
Odette Ernest Dias nasceu em Paris, França, em 1929. Começou a estudar música aos 12 anos, quando passou a fazer aulas de piano e canto com uma vizinha, e, quatro anos depois, em 1945, teve contato com o instrumento que a acompanharia por toda a vida: a flauta transversa. Na sequência dos estudos musicais, graduou-se no Conservatório Nacional Superior de Música de Paris e, em 1952, juntou-se à Orquestra Sinfônica Brasileira, no Rio de Janeiro, a convite do maestro Eleazar de Carvalho.
Era o início de uma mudança completa na vida da francesa que viria a fazer história na música brasileira — mais importante, na arte brasiliense. Em 1974, Odette veio à capital para ser professora titular do Departamento de Música da Universidade de Brasília (UnB); na cidade, ficaria mais conhecida pelas rodas de choro que promovia aos sábados no seu apartamento da 311 Sul. Com o sucesso da iniciativa, funda, oficialmente, o Clube do Choro, que ganha um espaço improvisado no subsolo do gramado do Eixo Monumental, onde funcionou por mais de 30 anos. Em 1994, se aposenta da UnB e volta ao Rio de Janeiro, onde continua a dar aulas de música até 2020. Odette Ernest Dias morreu em 24 de dezembro de 2025, aos 96 anos, na capital carioca.
Levar a história de vida da flautista ao papel é o projeto mais recente do Coletivo Maria Cobogó que, desde 2021, homenageia personalidades marcantes de Brasília com o lançamento de biografias voltadas ao público infantojuvenil. Nesta quinta-feira, o bar Beirute (109 Sul) recebe o lançamento de Odette Ernest Dias, escrito por Ana Maria Lopes e Marcia Zarur, e Nunca é para sempre, de Solange Cianni, também do Coletivo, a partir de 18h30.
Odette Ernest Dias faz parte do projeto educativo Mestres Cobogós, criado para manter viva a memória de grandes artistas. "O projeto tem a intenção de pegar essas pessoas que vieram para Brasília e a transformaram numa cidade mais palatável e alegre, que trouxeram cinema, música e teatro, para Brasília se consolidar como a cidade linda que ela é", conta Ana Maria Lopes. "A proposta visa levar o conhecimento delas para as escolas públicas do Distrito Federal, para que os jovens possam tomar conhecimento e se sentirem pertencentes à cidade a partir dos biografados."
Para Marcia Zarur, é necessário que os jovens conheçam a história de Brasília para que possam amar a cidade. "A gente acredita que o Brasil tem um problema de falta de memória, e o projeto vem para suprir isso: para as pessoas saberem quem foram as personalidades tão importantes na criação e consolidação na identidade de Brasília", diz. "É importante fazer com que as novas gerações não se desconectem com a essência da cidade, porque a gente só cuida do que ama e só ama o que conhece."
O livro traz, no final, um encarte com propostas de seis atividades pedagógicas desenvolvidas pela pedagoga e escritora Solange Cianni: apresentação do livro, oficina sensorial de corpo e movimento, produção textual, oficina criativa e apresentação do resultado do projeto. "Queríamos que o conteúdo se transformasse também para a sala de aula e pudesse ser trabalhado de forma interdisciplinar, mais lúdica, para as crianças aprenderem", explica Marcia.
Beth e Jaime Ernest Dias, filhos de Odette, participaram da construção do projeto cedendo relatos à Marcia e Ana Maria sobre a mãe. "Eles compartilharam um pouco da personalidade dela. Conhecíamos ela de ouvir tocar, mas, nessa conversa, entramos nessa coisa da Odette mais dentro de casa, a mãe, o círculo mais íntimo", diz Marcia. Para elas, os relatos criaram uma maior afeição pela flautista. "Os filhos mantiveram os olhos amorosos. Eles deram subsídio da vida doméstica, até na vida com o pai no Rio de Janeiro, quando ela tocava em rádio", diz Ana Maria.
A biografia relembra histórias marcantes de Odette em Brasília, principalmente nas rodas de choro promovidas no Concerto Cabeças, no gramado em frente ao prédio onde morava, na Asa Sul: sentindo falta de um piano no grupo, a flautista amarrou o instrumento que tinha em casa e desceu-o pela janela; em outra ocasião, quando Odette percebeu que a natureza da quadra respondia positivamente à música. "Queremos que as pessoas leiam e se afeiçoem deles", define Marcia.
