Crítica

Confira criítica do longa Se eu tivesse pernas, eu te chutaria

Com bela atuação de Rose Byrne e direção de Mary Bronstein, o longa retrata o caos da vida da personagem Linda

Rose Byrne, na pele de Linda, uma terapeuta à beira do colapso  -  (crédito: Divulgação )
Rose Byrne, na pele de Linda, uma terapeuta à beira do colapso - (crédito: Divulgação )

Crítica Se eu tivesse pernas, eu te chutaria // Quatro estrelas 

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Desfiando o padecer "no paraíso", diante da maternidade, a personagem Linda (a excepcional Rose Byrne) conhece pouco do aspecto divino. Ela, no cartaz do filme dirigido por Mary Bronstein, olha para cima, na esperança de encontrar conforto. O cartaz, por sinal, quase remete ao rosto da colombiana Catalina Sandino Moreno, em Maria cheia de graça, como a personagem grávida e rendida ao tráfico de drogas. Linda, ao mirar o céu, encontra um misterioso e intimidante buraco no teto do seu lar, cada vez mais corroído. O marido de Linda está distante; a filha, que muito demanda, presa à gastrostomia (com alimento administrado diretamente no estômago) e o mundo segue exigindo tudo de Linda, uma terapeuta nutrida pelo caos.

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A mente instável de uma mãe já foi retratada com precisão por Gena Rowlands, em Uma mulher sob influência (1974), que trouxe ações libertadoras, mas, aqui no filme sarcástico e pesado, a realidade, por demais assusta, num sombrio universo que conspira contra Linda. Há acúmulo de más experiências, e Mary Bronstein, formada na dramaturgia da Escola de Lee Strasberg (que forjou talentos de Al Pacino e Marlon Brando), sabe perfeitamente como retratá-las. Na dramaturgia, a cineasta lembra o bom momento de Jordan Peele com o macabro Não! Não olhe! (2022).

Depois de premiada no Festival de Berlim, Rose Byrne (lembrada por Vizinhos e Meu filho, nosso mundo) tem acumulado destaques no circuito independente de premiações, na temporada em que promove ainda arrastão pela premiação nas associações de críticos norte-americanos. Ela ainda está candidata ao posto de melhor atriz, no Globo de Ouro e no Critics Choice.

Sob direção de fotografia que faz do filme uma experiência de câmara (com Christopher Messina, de Bom comportamento, caprichando em tons avermelhados infernais), Rose imprime comprometimento para a exaurida mãe que lida com o rabugento e pouco acessível terapeuta (feito por Conan O'Brien) e insanos tipos, como Caroline (Danielle Macdonald), que abandona um bebê.

Sem trégua, é importante o som trabalhado por Filipe Messeder, pleno, no registro nas comilanças grotescas da personagem, nasequência que remente ao uterino (no mar) e a inominável cena do hamster. Mais de 15 anos depois do longa Yeast (feito com Greta Gerwig e os celebrados irmãos Safdie), Mary Bronstein comprova seu gritante talento.

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postado em 02/01/2026 14:11
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