Música

Liniker e Mari Froes levam o Brasil ao palco dos 60 anos do Montreux Jazz Festival

Evento que impulsionou a projeção internacional da cidade suíça reúne grandes nomes da cena global e renova sua histórica ligação com a música brasileira

Criado em 1967 por Claude Nobs, o festival transformou Montreux em uma referência cultural internacional, fazendo da música, da inovação e da abertura ao mundo elementos centrais de seu desenvolvimento -  (crédito:  Lou Barthelemy)
Criado em 1967 por Claude Nobs, o festival transformou Montreux em uma referência cultural internacional, fazendo da música, da inovação e da abertura ao mundo elementos centrais de seu desenvolvimento - (crédito: Lou Barthelemy)

Mônica Cabañas - Jornalista, correspondente internacional e credenciada junto às Nações Unidas em Genebra, Doutora em Educação pela Universidade Santander do México e CEO do Projeto "O Mundo por trás do Mundo"

Poucas cidades no mundo têm sua história tão ligada a um festival quanto Montreux. Ao completar 60 anos, o Montreux Jazz Festival celebra não apenas uma trajetória musical extraordinária, mas também uma relação que ajudou a transformar a identidade cultural e a projeção internacional da cidade suíça.

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Criado em 1967 por Claude Nobs, o festival transformou Montreux em uma referência cultural internacional, fazendo da música, da inovação e da abertura ao mundo elementos centrais de seu desenvolvimento. Segundo a Prefeitura de Montreux, o evento foi determinante para consolidar a imagem da cidade como um polo cultural de alcance global e contribuiu para seu reconhecimento na Rede de Cidades Criativas da UNESCO como Cidade da Música.

Embora carregue o jazz em seu nome, o festival construiu sua reputação justamente pela capacidade de dialogar com diferentes linguagens musicais. A programação desta 60ª edição reuniu nomes históricos e novos protagonistas da cena internacional, entre eles Sting, Van Morrison, James Taylor, Deep Purple, John Legend, Moby, Nick Cave & The Bad Seeds, The Roots, GIVON, Tyla e RAYE. Ao longo de seis décadas, passaram por seus palcos artistas como Miles Davis, Nina Simone, Ella Fitzgerald, Ray Charles, Prince, David Bowie e Aretha Franklin, consolidando Montreux como um dos mais importantes pontos de encontro da música mundial.

O Brasil ocupa um lugar especial nessa trajetória. Desde a histórica Noite Brasileira de 1978, o festival recebeu nomes como Elis Regina, Tom Jobim, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Milton Nascimento, Maria Bethânia, João Gilberto, Marisa Monte, Ney Matogrosso, Daniela Mercury, Emicida, AnaVitoria e Seu Jorge.

Na edição de aniversário, coube a Liniker e Mari Froes representar a diversidade da música brasileira contemporânea, reafirmando uma conexão construída ao longo de quase meio século entre Montreux e o Brasil.

A edição comemorativa dos 60 anos marcou também o retorno do festival ao renovado Centro de Convenções 2M2C, com a reabertura de espaços emblemáticos como o Auditório Stravinski e o Montreux Jazz Lab. O impacto do festival vai muito além da dimensão simbólica.

Cerca de 250 mil pessoas participam anualmente do evento, movimentando hotéis, restaurantes, comércio, transportes e serviços em toda a Riviera Vaudense. Para a administração municipal, o Montreux Jazz Festival é um dos principais motores do desenvolvimento turístico e econômico da região, funcionando como um embaixador internacional da cidade e fortalecendo sua visibilidade muito além do período do evento.

Liniker: arte, memória e futuro no palco de Montreux

Ao longo de seis décadas, o Montreux Jazz Festival recebeu algumas das vozes mais importantes da história da música. Na noite de Liniker, porém, não era o peso dessa tradição que dominava o ambiente, mas a sensação de testemunhar uma artista em pleno domínio de sua arte.

Diante de uma plateia que lotou a sala, a cantora brasileira conduziu um concerto de rara intensidade, reunindo potência vocal, sofisticação musical e uma beleza que ultrapassava o palco e alcançava o público. Gravado ao vivo durante a histórica edição que celebra os 60 anos do festival suíço, o espetáculo revelou uma artista capaz de transformar técnica, emoção e presença cênica em uma experiência coletiva marcada pelo afeto, pela celebração e pela força da música.

 Liniker au Montreux Jazz Festival en 2026
Liniker conduziu um concerto de rara intensidade, reunindo potência vocal, sofisticação musical e uma beleza que ultrapassava o palco e alcançava o público (foto: Lionel Flusin)

A potência do show ajuda a explicar o lugar que Liniker ocupa hoje na música brasileira. Mas sua presença em Montreux revelou algo além da intérprete premiada e da compositora reconhecida internacionalmente. Durante o workshop realizado pelo Montreux Jazz Festival, que acompanhamos, e em conversa com a reportagem, Liniker revelou-se uma artista profundamente interessada nas pessoas, nas histórias de vida e na capacidade transformadora da cultura. Nascida em Araraquara, no interior paulista, Liniker atribui à arte a possibilidade de sonhar outras realidades e ampliar horizontes que pareciam inalcançáveis. Para ela, a cultura não surge como ornamento da vida, mas como instrumento capaz de alterar destinos e abrir caminhos.


