MÚSICA

Amaro Freitas lança o álbum "Sankofa" reverenciando sua ancestralidade

O Correio conversou com um dos maiores artistas da cena jazzística nacional e internacional, o pernambucano Amaro Freitas, que comemora o reconhecimento do seu terceiro álbum

Irlam Rocha Lima
postado em 07/07/2021 06:00
Amaro Freitas reconhece sua trajetória de esforço, mas reflete sobre quantos artistas o Brasil não teria com mais projeção se existissem mais oportunidades -  (crédito: Far Out Recordings/Reproducao)
Amaro Freitas reconhece sua trajetória de esforço, mas reflete sobre quantos artistas o Brasil não teria com mais projeção se existissem mais oportunidades - (crédito: Far Out Recordings/Reproducao)

No segundo semestre de 2019, quando esteve em Nova York para uma apresentação no Lincoln Center, Amaro Freitas foi ao Harlem, bairro norte-americano que é uma das referências do jazz. Lá, em uma feira, adquiriu uma bata com a estampa de sankofa, um símbolo ideográfico representando um pássaro com o pescoço voltado para as costas. Trata-se de um ícone adinkra — conjunto de códigos dos povos Acã, da África Ocidental, cuja cultura pictográfica é muito usada em tecidos, cerâmicas e gravuras — que faz o convite de retorno ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro.

Esse encontro definiu as bases conceituais do novo trabalho de Amaro e está presente em seu álbum: Sankofa. A referência direta dá o título ao terceiro disco do jovem pianista e compositor pernambucano, que saiu da periferia para tornar-se um dos mais aclamados jazzistas da atualidade, tanto no Brasil quanto no exterior.

Ao lado de Hugo Medeiros, na bateria e percussão, do contrabaixista Jean Elton e com mixagem de Vinicius Aquino, Amaro levou três anos para gravar o álbum, do qual também é o produtor, e buscou valorizar sua história como homem negro e sua ancestralidade. Nas composições, o artista promove a junção de ritmos nordestinos como baião, frevo e coco com o jazz. Uma mistura perceptível em Baquaqua — primeiro single — e nas faixas Ayeye, Cazumba e Nascimento. Ao todo, são oito músicas lançadas pelo selo Natura Musical. Nascimento é uma homenagem a Milton Nascimento, com quem ele participou da gravação de Existe amor, EP do paulistano Criolo.

A trajetória musical de Amaro Freitas iniciou com sua participação como tecladista do grupo de uma igreja no bairro pobre de Nova Descoberta, em Recife. Na época, o jovem descobriu o jazz após ganhar um DVD do festejado jazzista Chik Corea e chegou a matricular-se no conservatório, mas não seguiu, porque a família não tinha dinheiro para pagar pelas aulas, ainda assim, Amaro não parou. Em 2016, lançou Sangue negro, seu CD de estreia e, um ano depois, o Rpsif, já como contratado do selo norte-americano Far Out. O pianista tem marcado presença em importantes festivais de jazz no Brasil e no exterior. Ao Correio, o instrumentista relembra o passado que buscou ressignificar.

O que levou o tecladista da banda musical de uma igreja evangélica da periferia de Recife a enveredar pelo universo do jazz?
Quando percebi que preferia estudar teclado em vez de jogar bola, subir uma pipa ou qualquer brincadeira infantil, eu ali descobri o que queria ser da minha vida. E era ser um músico. Eu tinha mais ou menos 12 anos de idade. Quando entrei na universidade tinha dúvida entre fazer bacharelado de piano na Universidade Federal de Pernambuco ou produção fonográfica no centro universitário Aeso Barros Melo. Tomei a decisão de fazer Produção Fonográfica, porque, para mim, não tinha lógica estudar piano erudito do século dezessete tendo uma escola tão rica de música nordestina.

Ter acesso a um DVD de Chick Corea foi determinante para sua decisão dese tornar um profissional da música?
Ter ganhado esse DVD aos meus 15 anos mudou toda minha percepção sobre a música. Até então, eu tinha contato apenas com a música da igreja, que tem como seu principal pilar o lirismo. Quando eu descobri o jazz através do Chick Corea, percebi que ali tinha libertação, várias possibilidades e mundos diferentes, onde o sentir e improvisar são os principais pilares. Acredito que esse foi o ponto de partida que me fez enveredar pelo universo do jazz.

A acolhida que Sangue negro, o disco de estreia, recebeu do público e da crítica lhe surpreendeu?
Na época, eu me surpreendi, mas hoje entendo que o disco teve toda sua repercussão pela excelência de tudo. Respeitamos o processo criativo das músicas, gravamos no melhor estúdio do estado, com músicos de altíssimo nível e todo um cuidado na finalização do trabalho. Sempre agradeço, porque sinto que tenho tido a sorte de trabalhar com pessoas muito focadas e inteligentes, e isso também fez com que o trabalho crescesse de forma sólida.

