
Encarnar Diadorim na minissérie Grande Sertão: Veredas foi um marco, não apenas na carreira, mas, também, na vida de Bruna Lombardi. Ela existe A.G.S.V e D.G.S.V, ou seja, antes e depois de Grande Sertão: Veredas. Convidada pelo diretor Walter Avancini para interpretar Diadorim, Bruna mergulhou de corpo e alma na personagem e no mundo de Rosa.
Ela entrou nos sertões de Minas Gerais, Goiás e Bahia, para uma imersão extrema, com uma caravana de centenas de profissionais armada da parafernália de equipamentos de gravação numa época em que não havia luz naquelas paragens. A superprodução mobilizou mais de 2 mil figurantes durante três meses de gravação, refazendo os caminhos geográficos e míticos do universo rosiano.
Não foi uma atuação convencional. Ela se desfez de todas as comodidades urbanas, vestiu roupas de couro e passou óleo escuro no rosto para que a terra ficasse grudada. Calçou botas, enfrentou mosquitos, cobras, lama, poeira, frio e sol. Encarou a elegância da dança de um escorpião em ataque. Tentou apagar qualquer vestígio exterior de mulher. Extasiou-se com o silêncio, o canto dos pássaros e a solidão dos gerais. "A solidão num lugar desses dissolve quem somos e a gente se torna o lugar", escreveu.
Sentiu o arrepio da morte na pele quando o cavalo que montava disparou sem direção. Tornou-se íntima de Diadorim e de Grandes Sertão: Veredas. Não trocou de figurino, mudou de alma. É essa experiência radical de vivência interna e externa que ela registra, com intensidade poética, no Diário do Grande Sertão (Ed. Autêntica). O livro celebra os 70 anos de publicação de Grande Sertão: Veredas.
Nos diários, Bruna prometia escrever, algum dia, uma ficção sobre as mulheres fortes de sua família. E ela escreveu. Bruna autografa, a um só tempo, dois livros em Brasília, dia 30, às 17h, na Livraria Travessa do CasaPark: O diário do Grande Sertão e o romance Mulheres que sentem espíritos (Ed. Record), inspirado na força ancestral feminina de sua família. E, nesta entrevista, Bruna fala sobre a aventura épica e espiritual que viveu para interpretar Diadorim na minissérie clássica que democratizou o clássico de Guimarães Rosa considerado um monstro intransponível para muitos: "Eu virei sertão. O sertão está em mim, é a minha raiz".
Entrevista// Bruna Lombardi
Você diz que escreveu esse diário para não enlouquecer. O que era enlouquecedor na experiência de encarnar Diadorim naquela minissérie no meio do grande sertão? Era a personagem ou as circunstâncias de viver a personagem?
Olha, era um misto, de um lado tinha essa grande quebra da minha pessoa para mergulhar dentro de uma nova pessoa, Diadorim, que é um ícone com características muito fortes. Para isso, eu tinha de vencer meu medo e ter a coragem que nunca piscava, que era de Diadora. Exigia uma entrega absoluta, deixar de ser eu e ser outra pessoa. Isso do ponto de vista dentro de mim, com a maravilha de construir esse personagem único da literatura mundial. Mas houve, do ponto de vista externo, o mergulho no sertão de quatro décadas atrás, o Brasil profundo, que não conhecia luz elétrica, televisão. Isso teve um lado maravilhoso, o quanto o sertão me envolveu e eu me tornei o sertão. E de outro lado, era uma vivência tão difícil que, realmente, tinha um impacto muito grande. E era uma irrealidade acima de tudo, tínhamos 300 figurantes homens que não sabiam o que faziam, uma enorme caravana nossa, com luzes, grua, gerador, nunca vistos. E gente que nunca tinha visto luz elétrica. O mundo urbano é acelerado; aquele do sertão é parado. Então, lidar com esses dois polos foi enlouquecedor. Eu carrego o sertão dentro de mim até hoje, é minha raiz. A minha vida existe antes e depois do sertão.
Como você entrou nesta história? Como foi transformar em minissérie para tevê um dos livros considerados mais difíceis da literatura brasileira?
Essas coisas não acontecem porque a gente quer, tem um mistério na vida que aparece, e a gente tem de abraçar. Eu conhecia muito bem a obra do Rosa desde a adolescência. O meu livro era todo sublinhado. O Walter Avancini fazia pressão: "Você tem de fazer esse projeto, é o mais ambicioso da tevê brasileira, porque senão vou cancelar." Não imaginava que eu pudesse fazer essa personagem com tanta paixão. É preciso entender a alma da personagem, não é uma troca de cabelo, é uma troca de alma.
E qual é a importância da experiência do ponto de vista feminino?
