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"Não há sociedade para todos": Safatle reflete sobre fascismo e democracia

Em livro sobre a ascensão do fascismo que acompanha a extrema-direita, o filósofo Vladimir Safatle reflete sobre a decomposição do corpo social e o adoecimento psíquico das populações

Safatle mergulha numa reflexão da qual é difícil sair ileso -  (crédito:  Cecilia Bastos/USP Imagens)
Safatle mergulha numa reflexão da qual é difícil sair ileso - (crédito: Cecilia Bastos/USP Imagens)

O termo fascismo tomou as ruas e as redes sociais antes mesmo de captar a atenção, de maneira séria, da  intelectualidade acadêmica brasileira. Foi um pouco por conta dessa constatação que o filósofo Vladimir Safatle decidiu colocar no papel o ensaio A ameaça interna — Psicanálise dos novos fascismo globais, que a Ubu Editora acaba de publicar e que o autor lança em Brasília na sexta-feira.  Em 200 páginas nem sempre otimistas, Safatle reflete e busca respostas para o avanço tão confortável da extrema-direita e a aceitação aparentemente (e erroneamente) irracional de ideias autoritárias por parte da sociedade. 

A partir da afirmação de que o fascismo nunca foi o oposto da democracia tal qual está hoje configurada nas realidades ocidentais e de que não há sociedade para todos, Safatle mergulha numa reflexão da qual é difícil sair ileso. "Acho importante fazer uma autocrítica sendo acadêmico, porque a universidade brasileira nunca levou a sério o fato de que o fascismo nacional era um eixo fundamental na formação do Brasil. Era visto como um anedotário, como uma coisa, mais uma vez, retórica. Uma primeira pesquisa rapidamente já demonstra a magnitude do fenômeno", explica o autor, professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). 

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No ensaio, Safatle defende que o fascismo sempre integrou a estrutura social brasileira. "A gente está falando de um país que teve o maior partido fascista fora da Europa", diz o filósofo, ao lembrar da Ação Integralista Brasileira, fundada em 1932 e que chegou a reunir 1,2 milhão de pessoas nos anos 1930. "Essas pessoas não desapareceram. Elas tiveram filhos, tiveram filhas, elas formaram gerações. Na ditadura militar, tinha um eixo, a linha dura era composta de militares integralistas", lembra Safatle. Somado a um processo de degradação econômica que globalmente ganha corpo e a uma dinâmica de decomposição do tecido social, o que Safatle chama de fascismo estrutural está tão presente em 2026 quanto esteve na década de 1930 em processos que geraram o nazismo e o movimento integralista. "Esse é o nosso problema central", acredita o pesquisador, que conversou com o Correio sobre olhares possíveis para uma onda global de instalação da extrema- direita que, talvez, seja irreversível. 


Entrevista// Vladimir Safatle

No ensaio, você fala em fascismo restrito. Pode explicar o que seria? O fascismo está de volta?

Eu nem diria que o fascismo está de volta. Eu diria, na verdade, que o fascismo nunca foi embora. Eu acho importante analisar as coisas dessa forma por uma série de razões. Primeiro porque isso nos deixa mais sensíveis aos tipos e às estruturas de violência que são normalizadas pelas democracias liberais. O fascismo não é uma exceção, é uma norma. Ele está presente entre nós de maneira normal. A questão simplesmente é onde ele está.  Acho impossível, e não faz menor sentido,  falar de forma totalmente abstrata sobre democracia no mundo inteiro sem nunca colocar a questão na perspectiva de quem. Nós temos uma democracia na perspectiva de quem? Porque na nossa perspectiva faz sentido. No bairro onde eu moro, tenho integridade de preservação da minha pessoa, sei que a polícia não vai bater às 5h da manhã na minha porta sem mandado e me colocar numa situação de extrema vulnerabilidade, a ponto de poder mesmo operar um desaparecimento sem maiores consequências. Agora, na perspectiva de quem mora, no Complexo do Alemão, onde você pode matar 122 pessoas sem maiores consequências, essas pessoas até hoje não têm nome, na perspectiva dessas pessoas, falar em democracia é uma obscenidade, demonstra uma incapacidade concreta de entender como esse tipo de precarização da vida dessas pessoas é um elemento normal de gerações em gerações. É assim que a democracia se estabilizou no Brasil. 

E você percebe isso numa perspectiva global?

Não é só um fenômeno brasileiro. Por exemplo, da perspectiva das populações negras nos Estados Unidos, os intelectuais negros descreviam sua situação como fascismo. Não tinha campo de concentração, mas tinha precarizações extremas das vidas dessas pessoas. Um país como França, como Inglaterra, eram países coloniais até o final da década de 1960. No território colonial, você tem guerra de raças, supremacismo, genocídio, massacres administrativos, racismo, ou seja, todos os elementos que compõem o quadro da violência fascista. Essas sociedades normalizaram esse processo. Tudo isso para dizer que nossa solução não está no modelo de democracia que a gente teve até agora. Esse modelo é uma parte do problema. Ele não é uma parte da solução. Não há uma situação normal a retomar. Há uma uma imaginação política a ser mobilizada para que uma outra compreensão do que possa ser uma democracia real e efetiva. 

Você é otimista nesse sentido? 

