Cinema

Nova era dos super-heróis aposta no multiverso para desdobrar as histórias

"Doutor Estranho e o multiverso da loucura" estreia hoje e o Correio explica os conceitos da inovação técnica que envolvem o filme

Pedro Almeida* Pedro Ibarra
postado em 05/05/2022 00:01 / atualizado em 05/05/2022 11:16
A Feiticeira Escarlate tem papel importante -  (crédito:  Fotos: Marvel Studios/Divulgação)
A Feiticeira Escarlate tem papel importante - (crédito: Fotos: Marvel Studios/Divulgação)

Um dos principais lançamentos de 2022 e para o futuro da Marvel, Doutor Estranho no multiverso da loucura é a estreia da semana nos cinemas. O filme é a aposta do estúdio para uma nova fase dos super-heróis da produtora nos cinemas. O longa é o segundo do personagem, vivido por Benedict Cumberbatch, e vai mostrar as consequências diretas de Homem-Aranha: sem volta para casa.

Pode-se esperar um pouco mais de ousadia da franquia. Sam Raimi, conhecido pela primeira trilogia do Homem-Aranha com Tobey Maguire, foi o responsável pela direção e, apesar de ser familiarizado com o cinema de heróis, usou referências do cinema de terror para o novo longa. “Estou muito feliz que o filme tenha um tom mais obscuro. Francamente, o primeiro longa tinha também, quando você pensa na agitação que ele experimentou e que testou o personagem”, avalia Benedict Cumberbatch em entrevista da Disney cedida ao Correio.

  • Doutor Estranho no Multiverso da Loucura Marvel Studios/Divulgação
  • A Feiticeira Escarlate tem papel importante Fotos: Marvel Studios/Divulgação
  • O filme terá mais de um Doutor Estranho Marvel Studios/Divulgação
  • O longa apresenta a personagem América Chavez Marvel Studios/Divulgação

A produção apresenta Stephen Strange fora do posto de mago supremo, tendo que lidar com o fato de que abriu as portas do multiverso, ou seja, criou pontes para que personagens de outras realidades paralelas entrassem no Universo Cinematográfico Marvel. “É uma empolgação imensurável ser o piloto de testes para todas essas coisas do multiverso”, afirma o protagonista. “Isso porque eu não sou o único. Obviamente, os personagens dançaram com o conceito anteriormente, seja com o reino quântico em Homem-Formiga, seja com as coisas que aconteceram em Vingadores ultimato, ou com tudo que experimentamos em Homem-aranha: sem volta para casa. Porém, sim, o sentimento é que esse filme vai nos jogar completamente no multiverso”, complementa o ator.

O fato de lidar com o multiverso movimenta muito os fãs da Marvel, já que estão confirmados no filme personagens que já fizeram parte de outros momentos do cinema, como o Professor Xavier de Patrick Stewart, e outros que nunca nem apareceram nos cinemas, como o Doutor Estranho sombrio e a Capitã Carter, versão feminina do Capitão América, apresentada no seriado de animação What if?.. e vivida por Hayley Atwell, a mesma atriz responsável pela Agente Carter, Wanda Maximoff, de Elizabeth Olsen, outra presença confirmada. A opção de ter um multiverso aumenta, e muito, as possibilidades para a Marvel, que vê uma nova fase muito mais expansiva pela frente.

O que é o multiverso?

Na vida, o peso das decisões se dá pelo quão irreversíveis elas serão. É preciso pensar bem antes de dar um passo que não poderá ser desfeito. Para os autores e roteiristas, o fardo se estende aos personagens.  O autor das aventuras do Homem-Aranha pode escrever sobre a passagem do jovem Peter Parker da escola para a faculdade ou sobre o tão esperado casamento com Mary Jane. Essas decisões, porém, implicam na impossibilidade de ver mais das peripécias escolares de Peter. O tempo é implacável até mesmo para a ficção. Uma outra forma de encarar esse problema é ignorar por completo a existência da continuidade do tempo. O célebre gibi brasileiro da Turma da Mônica é famoso por optar por este caminho. A turminha permanece com 7 anos há, pelo menos, seis décadas. E isso gera o problema oposto. Estacionar no tempo pode desgastar as narrativas e gerar uma ânsia por ver outras fases das personagens.