Que importância teve o fato de Rasif, o segundo álbum, ter sido lançado pelo selo inglês Far Out?
Sangue Negro trouxe uma parceria que foi muito importante para mim: meu empresário, Laércio Costa. Ele veio focado nos nossos planejamentos e através dele fechamos com o selo Far Out. A Far Out é um colaborador muito importante para nós, além do excelente trabalho como selo que eles fazem, compartilham muito da mesma visão de mundo e de música que nós temos. Mas bem, para que você tenha uma repercussão boa o trabalho tem que ser bom, o Rasif nasceu um grande disco e isso é muito importante para distribuição internacional. E a Far Out, por sua vez, tem um trabalho belíssimo de distribuição, ampliou a nossa projeção no mundo.

Como avalia o fato de ser tratado como um astro da cena jazzística nacional e internacional ao lançar Sankofa, o terceiro álbum?
Acredito que minha trajetória prova que é possível chegar aonde quisermos. Eu dei muito duro, mas também dei muita sorte em minha caminhada até aqui, de encontrar pessoas muito sérias e muito inteligentes. Estamos muito alinhados nas ideias, e isso faz com que o projeto cresça de forma saudável. Fico pensando quantos Amaros poderiam chegar aonde estou se o nosso país fosse mais comprometido com o seu povo. Se tivéssemos mais condições, uma boa educação, um projeto sustentável com oportunidades de crescimento.

As composições desse novo trabalho foram feitas em que período e o que levou a criá-las?
Há mais ou menos três anos estamos no processo de Sankofa. O disco retrata a história da minha ancestralidade e muitas e muitas histórias foram chegando até mim, desde pessoas, objetos, lugares ou símbolos. Recebi muitas dessas histórias relacionadas à ancestralidade. Encontrar o símbolo sankofa em uma bata em Nova Iorque foi o último sinal para construção desse trabalho. Entre viagens e shows, eu e meu trio estávamos sempre ensaiando e trazendo essas percepções da vida para o nosso som. E tudo que passamos juntos e todos os lugares a que fomos nos deu uma visão de mundo ainda mais diferente da que tínhamos e isso foi muito enriquecedor para o resultado final.

Como você lida com o preconceito racial que se manifesta tanto no país quanto no exterior? Já foi alvo de algo semelhante?
Eu já sofri preconceito, claro. No Brasil não tem um negro que não tenha sofrido preconceito. Acredito que existam várias formas de lidar com esta doença. A forma que escolhi foi responder com a arte, ela é muito poderosa e revolucionária, e a minha intelectualidade ninguém pode tirar. A revolta nos faz querer quebrar tudo por tantas injustiças, mas minha arma é a minha felicidade. Olhar pra tudo isso e dizer: nós sobrevivemos há mais de 500 anos com toda nossa história negada. Nossa força vem do sentir e a nossa conexão ancestral vem de muitos ventos. Não vão conseguir nos derrubar, esse projeto vai cair por terra.

Qual é a sua avaliação para o tratamento dispensado à cultura pelos órgãos governamentais, atualmente?
Sabemos que qualquer que seja opressor nunca vai ser aliado à cultura. A arte tem a capacidade de quebrar o coração de pedra do ser humano.Isso me faz refletir sobre um depoimento do Geraldo Azevedo relatando o quanto sofreu no período da ditadura. Quando foi preso e foi confundido com uma outra pessoa, o separaram do violão na cela, ele foi torturado e tudo mais. Depois de alguns dias perceberam que não era ele e devolveram o violão, mas não o libertaram. Quando Geraldo começou a tocar,eis que a música lembrava a infância de alguns guardas, então eles começaram a chorar e pediam para Geraldo tocar mais e mais, Geraldo tava achando tudo aquilo muito louco. De repente, os guardas outrora ameaçadores estavam ali, absolutamente emotivos. O poder da arte é indomável. É uma arma potente que está atrelada à diversidade e a liberdade, e esta não é a meta deste governo atual. Temos que estar atentos para as próximas eleições.

 

Tempos idos no presente

Cem anos antes de Cristo nascer, Cícero já ensinava que a vida dos mortos é colocada na memória dos vivos. Essa ancestralidade é o que define o caráter e a personalidade de cada um, em maior ou menor grau; e o pianista pernambucano Amaro Freitas explora esse passado para fazer uma correção musical na história do Brasil em seu novo disco, Sankofa, criando 45 minutos de música, dividida em oito faixas.

Sankofa é um ícone senegalês que mostra que olhar para trás é tão importante quanto seguir em frente. E é com uma fluidez impressionante que Freitas cria peças que se encaixam para formar um painel em que une histórias de personalidades e fatos que o Brasil esqueceu – ou nunca soube. É o caso de Tereza de Benguela, líder de uma comunidade antiescravagista em Mato Grosso, que é retratada com suavidade no tema Vila Bela.

Na empreitada, Freitas explora ritmos entre o maracatu e o samba de roda na cacofônica Batucada, linhas melódicas na explicita homenagem a (Milton) Nascimento e climas de escalas curtas na faixa título. Em Ayeye, Freitas e grupo fazem uma espécie de síntese da proposta desse belo (e algo provocante) disco.

 

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