Cinema

De olho na solidão e no futuro

Ficção sobre efeitos dos remédios psiquiátricos e uma reflexão sobre as máquinas são atrações nas telas

Zanox, riscos e efeitos colaterais: a supressão da solidão? -  (crédito:  Salamandra Film/Divulgação)
Zanox, riscos e efeitos colaterais: a supressão da solidão? - (crédito: Salamandra Film/Divulgação)
postado em 21/01/2024 00:01 / atualizado em 22/01/2024 10:45

"Se eu pudesse viajar no tempo, daria algumas dicas ao jovem eu. Por exemplo, eu gostaria de alertá-lo que o negócio do cinema é muito mais difícil do que ele imagina", diverte-se o cineasta húngaro Benö Baranyi, em breve entrevista ao Correio. Para pavimentar a trajetória de jovens realizadores como Benö e o também bem-sucedido Ferenc Török, no passado, foram diretores como Miklós Jancsó e Márta Mészáros que abriram as cortinas para as exibições de filmes em caráter mundial. Fundamentais na formação dos estúdios em Hollywood, artistas húngaros, como Michael Curtiz brilharam ainda em produções internacionais que levaram à criação de clássicos como Casablanca. Sob apoio do FAC (Fundo de Apoio à Cultura), representantes do evento O Anjo Exterminador — Festival Internacional de Cinema Fantástico de Brasília puderam trazer a premiada realização de estreia em longas de Benö Baranyi, Zanox — Riscos e efeitos colaterais para uma exibição, com entrada franca, às 17h30 deste domingo (21/01), no Cine Brasília (EQS 106/107).

"Eu uso vitaminas, em vez de remédios, mas, claro, quando estou doente, obviamente apelo para a administração de remédios", comenta o húngaro, ao tratar da temática do filme a ser exibido na capital. Substâncias empregadas na psiquiatria geram uma discussão na fita. Sob ataques de pânico, o personagem Misi, em segredo, apaixonado pela colega Janka, assume os riscos de inesperados efeitos, ao se sujeitar a tratamento experimental. Pesquisador de teatro e cinema, o doutor Roberto Medina (UnB) estará na sessão para conduzir debate.

"Os medicamentos costumam ser muito úteis, mas, às vezes, os usamos em excesso. Drogas anti-ansiedade, antidepressivos mudam a estrutura do cérebro, então eu não os usaria, a menos que fosse muito justificado", comenta o diretor. Benö não crê que o personagem principal, Misi, esteja doente. "Sua ansiedade, seu mau humor são completamente justificados, porque logo no início do filme ele vive em péssimas condições. Sem contar com os pais, ele realmente não recebe nada de amor de ambos. Ele é criado por sua avó e não tem amigos de verdade ou namorada", destaca o diretor. A situação de medo se estende da solidão vivida. "Mas se ele ousasse se aproximar dela, o amor o ajudaria a sair da ansiedade e da depressão, sem medicação", completa.

Zanox — Riscos e efeitos colaterais ganha sessão alinhada à exibição da animação em curta-metragem que venceu a categoria de melhores efeitos visuais em festival da cidade francesa Clermont-Ferrand, As lágrimas do Sena. A fita é uma análise do movimento de trabalhadores argelinos que, em 1961, recorreram a protestos nas ruas, diante de obrigatório toque de recolher. A volta ao passado (junto com o avançar de eras) e a adoção de linguagens cinematográficas é algo que envolve o diretor do longa Benö Baranyi. "O desenvolvimento da tecnologia é incrível. Cada nova tecnologia pode ser uma inspiração para filmes. A grande vantagem da ficção científica é que você só precisa adicionar uma nova camada de tecnologia, e o mundo se vê virado de cabeça para baixo", aposta.

Mais tecnologia

Outra atração nos cinemas da cidade, a animação Meu amigo robô (no Espaço Itaú de Cinema, com sessão paga), já exibido em sessão especial do Festival de Cannes, valida as ideias do cineasta húngaro. Saída da obra Robot dreams (Sara Varon), a trama, a cargo do realizador espanhol Pablo Berger, destrinça, com elementos agridoces, a presença e os efeitos de um distanciamento (inesperado) entre dois inseparáveis amigos: o cachorro DOG e um robô (recheado de uma penca de sonhos).

Formado em cinema pela Universidade de Nova York, Berger, vale a lembrança, esteve em Brasília para a segunda edição do Brasília Internacional Film Festival (Biff). À época, defendia o longa competidor Blancanieves, estrelado por Ángela Molina e Maribel Verdú, e que, ambientado nos anos de 1920, recriava uma sombria versão silenciosa de Branca de Neve. Foi citando um provérbio ("Se tens pressa de chegar, percorra o caminho mais longo"), que Berger, adepto do artesanal e da falta de diálogos no novo longa de animação, explicou o rigor de sua expressão nas telas.

Melhor filme em mostra inserida no Annecy — Festival Internacional de Filmes de Animação e considerada a melhor animação no European Film Awards, Meu amigo robô abraça referências de musicais (entre os quais O mágico de Oz), dados que remetem ainda a Blade Runner — O caçador de androides e ao desconjuntado C3-PO (de Star Wars). Amizade, desespero, identidade, delírios e felicidade estão na soborosa trama disposta em Nova York, num filme emotivo, que contempla o uso de sucessos musicais como September (Earth, Wind & Fire) e Happy (William Bell), além de desviar do tradicional final feliz.

 

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