Festival de Cinema

História de Caim e Abel foi o ponto de partida para 'Longe do paraíso'

O veterano cineasta Orlando Senna fala sobre Longe do paraíso, filme inspirado na história de Caim e Abel e que será exibido, nesta quarta, no Festival de Brasília

Ricardo Daehn
postado em 16/12/2020 07:58 / atualizado em 16/12/2020 08:38
 (crédito: Sueli Seixas/Divulgação)
(crédito: Sueli Seixas/Divulgação)

A história bíblica de Caim e Abel foi o ponto de partida para que o veterano Orlando Senna, 51 dos 80 anos de vida dedicados ao cinema, criasse sua primeira “ficção pura”, Longe do paraíso, longa a ser exibido nesta quarta-feira (16/12) na Mostra Oficial do 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A exemplo de Caim, o protagonista do filme, Kim (Ícaro Bittencourt), se sente abandonado e odiado por Deus. “O jovem Kim é um matador de lideranças camponesas e tem um profundo medo de morrer. Ele comete um erro e é condenado à morte pela organização criminosa que o contrata”, adianta Senna, em entrevista ao Correio.

Grande impasse se instala quando Kim, devido a seus antecedentes na organização, recebe uma chance de sobrevivência: será poupado desde que execute a líder camponesa Bel, sua irmã (Emanuelle Araújo). “Bel, assim como Abel, acredita piamente na bondade e na onipresença de Deus”, conta o diretor, que chega ao festival com credenciais invejáveis. Criador de roteiros para filmes de Ruy Guerra e Hector Babenco, Orlando Senna atuou no lendário Centro Popular de Cultura, foi professor na prestigiada Escola de Cinema de Santo Antônio de Los Baños (Cuba) e secretário do Audiovisual, quando o Brasil estimulava o pensamento por meio de um básico (mas presente) Ministério da Cultura.

O filme atual de Senna, única ficção a concorrer na Mostra Oficial de longas, apontaria para desesperança? “Acho que sou um otimista incorrigível. Sei que a humanidade está trilhando o pior dos caminhos que poderia trilhar, que é o ódio. Mas sei também que, na mesma medida em que o ser humano entra em grandes tragédias coletivas — as Cruzadas, as Guerras Mundiais, o nazismo —, tem a capacidade de superá-las”, observa. Nada vem fácil, entretanto. “Com grandes prejuízos, com perdas enormes, existe a capacidade de superação. O que sinto, nesse momento, é o estilhaçamento do capitalismo e o aumento da violência estrutural, da qual também somos vítimas. Como sair do buraco, não sei. Mas sairemos”, pontua.

Qual é o papel da religião em Longe do paraíso e na nossa vivência atual? O filme traceja alguma ponte?
O cenário do filme é o universo rural do Brasil, a nossa grave situação agrária, a disputa pela terra entre agricultores e grandes empresas agropecuárias, a disputa desigual pelo mercado entre a agricultura familiar e a agricultura industrial, a violência enorme desse conflito, o número impressionante de líderes camponeses assassinados todas as semanas. No filme, pesa a história inspirada no mito bíblico de Caim e Abel, o pastor e o agricultor. Quanto à religião em si, na atualidade, parece-me que está vivenciando uma exorbitância medieval. Em muitos aspectos, também na relação com o poder político. Inclusive com relação à qualidade dos sacerdotes, muitos deles metidos em falcatruas, corrupção, delitos sexuais. Esse é um assunto sumamente importante na crise civilizatória, humanitária, sanitária, psicossocial e econômica que vivemos.

A simplicidade é sempre o caminho mais poderoso no construir fílmico?
A simplicidade é uma estratégia para conquistar o interesse do espectador. A maioria dos cineastas busca a simplicidade e, às vezes, não é fácil. Do meu ponto de vista, o aspecto mais importante é a síntese. O cinema, com sua linguagem de sonho, é uma arte sintética, maneja apenas duas intervenções: com o tempo real e com a elipse. Ou seja, o tempo corrido e saltos nesse tempo. O que extrapolava no roteiro de Longe do paraíso era o não essencial na narrativa. Creio que isso foi controlado na realização do filme. As informações vão sendo passadas com economia de meios e de floreios, de enfeites. O que tentei foi elevar as circunstâncias narrativas a um nível de emoção pura, sempre na fronteira da paixão, sempre na iminência da morte. Trata-se de uma tragédia.

Acredita que um artista sempre imprime ideologia nas obras?
Imprimir ideologia nos filmes depende de que acepção dessa palavra estamos usando: como um conjunto de ideias, de visões de mundo relacionadas a ações sociais e políticas; ou como ferramenta de convencimento, de persuasão, de dogma, de determinação a ser obedecida pelos outros. Se estamos nos referindo à primeira acepção, creio que os cineastas, sim, imprimem ideologia em suas obras naturalmente. Quanto aos dogmas, são poucos os artistas que os adotam. Arte e dogma são conflitantes.

Há isenção na tua arte?
A isenção não existe no cinema. Nem na ficção, nem no documentário. O que os cineastas mostram ao mundo é a sua verdade pessoal, o que acreditam individualmente. Verdade ou crença que podem ser coincidentes em outras pessoas ou não. O próprio conceito de verdade está cada vez mais complicado em termos de coletividade. Cada vez mais, a verdade está com o indivíduo. Segundo os Evangelhos, essa pergunta foi feita a Jesus: o que é a verdade? Ele respondeu: “A verdade sou eu”. Eu destilo em meus filmes e meus livros é a minha vontade de melhorar a humanidade, de mudar o mundo.

Como é ser o diretor da única ficção em longa a concorrer?
Longe do paraíso é meu único filme, como diretor, que é ficção pura. Escrevi livros de ficção, até de ficção científica, escrevi muitos roteiros de ficção, filmados por outras pessoas. Mas, como diretor, é a primeira vez que não mesclo a ficção com a realidade, o argumental com o documental. Sempre fiz docfic. Para mim, o universo do cinema é sempre dual e assim deve ser, para que fique mais próximo da vida humana, que é pura dualidade. Em Longe do paraíso fiz diferente, queria experimentar a sensação. Estar, com um filme de ficção, entre documentaristas da mostra oficial do Festival de Brasília, foi uma surpresa, mas também uma reafirmação da minha dupla visão da vida e da arte. Um filme é cinema, e ponto, a arte (tecnológica) mais psicopenetrante que o engenho humano já inventou. Uma peça é teatro, e ponto; a arte imortal, sempre o eu e o outro, o eu e o você.

Como tens vivenciado o cotidiano com a pandemia?
Com paciência, quarentena e atividade intelectual. Estou escrevendo, pensando em novos projetos, fazendo exercícios de futurismo com relação a que tipo de cinema vai aparecer depois da pandemia, como vai se desenvolver a comunicação e a arte on-line. Acabo de ministrar minha primeira oficina on-line, a Griô Cibernético, sobre criação de narrativas contemporâneas. Com minha produtora e querida amiga Solange Souza Lima Moraes, estamos tentando armar a realização de um novo filme. Com a ameaça do fascismo sobre nossas cabeças, o que os artistas e intelectuais devem fazer é lutar produzindo arte engajada e de alta qualidade e expandindo nossa cultura.

ASSISTA
O Festival de Brasília ocorre de maneira virtual. Longe do paraíso será transmitido hoje (16/12), às 23h, no Canal Brasil. Confira a programação completa.

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