilker.

Pandemia

Para o diretor teatral, esse resgate de um integrante da cultura brasiliense não deixa de ser uma metáfora do Brasil. “Faz pensar em tudo de valioso que pode ser destruído e, também, de tudo que fizemos, que sonhamos, que cantamos, que somos, que precisamos fazer vibrar a nossa potência de criação, nossa pulsão de vida em meio à ruína”, detalha.

Diante de um contexto político que ataca a arte e a cultura e de uma pandemia que impossibilitou a ida aos teatros, a memória se torna, nas palavras de Wilker, instrumento de luta social. “Nosso país precisa urgentemente lembrar mais, conhecer as marcas que esse chão carrega, ser mais cuidadoso com todas as lutas que vieram antes para construirmos um projeto de país em que a liberdade, a democracia, a diversidade cultural e o conhecimento sejam valores inegociáveis”.

Seja resgatando memórias, seja abordando questões raciais ou de migração, os espetáculos da 21ª edição do Festival Internacional de Teatro de Brasília versa sobre a contemporaneidade. “De alguma maneira tem uma mensagem que a gente pode considerar com fundo político sem ser partidário”, descreve Carmem. “Tudo, de alguma maneira, tem uma posição política nossa de respeito à diversidade, à diferença e de luta pela igualdade”.

Oficinas

Também dentro da programação do Cena 2020 tem o lançamento do canal Bebelume, o primeiro do Brasil dedicado aos bebês de até 5 anos de idade, exibindo oito episódios da série Grão Jeté, com direção de Clarice Cardell. Além disso, o público poderá acompanhar, via zoom, atividades formativas e pedagógicas que emergem nas técnicas, estéticas e processos criativos. Nesta edição, os convidados são o argentino Matías Umpierrez e Idio Chichiva.

Confira a programação do Cena Contemporânea:

Terça-feira (1/12)

21h30

Abertura – Cena 25 anos – 10 min

Cada vez que alguém diz isso não é teatro se apaga uma estrela – Lagartijas Tiradas al Sol – México – 15 min – Livre

The silent burn project (Projeto O silêncio queima) – Akram Khan Company – Inglaterra – 45 min – Livre

Quarta-feira (2/12)

21h30

AntaGônicos – Celeiro das Antas – Rede Garra – DF – 3 min – 12 anos

Birdie – Agrupación Señor Serrano – Espanha – 60 min – 12 anos

Quinta-feira (3/12)

21h30

La codista_BR – César Augusto, Pedro Uchoa e Monique Vaillé – RJ – 35 min – Livre

Performances Rede Garra – Obras Reunidas – DF – 25 min – 12 anos

Sexta-feira (4/12)

21h30

Buraco – Cia VíÇeras – Rede Garra - DF – 4 min – 12 anos

AnarchyL’Harmonie du désordre (Anarquia – A harmonia da desordem) – Espanha – 57 min - Livre

Sábado (5/12)

11h

Grão jeté – Canal Bebelume – DF – 30 min – Teatro para bebês de 0 a 5 anos

17h00

Hibridity (Hibridismo) – Cocoondance – Alemanha – 60 min – Livre

19h00 e 21h00

Clã_Destin@: uma viagem cênico-cibernética - Os Clowns de Shakespeare – RN – 60 min – 14 anos

21h30

Papiamento – Projeto Atlânticos - Felipe Oládélè e António Tavares – Rio de Janeiro/Cabo Verde – 13 min - Livre

Aquilo que não podem demolir enquanto eu puder falar – Francis Wilker – DF – 30 min - Livre

Domingo (6/12)

19h00 e 21h00

Clã_Destin@: uma viagem cênico-cibernética - Os Clowns de Shakespeare – RN – 60 min – 14 anos

19h30

Baque – Andaime Cia de Teatro - Rede Garra – DF – 3 min – Livre

Cage shuffle: a digital duet (Cage Aleatório: um dueto digital) – Paul Lazar e Bebe Miller – NY/EUA – 30 min - Livre

Segunda-feira (7/12)

19h00 e 21h00

Clã_Destin@: uma viagem cênico-cibernética - Os Clowns de Shakespeare – RN – 60 min – 14 anos

21h30

MP3: A missão – Grupo Tripé – Rede Garra – DF – 4 min – Livre

Juntoseseparados 5 – Anti Status Quo Cia de Dança – DF – 35 min - Livre

Terça-feira (8/12)

21h30

comofazerabsolutamentenada.mov – Grupo Liquidificador – Rede Garra – DF – 4 min – Livre

Parasite (Parasita) – cie Kilaï – França – 51 min - Livre

Quarta-feira (9/12)

21h30

Joana – Grupo Embaraça – Rede Garra – DF – 5 min – 12 anos

Começa a ficar tarde e Último Berro: Corpo em estado de emergência – Ídio Chichava – Moçambique – 43 min - Livre

Quinta-feira (10/12)

21h30

Drops telecotidiano – Os Novos Candangos – Rede Garra – 3 min – 12 anos

Poema/Confinado – Agrupação Teatral Amacaca – Hugo Rodas – DF – 45 min – 12 anos

Sexta-feira (11/12)

21h30

Processo Julius Caesar – Companhia dos Atores – RJ – 25 min – Livre

Ué, eu ecoa ocê’ ué eu? – Cibele Forjaz e Celso Sim – SP – 15 min – 16 anos

Cada vez que alguém diz isso não é teatro se apaga uma estrela – Lagartijas Tiradas al Sol – México – 15 min – Livre

21ª edição Cena Contemporânea

Festival Internacional de Teatro de Brasília (módulo on-line). De 1º a 11 de dezembro. No www.cenacontemporanea.com.br e canal do YouTube do Cena.

 

Depoimento

O que são 25 anos de Cena Contemporânea?

“O Cena nasceu no Núcleo de Arte e Cultura do DF, do desejo de consolidar um processo de intercâmbio, de troca, possibilitando que Brasília entrasse em um circuito de espetáculos que não chegavam à cidade, mais inovadores, de vanguarda. Tinha o objetivo bem claro de dar a conhecer a produção de Brasília, uma produção forte, e apresentando uma pungência muito grande. O Cena é muito fiel a esse princípio.

Além disso, vem acompanhando toda a transformação pela qual passa as artes cênicas do ponto de vista tecnológico. O teatro deixou de ser analógico quase sempre. Cada vez mais, ele incorporou esse não ter regra, não ter um formato definitivo, uma verdade dramática, é múltiplo e polivalente. E, quando chegamos neste momento agora, tão difícil, começou a inventar e discutir formas. Claro que nada substituirá o encontro presencial, de ir ao teatro, de desligar o celular, o frisson de esperar o terceiro sinal. É uma nova forma. Os 25 anos também mostraram que o Cena vai superar os momentos, as dificuldades e continuar existindo. Mostraram que Moçambique é logo ali, que Moscou fica bem ali, ou seja, as proximidades são grandes.”

Guilherme Reis, diretor e fundador do Cena

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