ENTREVISTA

Luiz Caldas celebra carreira: 'Que haja amor para todos nós!'

Precursor do axé music, Luiz Caldas fala ao Correio se há uma nova geração do movimento cultural baiano e o porquê de ter retirado a música Fricote do repertório

Há 41 anos, Luiz Caldas estreava no mundo da música com o álbum Magia, que inclui Fricote, uma das faixas mais marcantes da década de 1980. Poucos meses após o fim da ditadura militar brasileira, o artista nascido em Feira de Santana, Bahia, não só deu início a uma carreira de sucesso, como, de quebra, se tornou responsável pelo "marco zero" do movimento cultural que viria a ser chamado de axé music. Intitulado "rei do axé" por nomes como Armandinho, filho de Osmar Macedo, o baiano segue conquistando novos públicos com o ritmo das percussões e do timbal.

Em 2023, por exemplo, Haja amor, um dos principais sucessos de Luiz Caldas, lançado em 1987, viralizou nas redes sociais após milhares de crianças e adolescentes publicarem vídeos coreografados ao som da música. "Eu acredito que tudo feito com verdade dá certo. Quando eu compus essa música, junto ao Chocolate da Bahia, nós pensamos em uma canção que tornasse as pessoas alegres e que espalhasse uma mensagem super positiva. Eu acho que daí se dá a longevidade dela ou a de qualquer outra obra", avalia o artista. 

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"Eu fiquei muito, mas muito feliz mesmo, quando a canção retornou com os mais jovens, com a geração Z, como nós costumamos chamar. E ficou maravilhoso, porque é uma faixa atemporal, que serve para os mais velhos e para os mais novos", acrescenta o compositor. "Que haja amor para todos nós!", exclama. 

Não só de sucessos do passado, porém, vive Luiz Caldas. De 2013 a 2023, o baiano tocou um projeto em que lançou um álbum por mês, todos disponibilizados gratuitamente nas plataformas digitais do cantor. Nos trabalhos, o compositor se aventurou em diferentes estilos e ritmos, do hip hop ao jazz e do rock à valsa. Neste ano, no entanto, a novidade chegou para o carnaval, com o lançamento de Piscadinha, música que remete às origens do cantor e, segundo ele, "nasceu com espírito de trio elétrico". 

"É uma composição que Roberta Miranda fez para mim há 10 anos, mas que ainda não tinha conseguido me mostrar. Quando eu a escutei pela primeira vez, há pouco tempo, achei a canção, logo de cara, maravilhosa, pelo fato de ter uma letra que eu considero inocente para os dias de hoje. A faixa une essa ingenuidade, com a beleza dos versos escritos por Roberta e a força da melodia. Eu achei incrível e gravei. Coloquei no meu estilo e ficou super legal para dançar", diz o cantor.

Outro lançamento recente de Luiz Caldas foi Injustiça climática, em parceria com Ricardo Marques, Ailton Krenak e Jonas Samaúma. Na faixa, os artistas cantam sobre a justiça ambiental, os direitos indígenas e a sustentabilidade. "Alertar é sempre necessário", declara o baiano. "Antes de nos vermos como brasileiros, os indígenas já estavam aqui, eram os representantes dessa nossa nação", defende.

"Além do mais, o clima está mudando de forma severa em todos os lugares, tudo isso passa pelas questões de sustentabilidade, e é muito importante que a gente alerte com as armas que tem, e a nossa arma é a música, a poesia e a arte. Sou muito feliz em ter participado desse projeto", afirma Luiz Caldas.

Entrevista // Luiz Caldas

Você sempre afirmou prezar pela liberdade criativa no seu trabalho. Foi essa autonomia que te permitiu ser o precursor de um movimento musical como o axé?

Um artista sem liberdade criativa vai ser só uma vitrola, um reprodutor de som, vamos dizer assim. É fundamental que você mantenha as rédeas do seu trabalho, e foi isso que me permitiu criar, mexer e brincar com tudo na minha carreira musical. Eu digo que foi a minha vida artística que fez com que nascesse o axé music, que é essa grande mistura de tudo. Então, para mim, foi fundamental ter liberdade criativa.

Hoje, o axé music faz sucesso nos quatro cantos do país. Como as outras regiões, à época, abraçaram esse movimento que representa tanto a Bahia?

O axé music faz sucesso desde que eu o iniciei, com o meu primeiro disco, que tem Fricote, uma das músicas mais tocadas de 1985 no Brasil. Então o país já tinha abraçado o axé junto comigo, algo que continuou no disco seguinte, Flor cigana, que vem com outras canções emblemáticas, como Haja amor, que cantam até hoje. O axé music é sinônimo de sucesso há muito tempo, no país todo, não só na Bahia. Não foi uma coisa que começou lá e depois foi para o mundo, não. Começou em Salvador comigo, sim, mas foi comigo para todo o Brasil. O Chacrinha, por exemplo, ajudou demais nesse processo de colocar a minha música para o país todo. E, logo depois, eu fiz o Festival de Montreux, na Suíça, em 1989, mesmo ano em que eu lancei Tieta. Então, o axé music vem fazendo sucesso há muito tempo, e é maravilhoso isso. O axé sempre foi abraçado pelo povo, não é uma coisa de agora.

O axé music surge pouco depois do fim da ditadura. O que esse movimento cultural representou para o povo brasileiro naquela época? Magia é, também, um disco político?

O disco Magia representa justamente o fim da ditadura, representa um sorriso na cara do brasileiro. Estava todo mundo a fim de poder cantar o que quisesse e vestir o que quisesse sem que ninguém se importasse com isso. Esse era o nosso grande sonho: as pessoas terem liberdade. O axé music nasce em meio à tudo isso, então o que ele representa para o povo brasileiro é justamente essa alegria. E quanto Magia ser ou não um disco político, acredito que a política se faz não só com gritaria, mas também com silêncio. Eu diria que Magia é um disco político silencioso, que fez muito barulho.

Há anos, você tirou Fricote, música que canta "Nega do cabelo duro/Que não gosta de pentear", do seu repertório. Como foi tomar essa decisão?

Quando eu falo que o disco Magia é um disco político silencioso, é porque você pode fazer política discursando ou com atitudes, sem falar nada, apenas fazendo. E eu realmente tirei Fricote do repertório, porque os tempos mudam e a gente tem que mudar com eles para a melhora da sociedade. Se você vive em meio à sociedade, você tem que fazer parte dela e lutar para que ela seja igualitária, forte e bondosa com todos, não apenas com alguns. E, realmente, a letra dessa música não cabia nem naquela época, quanto mais hoje em dia. Naquele momento, muitas coisas eram naturalizadas, mas isso não significa que estivessem corretas. A sociedade precisa evoluir, porque os erros, que são gigantescos, são feitos por pessoas. Cada atitude preconceituosa é danosa para todos. A sociedade é uma, mas é feita de vários segmentos e de várias realidades. Então, não teria como cantar essa canção hoje de forma nenhuma. Mas eu sou muito feliz por ter feito essa parceria junto com o Paulinho de Camafeu, um percussionista extraordinário, parceiro de Gilberto Gil e nome importantíssimo na história da música da Bahia. E essa faixa se transformou em reflexão. Ao não cantá-la no show, mesmo quando muitas pessoas pedem, eu faço com que elas reflitam que é uma canção animada, mas que contém uma letra errada.

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