Filme local

Cinema brasiliense ganha reforço com filmagens de 'O socorro não virá'

Com um orçamento de R$ 2 milhões, produção do longa de ficção científica, dirigido por Cibele Amaral, precisou se adaptar às restrições impostas pela pandemia de covid-19

Ricardo Daehn
postado em 26/11/2021 06:00
Equipe do filme O socorro não virá, da diretora Cibele Amaral (à esquerda). -  (crédito: Fotos: Renato Mori/Divulgação)
Equipe do filme O socorro não virá, da diretora Cibele Amaral (à esquerda). - (crédito: Fotos: Renato Mori/Divulgação)

Com filmagens em meio à realidade da covid-19, o longa-metragem brasiliense O socorro não virá desembocou em extremos cuidados. “A regra era: 'Só entra no set quem tiver resultado negativo'. Tivemos alguns casos de figurantes com sinal de gripe, por exemplo, e, logo, buscávamos substituições. Testávamos a equipe, pelo menos, a cada sete dias”, observa o produtor Patrick de Jongh. “Nunca imaginei que filmaria esse roteiro usando máscara, fazendo teste na equipe e elenco. Comecei a escrever essa história tem mais de uma década e ela fala sobre um mundo futuro, hipotético, em que os seres humanos, para vencer os problemas ambientais, decidem se fixar em comunidades que não viajam mais”, conta a diretora do longa Cibele Amaral.

O orçamento do novo longa, com filmagens recém-encerradas, é próximo a R$ 2 milhões, num casamento entre valores do Fundo de Apoio à Cultura e recursos próprios. Quase 75 profissionais integraram a equipe fixa do longa, mas houve emprego de mais de 600 pessoas em áreas diversificadas, saídas de diferenciadas regiões administrativas do DF. “É o primeiro longa da minha carreira que tem um sotaque candango forte! Metade das locações fazem parte da Film Commission. Não são lugares óbvios, mas fazem parte desse universo niemeiriano, cheios de vazios, de curvas, de espaços. Além disso, o elenco é 90% candango. E é um elenco local superconhecido com veteranos como Chico Santana e Sérgio Fidalgo, além dos humoristas Jovane Nunes e Rodolfo Cordon”, conta Cibele.

Plano Piloto, Paranoá, Samambaia, Lago Sul, Santa Maria e Água Fria de Goiás (GO) estão entre localidades a serem vistas na telona. Houve cenas numa pedreira, no Espaço Cultural Renato Russo e na Torre Digital. “Mais do que um filme metalinguístico, é um filme sobre conflitos humanos. Fala sobre narcisismo. Fala sobre crescer e desapegar. Enxergar o outro”, adianta Patrick de Jongh. Na trama, André (Claudio Heinrich) é um ator requisitado pelo publicitário e aspirante a cineasta Arthur (Fabio Rabin), que pretende investir no campo da ficção científica, com o apoio da produtora de cinema Míriam (Criss Paiva), personagem que torna a comédia bem feminista.

“Amo Brasília, e venho pra cá há quase 20 anos. Sempre achei a cidade linda, adoro andar por aqui, reconhecendo lugares citados nas músicas que cantava na adolescência. Tenho gratidão imensa pelos momentos intensos que vivi nas filmagens. Não poderia ter cidade melhor pra realizar esse sonho de fazer cinema”, observa a atriz Criss Paiva, estreante na sétima arte, depois de tomar parte de show de stand-up comedy e de atuar em teatro, rádio e tevê. Criss entrou no projeto, ao lado de Fabio Rabin, a partir de uma ponte feita com Rafael Cortez.

Nas telas, Criss Paiva viverá Miriam, uma produtora de cinema que demora a perceber a própria força. “Ela vive guiada pelo pensamento feminista. Mas nota conflito, ao colocar em prática o discurso de mulher livre. Uma boa amiga e profissional, Míriam expõe sabedoria, ao mostrar que a força feminina vai muito além da liberdade sexual”, comenta Criss. A diretora Cibele Amaral se adianta em completar: “Esse filme fala sobre o narcisismo intelectual dos artistas. É uma crítica. Tem muita gente que coloca sua obra acima de qualquer coisa. Eu sou uma humanista: o ser humano vem no centro da minha vida. Não creio que nenhuma obra valha o sacrifício da família e dos relacionamentos em geral”.

A dedicação total de Claudio Heinrich, no papel duplo de André e de Platane (um personagem acoplado à trama do filme desenvolvido dentro do enredo), veio no ritmo do cinema: há cada quatro horas, por exemplo, havia a rodagem de uma só cena, tamanho o grau de detalhes exigidos. “O cinema traz o diferencial de ser eterno, então tem que se ter um cuidado máximo”, conta o ator que imprimiu um tom naturalista para o personagem, ainda que o filme se desenvolva num plano futurista. Heinrich foi um dos que se surpreendeu com o resultado das locações estudadas desde fevereiro para o filme. Nos papéis desenvolvidos, ele circulou pela aldeia indígena futurista e ainda habitou uma casa subterrânea.

Afinidade

Mesmo frente à situação “nova e preocupante”, com a pandemia, o ator Fabio Rabin, destacado na trama de O socorro não virá para interpretar um cineasta, sentiu a sintonia da equipe. “Todos ali estavam muito gratos e felizes por estarem trabalhando, depois de um longo tempo de pausa e de todas as dificuldades em se fazer cultura no nosso país”, comenta o artista. Para minha surpresa da diretora e roteirista Cibele Amaral, o enredo do longa, criado há mais de 10 anos, ficou “bem mais próxima do real” do que gostaria. Uma das coincidências com o atual universo da pandemia está nas restrições das viagens, que, no filme, passam a ser apenas virtuais. “O mundo virtual e o real se confundem tanto que já nem é mais possível saber se alguém existe de verdade”, adianta a diretora, ao falar do enredo.

Misturar dois tipos de cenários, o do mundo real e o da ficção científica, esteve entre as missões da equipe. “Teremos a Brasília de dentro. Até filmamos em alguns monumentos, mas no interior deles — isso dá uma perspectiva diferente. É uma visão que trata a arquitetura da cidade de uma forma menos expositiva, e mais intima”, observa o produtor e diretor de segunda unidade Patrick de Jongh.


Duas perguntas // André Deca


Qual a identidade do cinema local?

Eu acho que estamos em busca de uma identidade. Acho que Brasília é uma cidade nova com cineastas em formação e que estão em busca de uma identidade também. Muitos deles trabalham com linguagens, narrativas e abordagens bem ecléticas e interessantes. Acho que a função do cinema além do entreter tem a função de criticar, provocar reflexões, propagar representatividade e isso vem acontecendo. Participei de mais de 40 produções brasilienses desde 1998 pra cá.


Teu humor foi escancarado no filme O socorro não virá?

Acredito que não, pelo menos eu não busquei isso nesse filme. Eu faço um herói de ficção científica e procurei fazer com verdade as cenas, o que pode ficar bem engraçado. Ah — mas fiz um outro personagem que esse sim está escancaradamente engraçado.

  • André Deca, ator
    André Deca, ator Foto: Arquivo pessoal
  • A diretora Cibele Amaral, ao lado do produtor Patrick de Jongh
    A diretora Cibele Amaral, ao lado do produtor Patrick de Jongh Foto: Renato Mori/Divulgação
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