Os autores passaram a buscar recursos para contornar este problema. Nas histórias em quadrinhos de super-heróis, uma ideia se destacou. Entre o fim dos anos 1950 e início dos anos 1960, o multiverso surgia nas páginas dos gibis. O conceito propõe que o nosso universo é apenas um dentro de uma infinidade de universos. Desta forma, os personagens ganham infinitas versões para serem exploradas pelos escritores. O Peter Parker pode, enfim, se aposentar em paz, pois, em outra Terra, há um novo Peter que acaba de ser picado pela aranha radioativa para se tornar um novo Homem-Aranha. As possibilidades geradas pelo multiverso foram exploradas de forma extensiva desde que o conceito foi apresentado, em 1959, em uma história da Mulher-Maravilha. Desde embates e alianças entre versões de um mesmo personagem a guerras épicas entre universos inteiros. Agora, o multiverso se expande na cultura pop. Dos aclamados filmes da Marvel à série Riverdale, passando pelos clássicos Doctor Who e Star Trek, os mundos fictícios querem se multiplicar.

Load, youtuber no canal Load Comics e especialista em quadrinhos, comenta sobre um enredo marcante que envolve o multiverso: “Se for falar de uma [história] que me marcou, não tem como não dizer que foi Crise nas Infinitas Terras. Quando eu li isso pela primeira vez, foi surreal. A DC soube fazer muitos leitores chorarem e vibrarem com todo esse arco que mudou muita coisa na cronologia dos personagens e deu importância a outros personagens também”. O produtor de conteúdo também comenta sobre o surgimento do conceito nos filmes da Marvel: “Pode colocar a Marvel em um próximo nível. Tivemos um gostinho do multiverso com Homem-Aranha: sem volta para casa com os Aranhas antigos, isso mostrou como os fãs adoram essa nostalgia de trazer atores de franquias antigas de volta, como se fosse uma segunda chance. Acho que a Marvel tem a possibilidade de fazer algo bem legal com os filmes e ampliar esse universo cada vez mais”. O influencer, porém, aponta uma preocupação: “O complicado é que, assim como nos quadrinhos, uma hora isso pode trazer um problema de cronologia e uma parcela da galera não estar a fim de ver tantos filmes e séries pra entender esse universo que foi construído com 10 anos de cinema”.

É loucura?

Adriano Leonês, professor de ciência e astronomia da Universidade de Brasília (UnB) traz a visão científica sobre o assunto.

Entrevista//Adriano Leonês

Como o multiverso é definido pela ciência?

Multiverso, do ponto de vista físico, é um conjunto hipotético de universos possíveis. Essencialmente, você tem outros universos além do universo que conhecemos, que existe e que estudamos e esses universos coexistem entre si. O conceito de multiverso sugere que existem outros universos que não necessariamente têm as características que o nosso possui, com as próprias leis, próprio espaço e própria matéria; ou pode ser que não tenha nada disso.

Quais são os estudos sendo feitos na área?

Há estudos relacionados às ondas gravitacionais. Existe um trabalho postulado por Hawking e Hertog sobre a existência de um multiverso. Eles teorizam missões espaciais para uma outra realidade por meio de buracos negros. Estudar os materiais dos buracos de minhoca pode ajudar os cientistas a encontrarem algum tipo de indício de que possa haver a existência de uma extensão significativa da nossa noção de realidade física.

Como você vê a representação do multiverso nos filmes e séries?

A ficção científica ajuda bastante a ilustrar os conceitos que as ciências astronômica, cosmológica e a física tentam explicar de algum modo. Por exemplo, até 2019, a melhor representação de um buraco negro era a do filme Interestelar. Essas representações aproximam o que feito na academia, nas universidades, do grande público e também ajudam os acadêmicos a ilustrarem e encontrarem novos caminhos para desenvolver as próprias pesquisas.

*Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco

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