Olha, sabe o que me deixa otimista? É o nível do sofrimento das pessoas. Só para pegar o caso brasileiro: 15,5% da nossa população tem transtorno depressivo diagnosticado. E 9,3% dessa mesma população têm transtornos de ansiedade diagnosticados. Esses problemas não são problemas individuais. Não tem um quarto da população brasileira que tenha algum tipo de problema individual. Você tem um problema estrutural da sociedade brasileira que tem se manifestado com o sofrimento psíquico das pessoas. Enquanto houver sofrimento psíquico, há insatisfação e descontentamento profundos com a forma de vida social que nos é possível. E enquanto houver esse sentimento, há a possibilidade de transformação. Quando houver uma lobotomia generalizada, aí a gente pode prejudicar a esperança, mas eu acho que isso está na ordem do dia.

O ensaio defende que a possibilidade de fazer parte da parcela da sociedade a ser salva é o que mobiliza o setor da população que hoje adere à extrema-direita. Como isso está relacionado com o sofrimento psíquico? 

Quando a gente vai analisar esses fenômenos do fascismo, da extrema-direita, a gente mobiliza toda uma série de vocabulários psicológicos como se essas pessoas fizessem essas escolhas motivadas por algum tipo de deficit cognitivo, ou são burras, ou estúpidas. Elas acreditam em fake news, são negacionistas, têm deficit psicológico, são ressentidas, frustradas, ou têm um déficit moral, são mobilizadas pelo ódio. Eu acho essas explicações politicamente catastróficas. Só servem para alimentar o nosso narcisismo, porque eliminam a alternativa de entender o cálculo racional que leva essas pessoas a fazerem essas escolhas. A escolha pelo fascismo é racional. Essas pessoas estão pensando o seguinte: essas crises que marcam a nossa época não vão passar. A gente está em crise econômica há 20 anos. E como essas crises se estabilizaram, uma saída é admitir que não tem sociedade para todo mundo. Não dá para prometer sociedade para todo mundo. Então você vai ter uma partilha.

E como isso funcionaria?

Uma parte vai ser protegida, outra parte vai ser predada. Outra parte vai ser objeto de deportações massivas, vai ser objeto de superexploração do trabalho, da máxima espoliação, da profunda precarização das suas vidas. Bem, quando isso funciona com uma lógica de organização social, os elementos para a emergência do fascismo estão todos dados. E insisto: é uma escolha racional. Essas pessoas fazem mais ou menos o seguinte cálculo: não tem recurso para todo mundo. Sou eu ou você. Por que que eu vou abrir mão de mim? É racional falar "eu primeiro".

Como você acha que se chegou nesse ponto e qual seria a alternativa? 

O horizonte das possibilidades de transformação política se restringiu. Isso por toda parte, não só no Brasil. Algumas pessoas me contrapuseram dizendo que racionalmente as pessoas estão escolhendo governos que entregam menos do que os governos progressistas, mesmo que esses governos progressistas não entreguem muito. Parece uma contradição, mas não é. O que a extrema-direita está dizendo é, basicamente, o seguinte: não peçam mais governo, não existe mais governo. Não é uma questão de comparar um programa com outro. A questão é completamente diferente. Quer um pouco dizer:  agora é cada um por si. Então, não espere do Estado nenhum tipo de proteção. Espere que o Estado não te atrapalhe na sua luta pela sobrevivência. Que ele não coloque alguém na sua frente, que ele não te coloque milhões de encargos, milhões de obrigações solidárias. Não peça isso e, se o Estado fizer isso, já está colaborando o bastante. É mais ou menos uma guerra de todos contra todos e cada um tem que saber lidar melhor com as condições elementares de vida. E responsabilizar-se por tudo. E quando você só carrega os indivíduos de todas as responsabilidades, eles se quebram. 

Você cita Carl Schmitt para  lembrar de como o conflito na vida social permite a cisão social organizada numa guerra contra um inimigo que impede a constituição do povo: quem seria esse inimigo no Brasil de hoje?

O que o Schmidt levanta de interessante é falar: "Veja, não tem sociedade que não se organize por meio de uma definição soberana de quem é o inimigo. E a gente percebe isso muito claramente entre nós. Algumas pessoas falam que  entramos em um horizonte de máxima polarização e que isso é muito ruim. Eu costumo dizer o contrário. Acho a polarização fundamental. É um elemento decisivo hoje. É importante você ter dois polos, até para contrabalançar o processo. Enquanto não tiver os dois polos, o polo da extrema-direita vai definir tudo. Ele puxa a esquerda para o centro, puxa a direita para a extrema direita e, quando você vê, não tem mais nada.

 

  •  Vladimir Safatle .. professor  do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci..ncias Humanas (FFLCH) da USP . Foto: Cec..lia Bastos/USP iMAGENS
    Safatle mergulha numa reflexão da qual é difícil sair ileso Foto: Cecilia Bastos/USP Imagens
  • A ameaça interna — Psicanálise dos novos fascismo globais
De Vladimir Safatle. Ubu Editora, 238 páginas. R$ 79,90. Lançamento na sexta-feira, às 19h, na Livraria Circulares (SHCGN CRN 714/715)
    A ameaça interna — Psicanálise dos novos fascismo globais De Vladimir Safatle. Ubu Editora, 238 páginas. R$ 79,90. Lançamento na sexta-feira, às 19h, na Livraria Circulares (SHCGN CRN 714/715) Foto: Cecilia Bastos/USP Imagens
  •  Vladimir Safatle .. professor  do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci..ncias Humanas (FFLCH) da USP . Foto: Cec..lia Bastos/USP iMAGENS
    Vladimir Safatle .. professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci..ncias Humanas (FFLCH) da USP . Foto: Cec..lia Bastos/USP iMAGENS Foto: Cecilia Bastos/USP Imagens
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postado em 13/05/2026 00:01 / atualizado em 13/05/2026 11:19
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