O Ítalo Moriconi, autor do livro Como ler Guimarães Rosa, disse para mim algo muito interessante: "Bruna, você tem ideia de que seu diário é o único registro que existe do ponto de vista do Diadorim? Toda história é contada a partir do ponto do Riobaldo Tatarana, do ponto de vista dos homens". E, realmente, Guimarães Rosa aponta um mundo machista, onde não cabe a mulher. Tanto não cabe que Joca Ramiro cria, desde o nascimento, a filha Diadorina como se fosse homem. Porque nenhuma mulher poderia sobreviver no sertão, naquelas circunstâncias de um mundo regido por jagunços. Ele ensinou essa filha a ser um homem para protegê-la. Já é uma atitude de um feminismo antes da discussão. É um precursor em falar nisso. Como o romance é narrado pelo Riobaldo, pelos críticos homens, muito envolvidos com esse universo, nunca se pergunta o ponto de vista da mulher, da Diadorina. Meu diário só fala do ponto de vista do Diadorim. E um registro vivencial, não é formal ou de estudo, é de profunda experiência. Passei 100 e poucos dias no sertão. É muito tempo, você vira o sertão.
Gostaria que você evocasse a experiência da disparada do cavalo, durante o período de filmagens da minissérie sobre Grande Sertão: Veredas, em que você quase morreu.
Ali, quando você está em uma experiência que vai morrer, é tão rápida a sua reação que não dá tempo para raciocínio neste minuto. O cavalo saiu em disparada, e eu achei que ia morrer. Tudo estava na velocidade daquele cavalo. Fiquei achando uma pena que fosse morrer, pensei, tenho filho, muito jovem, não era, ainda, a hora para mim. Mas, se estiver escrito no meu destino, eu vou fazer dessa experiência um momento à altura. Em vez de estar contraída, nervosa, vou me entregar a esse instante, com espiritualidade, com elevação, me sentindo próxima de um poder maior de deus. E acho que isso que me salvou. Treinei muita equitação, todas as pessoas que caem, levam o tombo porque o corpo fica tenso e rígido. Se você acompanha a ondulação do cavalo, não pesa e não cai. Um dos problemas é a tensão, fica rígido, você cai. Eu me deixei levar pelo momento, e essa leveza me salvou.
Guimarães Rosa dizia que lia Clarice Lispector para a vida e não para a literatura. Você diria o mesmo, qual é o impacto que essa literatura teve em sua vida?
Na verdade, eu conheci Clarice, fui até a casa dela. Quando era adolescente, lia tanto a Clarice quanto o Rosa. Foi muito legal porque tudo que a gente lê soma para o que a gente se torna. Tem uma coisa curiosa, lembro das mulheres da minha família e penso na força feminina. Na minha emoção, estava presente. Diadorim é a contenção de não poder ser mulher. É uma repressão profunda. E, no diário, quatro décadas atrás, eu disse: um dia ainda quero escrever sobre essas mulheres. Finalmente, escrevi sobre essas mulheres no romance Mulheres que sentem os espíritos (Ed. Record). Fala exatamente o que imaginei que ia falar um dia. É muito interessante, a vida te dá sinais, se você presta a atenção. Os dois livros estão sendo lançados com pouco tempo.
Como você tematiza o feminino na ficção Mulheres que sentem os espíritos?
Sempre quis falar sobre essas mulheres da minha família, que se ligam com a ancestralidade e se descobrem pela união. A personagem principal é Lorena, mulher de 43 anos, separada do marido e que acaba de perder a mãe. Ela entra neste momento de luto, com a dor da perda, vai arrumar o quarto da mãe e descobre segredos. Tinha uma vida secreta, parte com uma irmã adotiva, vão para a Grécia, lugar de origem da mãe. Joga cinzas da mãe no Mar Egeu. E começa uma odisseia dessas mulheres unidas, que descobrem não só os segredos da família, vão descobrir a si mesmas. Tem uma força de amizade e de querer a vida. O livro fala do nosso sagrado feminino, da nossa ancestralidade, da conexão espiritual, da intuição. O destino é um personagem importante do livro. Fala de a gente parar de fugir de nós mesmas e, finalmente, nos tornarmos quem somos.
Grande Sertão: Veredas é considerado um monstro até por estudiosos da literatura. Na sua visão, como se aproximar e ler esse livro?
Existem vários autores que escrevem como se aproximar de Guimarães Rosa. A verdade absoluta é que você se aproxima com o coração. O autor escreve com o coração. Não me aproximei de uma forma acadêmica ou intelectual. Li quando era adolescente, li mais tarde, e, depois, reli umas duas vezes. Quando você lê um livro de coração aberto, sem escrever uma tese sobre ele, como uma pessoa que se apaixona por uma história, entra dentro dela e aprecia essa linguagem muito típica. É a linguagem do sertão, conversei com o Manuelzão, ele fala daquele jeito. Rosa escutou essas pessoas que ninguém estava escutando. Na verdade, não é um livro difícil.
Diário do Grande Sertão De Bruna Lombardi
Ed. Autêntica/158 páginas
Mulheres que sentem espíritos
De Bruna Lombardi
Ed. Record/ Lançamento em 30 de julho, na Livraria Travessa, CasaPark, às 17h, com autógrafo de Bruna Lombardi.
Severino Francisco
Subeditor do caderno de cultura e cronistaJornalista desde 1979, atuou como repórter, editor, articulista, crítico cultural e cronista no Jornal de Brasília e no Correio Brasiliense. Lecionou jornalismo no UniCEUB. É autor, entre outros, de Da poeira a eletricidade , história da música de
