
Se Nelson Sargento cantou que o samba "agoniza, mas não morre", o rock brasileiro parece ter encontrado, quatro décadas depois, uma situação parecida. Já não domina as rádios, não dita sozinho o comportamento de uma geração e divide espaço com uma quantidade quase infinita de sons, artistas e plataformas. Ainda assim, ele está longe de ser esquecido.
No C6 no Rock, festival que reuniu em São Paulo artistas responsáveis por alguns dos discos mais emblemáticos do rock brasileiro dos anos 1980, uma cena chamou atenção: entre camisetas de Plebe Rude, Titãs, RPM, Inocentes, Cólera e Paralamas do Sucesso, havia um público que sequer havia nascido quando esses álbuns chegaram às lojas. Durante os dois dias do festival, o Correio conversou exclusivamente com artistas que participaram da programação para entender o lugar do rock brasileiro quatro décadas depois de seu auge.
Philippe Seabra, vocalista e guitarrista da Plebe Rude, conta que a banda tem encontrado nos shows um público cada vez mais jovem. "É bacana isso, a gente está sentindo", afirmou. Para Seabra, o mais significativo é perceber que o discurso da banda, criado nos anos 1980, continua encontrando ressonância. "É uma coisa dos grandes shows de rock", brincou, ao comentar a resistência de jovens que enfrentam horas de espera e calor para assistir às apresentações.
Para André Mueller, baixista da Plebe Rude, a presença de jovens mostra que existe uma nova geração encontrando o gênero, ainda que ele tenha deixado o holofote e retornado ao que chama de seu "habitat original", o underground.
Paradoxo do rock
A permanência, porém, não significa que o cenário tenha permanecido o mesmo. Muito pelo contrário. Nos anos 1980, o problema era quase o oposto do atual. A internet não existia, os meios de divulgação eram limitados e poucas bandas tinham conseguido abrir caminho para uma geração de músicos jovens. A Plebe Rude surgiu em Brasília sem saber que poderia construir uma carreira a partir de músicas feitas por e para jovens.
Hoje, a porta de entrada é muito maior, mas a quantidade de gente tentando atravessá-la também. "Hoje em dia, você tem uma plataforma enorme para divulgar, só que você tem muita competição", resume Seabra. Se antes era difícil chegar ao público por falta de canais, hoje é difícil ser ouvido em meio ao excesso deles.
Nasi, vocalista do Ira!, aponta outro obstáculo: a radiodifusão. Segundo ele, o rock perdeu espaço nas programações das rádios e, para ouvi-lo, muitas vezes é preciso procurar emissoras ou circuitos específicos. Edgard Scandurra, guitarrista do Ira!, acrescenta também o modo como as pessoas se encontram. "Era uma época das pessoas se encontrarem nas ruas, nos bares, ter uma coisa pessoal", lembra. "Agora cada um fica no seu nicho, na frente da sua tela."
Marcelo Capucci, baterista da Plebe Rude, defende que é no encontro presencial que uma banda autoral pode ser descoberta. "A gente precisa sair de casa para se encontrar com a cultura, e não ficar só no feed scroll infinito, porque não vai trazer os livros e nem as músicas. As pessoas precisam sair de casa e assistir as bandas autorais", alerta.
Philippe Seabra vê justamente aí uma das coisas que a tecnologia ainda não conseguiu substituir. Com o avanço da inteligência artificial e das ferramentas digitais, a música pode ser produzida, distribuída e consumida de novas maneiras. Mas há algo que permanece dependente do encontro entre artista e público: o show.
Sonho de futuro
Segundo Lobão, a tecnologia permitiu às novas gerações alcançar produções e timbres melhores do que os disponíveis nos anos 1980. O que ainda não apareceu, em sua avaliação, é uma nova figura capaz de dominar a cena, como ocorria nos anos 1980. "Falta uma cabeça poética que apareça e domine a cena. Que seja uma pessoa que peite, que chame atenção, que as pessoas amem ou odeiem." A provocação, para Lobão, é parte da própria essência do gênero. "Porque o rock é essa provocação, não apenas entretenimento."
Marina Lima rejeita essa ideia. Para ela, as novas gerações não precisam reproduzir o que foi feito naquela década. "Eu sou dos anos 1980 e o mundo caminhou", diz. "Às vezes para o lado, às vezes para trás, mas caminhou, dentro do que ele pode."
Na visão da cantora, os múltiplos artistas das novas gerações são justamente uma consequência natural da passagem do tempo: "Tem um monte de gente boa surgindo e preenchendo espaço do que precisa ser dito hoje. Eu acho legal se ouvirem meu trabalho como ponto de partida para ajudar as pessoas a entenderem o mundo a partir de outras perspectivas e levar isso adiante no seu trabalho. Agora o mundo mudou. E eu não quero que seja igual a como era quando eu tinha tantos anos. Não dá mais."
Senhor respeitado
Para o cantor Paulo Ricardo, o rock se tornou um "senhor respeitado", ao lado de gêneros como o blues e o jazz. O auge passou, mas a influência ultrapassou a música e chegou à moda, às artes, ao comportamento e à atitude. "Tem rock em tudo. O rock é um símbolo universal", afirma.
No público do C6 no Rock, essa transmissão aparecia de maneira quase literal. Daniele Carvalho, de 15 anos, conta que começou a gostar de rock porque o pai e a tia a levavam aos shows. Ana Beatriz, de 12, também chegou ao gênero por influência da família. Otávio, de 13, cresceu ouvindo rock com a mãe e já encara os shows como parte da rotina. "Eu, realmente, estou animado, não só para o de hoje, mas para vários shows de rock no futuro", contou.
Para essas novas gerações, o rock não chegou, necessariamente, pelo rádio ou pela indústria fonográfica. Chegou pela sala de casa, pelo carro, pela playlist dos pais, pelo ingresso comprado pela família e, finalmente, pelo palco. E talvez seja nesse espaço que o rock brasileiro tenha encontrado uma de suas formas mais resistentes de sobrevivência atualmente.
*Estagiária sob a supervisão de Severino Francisco
