Entre a oportunidade de trazer uma trama que cercasse fatos controversos da carreira de Michael Jackson, morto em 2009, sob gritante endividamento pessoal (até mesmo em termos de imagem), a adaptação feita na cinebiografia Michael, que chega aos cinemas, se rendeu ao poder do oportunismo. O tributo, numa trajetória que precede os escândalos pessoais, foi a estrada segura escolhida por Antoine Fuqua, o diretor do filme estrelado por Jaafar Jackson, sobrinho de Michael, e filho de Jermaine, um dos produtores executivos do longa. Outro desvio foi prudente: evitar que o protagonista imitasse o rei do pop.
"Em vez disso, o que Jaafar alcançou foi estar completamente presente no momento e trazer aquele mesmo espírito positivo que víamos Michael trazer para tudo o que fazia", disse o diretor, em entrevista no exterior, defendendo o peso do sentimento evocado entre fãs. Ao custo de US$ 155 milhões, o longa chega, sob a previsão de novo recorde: bater o patamar de US$ 1 bilhão em renda, um marco para qualquer cinebiografia. A estimativa deriva do legado do artista imbatível como o líder do mais vendido álbum, desde sempre, Thriller (1982).
Um ideal de ruptura junto à família, delineada como exploradora, à época do Jackson 5, percorre toda a trama dos infortúnios de Michael, bastante sensível na fase infantil que tem por protagonista Juliano Krue Valdi. Um recorte safo na trama faz tudo desviar de aspectos escandalosos, uma vez que a trama para em 1988. Matéria recente do The Guardian reavivou acusações incisivas de abuso sexual contra menores, no início dos anos 1990, e das quais ao final o astro foi absolvido, em julgamento de 2005. Chamado de "monstro", ele é lembrado, no texto, em declaração de Dan Reed, diretor do documentário Leaving Neverland. Intérprete do pai do fenômeno, Colman Domingo, há tempos disse para a revista GQ que apostaria em nuances. "Na verdade, não acho que o filme tente provar sua inocência", opinou.
"Mentiras descaradas" e a falta de precisão de dados nos esboços do filme incomodaram a filha de Michael, Paris. E na frente de convencimento de que o filme se ateria a fatos, está o recorte da trama, limitado a 1988. Advogado do setor de entretenimento, John Branca (gestor dos direitos autorais do astro da música e produtor do filme) teria desviado da mídia, enquanto o roteirista John Longan (um dos roteiristas de Gladiador) teve por norte "a empolgação e a homenagem".
Trampolim
Com uma frente de sucessos como Human nature, Ben (finalista ao Oscar de melhor canção) I've gotta be me e Billie Jean, incorporada, o filme revela o impulso do cantor, integrado a Motown Productions (a empresária Suzanne de Passe é interpretada por Laura Harrier), mostra, num átimo, o encontro com o produtor Quincy Jones (Kendrick Sampson) e desvenda a construção do álbum Thriller. Antes, expõe a camada de violência reservada por Joseph (Colman Domingo) aos filhos músicos, que presenciam Michael apanhar, com cintadas, nos ensaios caseiros, quando estouravam o hit Stand. Até a tranquilidade relativa na mansão em Encino (Califórnia), o filme descreve parte da pobreza em Gary (Indiana).
Na tela, a "autenticidade" do sobrinho foi festejada pelo diretor Fuqua. E, na contramão da violência, encorajamento familiar veio como qualidade, pelo que contou o astro Jaafar Jackson, particularmente acolhido por conselhos da mãe Alejandra Genevieve Oaziaza. "Ela é muito protetora comigo, sabendo o que está por vir com a atenção que o filme receberá", demarcou o protagonista para a imprensa internacional. Numa das passagens marcantes do filme, o empresário de gravadora Berry Gordy (Treychon Carter) denota: "Michael, você é especial."
Liberdade
Aos moldes de um escudo, o empresário John Branca (papel de Miles Teller) protegerá Jackson para engrenar a carreira solo, sob maior liberdade de expressão e criatividade. Junto com a fixação pela imagem de Capitão Gancho, Peter Pan e companhia, o longa aposta em muito da instância caseira do cantor. As maracutaias e atitudes nada dignas do pai Joe (morto em 2018) estão bem registradas. O galgar ao topo da Billboard vem ilustrado junto com algumas obsessões de Michael, entre as quais a coreografia de Cantando na chuva (1952), a adoração pelos amigos, como uma llama e um chimpanzé, além de citações a Chaplin, Greta Garbo e aos Três Patetas.
A elaboração e um repertório visual para o astro da música, em especial dentro da construção da virada com o clipe de Thriller (a cargo de John Landis, o mesmo cineasta de Um lobisomem americano em Londres), está no topo. Apoiado no desenvolvimento da Turnê da Vitória, o filme explora a potencialização da popularidade de Jackson junto a crianças e revela momentos tensos de saúde como a luta contra o vitiligo e o notório acidente de 1984.