Essa visão também ajuda a compreender a dimensão de sua presença em um festival que recebeu nomes como Elis Regina, Gilberto Gil, João Gilberto, Nina Simone, David Bowie e Miles Davis. Ao refletir sobre sua trajetória, Liniker demonstra plena consciência do legado que a precede. No workshop, falou sobre Elis Regina como exemplo de entrega absoluta à canção, destacou a generosidade de Gilberto Gil com as novas gerações e lembrou a influência de Ney Matogrosso na quebra de convenções e na expansão das possibilidades da arte brasileira. Mais do que referências musicais, são artistas que ajudaram a moldar sua compreensão sobre criação, liberdade e responsabilidade artística.

A mesma profundidade aparece quando fala sobre o álbum Caju, trabalho que consolidou uma nova etapa de sua carreira. Ao comentar o processo criativo do disco, Liniker revelou a influência de sua vivência no Candomblé e descreveu a música como um espaço de cura, autoconhecimento e transformação. Em suas reflexões, a criação artística raramente aparece dissociada da experiência humana. Compor, cantar e subir ao palco são formas de elaborar vivências pessoais e compartilhá-las com outras pessoas, transformando histórias individuais em experiências coletivas.

Talvez seja justamente por isso que sua presença em Montreux tenha adquirido um significado que ultrapassa o sucesso de uma carreira individual. Primeira artista trans a alcançar marcos históricos na música brasileira, Liniker evita transformar conquistas pessoais em ponto de chegada. Sua preocupação está voltada para aqueles que virão depois. Em uma de suas reflexões mais marcantes durante o festival, deixou claro que não deseja ser exceção, mas parte de um caminho que permaneça aberto para outras pessoas. Em um dos palcos mais importantes da música mundial, Liniker não representou apenas uma trajetória de sucesso. Representou um Brasil plural, criativo, diverso e profundamente conectado à força transformadora da cultura.

Mari Froes e o Brasil plural que emocionou Montreux

Na histórica 60ª edição do Montreux Jazz Festival, Mari Froes protagonizou um dos retratos mais sensíveis e autênticos da música brasileira apresentados nesta edição do evento suíço. No Auditório Stravinski, principal palco do festival, a cantora e compositora goiana levou ao público um repertório que transitou com naturalidade entre MPB, samba, bossa nova e jazz, construindo uma ponte entre tradição e contemporaneidade.

Em suas canções, referências ao imaginário popular brasileiro, às lendas, aos símbolos culturais e às diversas matrizes que formam a identidade do país surgem sem hierarquias ou preconceitos, compondo uma obra artística tão brasileira quanto universal. O próprio festival destaca a artista por sua capacidade de unir a herança musical brasileira a uma linguagem contemporânea.

Apresentação Jazz
Mari Froes levou ao público um repertório que transitou com naturalidade entre MPB, samba, bossa nova e jazz, construindo uma ponte entre tradição e contemporaneidade (foto: (c) Marc Ducrest)


Escalada para se apresentar antes de GIVON, um dos nomes de maior projeção internacional do R&B contemporâneo, Mari Froes transformou o que poderia ser apenas um concerto de abertura em um dos momentos mais marcantes da noite. Com uma banda de excepcional qualidade técnica e artística, a cantora construiu uma atmosfera de delicadeza, conexão e celebração, alternando momentos contemplativos e passagens que convidavam o público a cantar e dançar. Sua presença de palco, ao mesmo tempo elegante, serena e magnética, revelou uma artista que, aos 23 anos, demonstra maturidade rara e uma identidade musical já plenamente reconhecível.


Ainda pouco conhecida pelo grande público brasileiro, Mari Froes vem consolidando uma trajetória internacional singular. Impulsionada pelo sucesso nas plataformas digitais, pela repercussão de canções como "Figa de Guiné" e "Vaitimbora" e por uma agenda que já a levou a mais de 20 países, a artista segue em circulação por palcos da Europa e das Américas.

Ao final da apresentação, envolveu-se na bandeira brasileira e recebeu uma das manifestações mais calorosas da noite. A imagem funcionou como um símbolo involuntário do concerto que acabara de realizar: o de um Brasil diverso, poético, alegre e aberto ao mundo. Entre os brasileiros presentes no Auditório Stravinski, a cena foi recebida com evidente emoção. Entre eles estava Edmundo Timm, profissional brasileiro responsável há 25 anos pelo canhão de luz da principal sala de concertos do Montreux Jazz Festival. Ao assistir à apresentação de Mari Froes, resumiu sua impressão em uma frase curta e contundente: "Nasce uma estrela."

  • Apresentação Jazz
    Mari Froes levou ao público um repertório que transitou com naturalidade entre MPB, samba, bossa nova e jazz, construindo uma ponte entre tradição e contemporaneidade Foto: (c) Marc Ducrest
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    Liniker conduziu um concerto de rara intensidade, reunindo potência vocal, sofisticação musical e uma beleza que ultrapassava o palco e alcançava o público Foto: Lionel Flusin
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postado em 11/07/2026 19:03 / atualizado em 11/07/2026 19:08
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