MÚSICA

Guilherme Arantes celebra passagem dos 50 anos de carreira com novo disco

Lançamento do álbum 'A desordem dos templários' marca os 50 anos de trabalho do artista e é o 25º título de sua obra fonográfica marcada pelo romantismo

Irlam Rocha Lima
postado em 15/09/2021 06:00
Guilherme Arantes: legado construído lentamente, ano a ano -  (crédito: Luzo Reis/Divulgação)
Guilherme Arantes: legado construído lentamente, ano a ano - (crédito: Luzo Reis/Divulgação)

Ao celebrar 50 anos de trajetória artística, Guilherme Arantes, precursor do pop romântico no Brasil, mantém-se em plena atividade. Radicado na Europa, o cantor e compositor paulistano acaba de lançar A desordem dos templários, o 25º título de sua obra fonográfica. 

Quando, em 2019, deixou o litoral baiano, onde criou a ONG Planeta Água, e se instalou em Ávila, na Espanha, o intuito era estudar música barroca. Cercado de castelos medievais, viu surgir a inspiração para criar as 10 canções, gravadas remotamente com a participação de músicos no Brasil e registradas no novo álbum que saiu em formato físico e está disponível nas plataformas digitais.

Fiel ao seu estilo, mas exibindo claro aprimoramento enquanto compositor e letrista, é autor de clássicos como Mundo e nada mais, Cheia de charme, Coisas do Brasil e Um dia, um adeus. Criou para o CD baladas melodiosas de textos sofisticados, a exemplo de A cordilheira, A razão maior e Nossa imensidão a dois.

Destacam-se, também, esboços de rock progressivo, gênero que marcou o início da carreira do jovem músico, como líder da banda Moto Perpétuo, representado por El rastro e Nenhum sinal de sol e, claro, A desordem dos templários. Chama a atenção, ainda, Estrela mãe, que Arantes compôs para a mãe, a quem tinha como referência, morta recentemente.

Em entrevista ao Correio, Guilherme Arantes se deteve, de forma reflexiva, em aspectos e momentos de sua carreira. Ao criticar os responsáveis pela crise hídrica que se espalha pelo país, lembrou que, quando compôs Planeta água, outro dos seus clássicos, cantava a abundância e não a carência.

» Entrevista Guilherme Arantes

Do início com a banda Moto Perpétuo ao recém-lançado álbum A desordem dos templários, que avaliação faz de sua trajetória artística?

Sou um privilegiado, por ter atravessado tantas décadas tão heterogêneas e dinâmicas, construindo vários tipos de valores agregados... Não é apenas falar de “sucesso” porque essa palavra em si é vazia, é enganadora, é uma construção algébrica de aquisição de meras quantidades, e obviamente, o meu caso, como de vários da nossa geração, é muito mais de durabilidade no significado. Isso é imensurável, tem um valor muito mais complexo para se avaliar.

Celebrar 50 anos de carreira que representatividade tem para você?

Então, é essa completude, essa abrangência que fazem a trajetória da gente ser uma visão bela: olhar em retrospecto e enxergar virtude do amor pelo que se faz na vida, neste mundo, o legado que se constrói ano a ano. É muito mais do que o circunstancial. É uma coerência deliciosa de se saborear.

A década de 1980 pode ser vista como a de maior relevância do seu trabalho?

Relevância comercial, sim, porque a indústria cultural estabelece como auge o período de fertilidade biológica, o conceito de “juventude”, mas isso é enganoso. Relevância mesmo, geralmente, é conquistada bem mais tarde, já na maturidade ou até na terceira idade. Quando se é jovem, o mundo nos dá a fama e a popularidade do desejo, da atração física, que é o nível imagético sexual do carisma na sociedade. Há exceções nisso, há jovens que já “vêm de fábrica” com um carisma amadurecido: Cazuza, Chico, Renato Russo, Chorão, Cassia Eller são alguns exemplos disso... No meu caso, essa “relevância” foi mesmo muito trabalhosa.

Entre os muitos hits que você emplacou, há os que são mais apreciados e por quê?

Existiram épocas muito mais generosas na construção disso que chamamos de hits... Os anos 1950, 1960, 1970, 1980... eram mais abrangentes, não eram tão segmentados. Com o desenvolvimento massivo das tecnologias, as décadas vieram sucessivamente dilapidando, demolindo essa capacidade de contágio, e os hits foram se tornando corriqueiros na indústria cultural, esse é um problema mundial. É como se nada mais fosse grande novidade no mundo.

Como o autor da canção Planeta água, de temática ecológica, vê a crise hídrica que os brasileiros estão enfrentando?

Pois é, e pensar que eu cantava a abundância, e não a carência ... Há fatores climáticos sazonais em grande escala também: não é exclusivamente responsabilidade humana nesse fenômeno. O Brasil tem na água o seu elemento-chave, até espiritual. Espero que o país ainda consiga construir uma estrutura melhor, mais robusta, de engenharia hídrica, não apenas no imediatismo do mero extrativismo da irrigação ou geração energética, mas algo muito maior, de planificação geopolítica: a água é um recurso estratégico em todo o mundo, sempre foi, e sempre será.

A ONG Planeta Água, no litoral baiano, continua em funcionamento, mesmo com a sua ausência, já que está radicado na Espanha?

No momento, estamos parados. Há questões sóciopolíticas muito graves envolvendo aquela região da foz do sistema Jacuípe/Capivara Grande. Na minha volta, para o ano, vamos ver o que dá para se fazer. Por hora, estamos todos, aliás, como tudo no Brasil, em compasso de emergência, esse é o termo mais adequado que eu encontro para o momento…

O seu novo disco traz canções na linha pop romântico — sua marca registrada — , mas também esboço de rock progressivo. Foi uma volta ao começo?

Sim, foi uma retomada deliciosa para mim, em forma de delírios de um “coroa” repleto de reminiscências... Uma viagem muito pessoal... E que me deixa muito feliz ao realizar…

Vivenciou qual o sentimento ao compor Estrela-mãe, uma das faixas do CD, em que reverência a pessoa mais importante da sua vida?

Ah... foi um privilégio enorme conseguir dar forma a essa gratidão, em versos de pura entrega, e ainda ter sido ouvido por ela. Eu tentei me esmerar ao máximo na beleza dessa entrega, essa declaração de amor incondicional, bem coisa de filho querendo retribuir à mãe... Eu ia compondo, e ia chorando, isso foi fundamental nessa música.

Que expectativa tem, em relação ao mercado, quando lança um disco?

O olhar não fica mais tão voltado para coisas que já ficaram relativizadas com o tempo, tais como vendas, quantidades de views, número de seguidores, listas de mais tocadas... A gente fica muito mais de olho na qualidade dos sentimentos que as músicas são capazes de provocar nas vidas das pessoas.

“E pensar que eu cantava a abundância,
e não a carência. O Brasil tem na água o
seu elemento-chave, até espiritual”

“Sou um privilegiado por ter atravessado
tantas décadas tão heterogêneas e dinâmicas,
construindo vários tipos de valores agregados”

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