dramaturgia

Microssérie vertical no Instagram e investiga os afetos na era das redes

Produção criada e protagonizada por Rafael Americo e Marilia Curtolo, "POV" tem cinco episódios semanais

Um like é flerte? Demorar para responder significa desinteresse? O que é possível saber sobre alguém a partir do que essa pessoa escolhe mostrar nas redes? Essas perguntas, cada vez mais comuns em um mundo conectado, são o ponto de partida de POV (Point of View), microssérie vertical criada e protagonizada por Rafael Americo e Marilia Curtolo que estreou nesta sexta-feira (21/8), no Instagram.

A primeira temporada, intitulada Mais um primeiro date, acompanha em cinco episódios curtos — lançados semanalmente — o encontro entre Nicole (Marilia) e Filipe (Rafael), dois estranhos que, antes mesmo de se sentarem frente a frente, já se conhecem por meio de fotos, stories, curtidas e outros fragmentos digitais. O problema, porém, é que conhecer o perfil de alguém não é o mesmo que conhecer a pessoa.

Nicole, arquiteta de 28 anos, construiu uma presença online pautada pela estética e pela produtividade. Já Filipe, administrador de 31 anos, atravessa um momento de transição e mantém uma postura mais reservada. Quando enfim se encontram, entram em cena não apenas os dois, mas também as expectativas criadas a partir do que cada um escolheu mostrar.

A narrativa explora a distância entre pensamento e performance. Enquanto os personagens tentam conduzir o encontro e administrar suas imagens, o público tem acesso ao que se passa em suas cabeças – revelando diferentes versões de uma mesma situação. “Cada episódio revela uma nova camada desse encontro e mostra como, nas relações contemporâneas, muitas vezes conhecemos primeiro a narrativa que construímos sobre alguém”, explica Marilia.

Fruto da fagulha

O projeto teve origem em 2021, durante o curta-metragem Fagulha, também da dupla. Naquela época, eles começaram a investigar as transformações nos afetos e perceberam que as redes sociais já eram parte inevitável dessa conversa. “Foi na época do curta que tudo começou. Estávamos interessados em observar como as relações estavam se transformando e percebemos que existia uma camada impossível de ignorar: a das redes sociais”, contam os criadores.

Ao longo da pesquisa, ideias sobre a chamada modernidade líquida ajudaram a ampliar o olhar, mas o projeto ganhou forma principalmente a partir da observação do cotidiano e das experiências pessoais. Em POV, um simples like vira flerte, uma mensagem ignorada gera inúmeras interpretações, e uma reação a um story pode dizer muito – ou absolutamente nada. A série brinca com esses códigos e as pequenas paranoias que surgem antes mesmo de um encontro acontecer.

POV nasce desse contraste. A gente quer criar conexões verdadeiras, mas também vive em um ambiente onde está o tempo inteiro escolhendo o que mostrar sobre si. A série não quer responder se isso é bom ou ruim. A ideia é colocar essa conversa na mesa e deixar que o público se reconheça nela”, comenta Rafael.

O título, além de significar Point of View, é também uma expressão incorporada ao vocabulário das redes. “É quase um meme atemporal. Quem vive na internet entende imediatamente essa linguagem”, explicam os criadores. O nome sintetiza ainda uma das ideias centrais: uma mesma situação pode mudar completamente dependendo de quem a observa.

O formato vertical e os episódios curtos não são uma limitação, mas uma escolha narrativa. “Não queríamos apenas falar sobre as redes, mas usar as redes como espaço de encontro com o público”, diz Marilia. Filmada em São Paulo, a produção traz cenas gravadas nos próprios apartamentos dos criadores e no Caso Bar, em Pinheiros, locação principal do primeiro date.

O elenco conta ainda com Bia Rezi, Arthur Alfaia e Lucas Pineal. A equipe criativa inclui Fernando Tavares (fotografia), Júlio Costa (figurino), Gabriel Braga (design gráfico), Ricardo Granado (assistência de direção) e Leo Santos (assistência de fotografia). Como produção independente, o projeto exigiu trabalho colaborativo próximo. “O mais prazeroso foi perceber o poder do coletivo e a sinergia que se formou ao longo do processo”, afirmam os atores.

As referências vão desde comédias românticas dos anos 2000 e novelas até produções contemporâneas como The invite e The drama, mas a principal fonte foram situações reais do dia a dia. “Não existe um personagem ou uma obra específica que tenha dado origem à série, mas uma combinação de filmes, séries, linguagens e, principalmente, situações que fazem parte da experiência de se relacionar hoje”, comentam.

Sobre os criadores

Rafael Americo é ator, diretor e artista multidisciplinar, com passagem por festivais nacionais e internacionais. Fundador da FEFÉLPROD - FIRMA CRIATIVA, integrou produções como Não foi minha culpa (Star+) e 13 sentimentos (Globoplay), além de mais de 14 montagens teatrais. Em POV, assina direção geral, roteiro e edição.

Marilia Curtolo é atriz, bailarina e diretora de movimento, com formação que transita entre dança, teatro e audiovisual. Protagonizou os curtas Fagulha e Fissura, integra o elenco de RAULS (Netflix) e assinou direção de movimento em projetos como o longa Meu sangue ferve por você e a performance de Nina Maia no Lollapalooza 2026. Em POV, une criação e atuação, trazendo sua experiência entre interpretação, corpo e movimento.

 

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