
A inspiração para o rap vem no dia a dia, enquanto Gustavo da Hungria Neves dirige o carro, e se, olhando para cima, vê um trabalhador trocando a luz elétrica, pode brotar nisso a inspiração para uma música a ser escrita. "Admiro nele, principalmente, pela pessoa que constatei que ele é; pelo que eu vi: a música dele traz o que ele realmente é", aponta o ator Gabriel Santana, que estrela Hungria — A escolha de um sonho, com estreia para 7 de maio. Conhecido pela série Os 12 signos de Valentina e pelo remake de Pantanal, Gabriel está pronto para a escala dos milhões arregimentada por Hungria, quando se fala em fãs, acessos na internet e em montantes de rendimento.
Do filme, conduzido por Izaque Cavalcante e Cristiano Vieira, resta pesada incógnita: se, ao lado do enredo de origens, na fase "pé descalço e poeira", o filme trará espaço para seu desempenho vocal. "Ainda não vi o filme também. A pré-estreia vai ser um impacto para todos nós. Na preparação, e nas gravações, minha voz em músicas foi registrada. Ali, entendi a personalidade do Hungria, seu lado artístico, e, como eu não sou um imitador, a intenção nunca foi que eu fizesse parecido com ele; mas que soasse familiar para quem ouvisse", adianta o intérprete para o Correio.
Feito em ponte entre produtora paulistana e local, o filme tem no elenco André Ramiro, Ricardo Pipo e Chico Sant´Anna, entre outros. Descreve parte da estrada rumo aos sucessos Insônia, Lembranças e Zorro do asfalto do hoje estabelecido Hungria Hip Hop, de 34 anos, que, nascido na Ceilândia se viu criado na Cidade Ocidental, filho de ex-empregada doméstica e de um funcionário público.
Até a escalada com obras como Amor e fé e Preta (esta, com participação de João Carlos Martins), Hungria impressionou o ator, a partir da chave da sensibilidade. "Ela está presente quando ele escreve, presente com as pessoas ao redor dele, a sensibilidade é levada para tudo: quando canta, quando vai interagir com as pessoas; com o quer que ele esteja se dispondo a ser no momento, estando disponível a ser o artista, quando precisa, ser o filho, quando precisa, a ser o amigo necessário; ser o Hungria, a fim de servir de inspiração para mim no filme, quando precisei", analisa.
A vinda para as gravações, logo no começo dos anos 2020, tocou Gabriel, crente da arte transformadora "socialmente, tanto em níveis filosóficos, sociais e educacionais". Prova disso esteve na convivência com o rapper. Experiências compartilhadas com a roda de amigos, atenta a uma música nem mesmo lançada. "Ali, vi o brilho no olhar dele, a emoção na voz dele. É algo que me fez tipo admirar muito mais o Hungria que eu já admirava", conclui.
Entrevista // Gabriel Santana, ator
Você tem uma relação próxima com o Hungria? Firmaram amizade?
Durante as gravações, a gente ficou muito próximo. Nos víamos bastante durante a pré-produção, ensaios, ia à casa dele, conheci a sua família e os amigos. Ali, começou uma grande admiração da minha parte. Achei ele um cara muito sensível, incrível, humilde — um cara que, mano, andando no carro dele, ele no meio de Brasília, a galera o reconhece. Daí, descia do carro para ir cumprimentar, tirava foto. Fazia isso muito genuinamente. E ele falava para mim: "Só estou aqui por conta deles, sabe? Como é que eu não vou tratar bem?
Qual a grande qualidade dele?
O Hungria é um grande artista. Juro por Deus, eu me encantei muito quando eu o conheci presencialmente durante a pré-produção. Conhecia o trabalho dele, as músicas mais recentes dele. De recente, no caso, falo de 2020 (risos), pois gravamos o filme em 2021. Em 2019, 2020, foi quando eu conheci o Hungria, e as músicas estavam bem estouradas, e todo mundo já o conhecia. Ele tinha alguma coisa diferente dos artistas, um estilo diferente de cantar, uma emoção diferente que ele colocava na voz, os videoclipes dele eram muito bem produzidos. Dali, já notei o diferencial.
