Crítica // A graça ★★★★
Sob o manto do catolicismo, uma nação deu poder ao exemplar jurista Mariano Di Santis para que encampasse o papel de presidente da República italiana. Ainda que firmado (e filmado) na base da ficção, o mais novo longa de Paolo Sorrentino (do premiado A grande beleza), como esperado, zela por extremo capricho técnico e por cenas que fixam na retina dos espectadores.
Vencedor da Taça Volpi de melhor ator no Festival de Veneza, e grande colaborador de Sorrentino, Toni Servillo entrega uma performance de alta excelência. Inteligente e muito além de íntegro, Mariano tem quilos de ensinamento para repassar para todo e qualquer político brasileiro. Vive na decência e abomina laivos de corrupção.
Quando o ministro da Justiça Ugo Romani (Massimo Venturiello), íntimo amigo de Mariano, requisita tratativa interventora em temas espinhosos, o presidente sabe contornar. Fiel à toda prova para com a falecida esposa, ele honra, por demais, e se realimenta de memórias.
Hábil condutor de temas éticos, o cineasta (e roteirista Sorrentino) manobra, com emoção e com propriedade, temáticas que acercam o protagonista, como o ataque amoroso da embaixadora lituana, as décadas de amizade com a especialista de arte
Coco Valori (a ótima Milvia Mangliano) e a percepção de quando deve se expor e agir.
Papa das imagens, o cineasta italiano crava um icônico Papa negro, e montado numa motocicleta — algo que se torna inesquecível, bem como o jogo com a apreciação do presidente e um engenheiro especial, desprovido de gravidade. Ladeado pela filha Dorotea (Anna Ferzetti), e atiçado por completos desconhecidos, como Isa Rocca e Cristiano Arpa, Mariano será rigoroso, às vésperas de se aposentar, com avais relacionados a indulto, clemência e eutanásia. Um cinema poderoso.
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