Crítica // O estrangeiro ★★★★
A morte de um árabe e a perseguição coletiva a um jovem de interesse ralo pela vida, e cheio de recusas no dia a dia, trazem mais um exemplar de longa assinado por François Ozon, à perfeição do conjunto de sua carreira. Embrutecido, com uma sensibilidade diferenciada e dono de presença que desperta pouca empatia, o niilista Meursalt traz o ator Benjamin Voisin num desempenho muito interiorizado e repleto de nuances.
A mãe do personagem, posta em um asilo, tenta um digno recomeço — mas, tudo parece tarde, e ela morre (sem em nada, a princípio, participar da trama). Com olhar algo inquisidor, o protagonista vê muitos como "culpados e condenados" e segue uma inexplicável linha de recusa à felicidade, tentando coletar memórias que venham a lhe trazer lucro.
No filme, há sensualidade extrema e um erotismo agudo, sob o direção de fotografia do belga Manuel Dacosse (de filmes como O crime é meu). Baseado em texto original de Albert Camus, Ozon (corroteirista) acerta em cheio com a colaboração de Phillipe Piazzo (autor de roteiros fortes como Está tudo bem, de 2021, e O amante duplo, de 2017). Considerado melhor ator coadjuvante, pelo César, na pele do cafetão Sintès, Pierre Lottin rouba muitas das cenas.
Nada plano, o personagem central tem relações pouco convencionais com a pretendente Marie (Rebecca Marder) e com o idoso vizinho Salamano (Denis Lavant, excelente), enfático no desamor que demonstra, revoltado, pelo cachorro que o acompanha. Filmado no Marrocos, que faz as vezes da Argélia dos anos de 1930, o longa é intrigante, ao misturar temas como solidariedade, escassas esperanças, frentes de pecado e devaneios de Meursalt, sempre indiferente, solitário e ambíguo.
Saiba Mais
