Crítica // Águias da República ★★★
Alguns dados pesam e trazem muita visibilidade para o thriller político (com irremediável tom cômico) Águias da República. Há dez anos, o cineasta do longa, Tarik Saleh, foi expulso do Egito administrado pelo tirânico Abdel Fattah el-Sisi, mantido mediante aparelhamento militar. Candidato pela Suécia, ao Oscar internacional — depois de selecionado para o Festival de Cannes, o filme retrata a escalada de bajulação em torno do ator George Fahrny (Fares Fares, presente em comédias como Jalla! Jalla! e Kopps), ao tempo em que ele é escolhido para interpretar um autocrata egípcio.
Há uma cena, em frente a uma maquete, que traz toda a futilidade e a suposta legitimidade de uma vida encenada e que sustente as autoridades de araque que pontuam o roteiro (a cargo do diretor e de Magdi Abdelhadi), algo humorado, apesar de assentado no suspense. Entre as deturpações da realidade, num jantar há quem defenda a tese de que Shakespeare teria nascido em Bagdá.
Discutível patriotismo, legiões de fãs (de George, o personagem) e muitas ações subterrâneas (a favor da estrutura tirânica) se misturam, num enredo que faz lembrar algo do premiado A vida dos outros (2006). Além dos problemas com o filho Ramy (Suhaib Nashwan) e das acrobacias com as amantes Donya (Lyna Khoudri) e Suzanne (Zineb Triki), George vê todo o seu domínio (diante da influência no pesado e estratégico contexto do audiovisual) ruir, num roteiro que cita indiretamente a setentista Guerra do Yom Kippur (que acirrou a crise do petróleo — num diálogo contemporâneo). Livramentos e constantes vigilâncias trazem os elementos mais tensos.
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