Como vê a relação dele com as músicas?
Me impactou ver a emoção que ele colocava cantando ao vivo. Lembro de ir para casa, dos amigos dele, para fazer resenha, ir, ver, acompanhar. Ver como ele era, conhecer a família dele. E há verdade singular no jeito com que ele canta. As músicas dele seriam boas se qualquer cantor cantasse, mas eu acho que ele canta muito o que ele sente, o que ele vive. E ele consegue transparecer isso na voz, e de uma maneira muito incrível. Então, é isso.
Como você vê a predominância do digital num mundo cada vez mais desgarrado do físico e do real?
Tenho opinião algo polêmica sobre. A tecnologia é uma realidade. Wi-fi é uma realidade, streaming é uma realidade, Spotify é uma realidade. Eu poder ver o que um cantor japonês acabou de postar nas redes sociais, uma música nova dele, em tempo real?! A questão não é tecnologia, não é uma plataforma de streaming, não é uma rede social. A questão nunca vai ser a ferramenta criada. Temos que discutir um passo anterior: o como a gente usa essas ferramentas. A gente tem uma sociedade na qual muitas pessoas acabam se viciando em dopamina pelo uso excessivo das redes sociais. Será que crianças de oito ou 10 anos podem ser expostas a tanta dopamina assim?
O que mais demarca a resistência do artista que aposta na qualidade de nunca desistir?
Cara, eu acho que existe uma hiperromantização de algumas coisas na arte e com as quais não concordo. A sociedade e os artistas têm que entender que o que a gente faz é um trabalho. A gente tem que ter dignidade na vida, boas condições de trabalho, viver do nosso trabalho. Em contrapartida, assim como em qualquer outra profissão, quando a gente encontra um propósito na vida, é muito difícil a gente largar. Então, um artista que mesmo com muita dificuldade, tendo que trabalhar em, às vezes, dois, três outros empregos, e, às 22h, vai para o estúdio, faz uma música, grava uma cena, escreve o seu roteiro — encontrou um propósito de vida, e precisa sobreviver. Comisso fico muito triste, porque eu acho que é; "Como assim, cara?; Você é um engenheiro e você não pode exercer a sua profissão?!" Super apoio o artista independente ou o artista que tem, mesmo que, já estabilizado, conseguir viver do próprio ofício, e continuar insistindo.
Qual a sua relação com a capital e mudou muito a visão depois do filme?
Foi muito legal conhecer Brasília. Acho que a gente tem um estigma de Brasília, quem não é de Brasília. Se pensa, primeiro, o que a gente estudou de Brasília. A construção do Plano Piloto, Juscelino Kubitschek, a esfera política. Nos prendemos a estigmas, por não conhecer. E aí, quando eu fui, e pude conhecer os artistas, conhecer a cultura, as pessoas me mostraram o que era a realidade de Brasília fora desse Plano Piloto, nas cidades adjacentes. Foi muito importante para mim, até para me aprofundar no universo do Hungria. Antes, eu já conheci alguns artistas de Brasília. Não tem como não lembrar de Legião Urbana, já conhecia o Emicida, que respeita muito a cena local do DF. Daí, conheci algo do movimento cultural do rap da região. Ver os artistas nos contarem histórias, me mostrarem os lugares; acho que foi um outro nível de aprofundamento. Conheci a cultura do hip-hop de Brasília, que é muito importante para a história do rap nacional.
Como viu a cena de Brasília?
Estar com pessoas do local e ouvir a história, ouvir da galera que faz a cena do rock acontecer, e da música em geral, foi muito bom. A Flora Matos é daí, o Froid, a Tribo da Periferia, o GOG eu descobri que é daí. DJ Jamaica. Então fui descobrindo várias histórias. Atitude Feminina, enfim. Nisso, se entende o quão importante para o movimento cultural de Brasília e do Brasil essas pessoas foram. Entendi algumas referências do Hungria. Entendi que estrada tinha sido construída e a partir de onde ele seguiu a agregar na cena do rap nacional.
